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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Meus cinco anos de Bailei na Curva

Nesse outubro, a peça “Bailei na Curva”, do diretor Julio Conte, está completando trinta anos. A obra é considerada um clássico moderno do teatro gaúcho, que influenciou e mudou o panorama das artes cênicas aqui no estado, inclusive, fazendo sucesso em outros lugares do País. Porém, mais do que toda essa importância para o campo social e cultural, “Bailei na Curva” também tem papel muito importante para mim, explico: foi o tema da minha primeira matéria para um jornal, cinco anos atrás, justamente sobre os 25 anos da peça.


Quem quiser ler o texto, ele tá aqui.

Meu primeiro estágio, na realidade, foi no Rádio da Universidade (UFRGS), na qual o então diretor André Prytoluk, professor do curso de Publicidade da mesma instituição, me deu a vaga após uma breve conversa. Fiquei por lá por cerca de seis ou sete meses, apesar de ser um bom legal para aprender, eu tinha um grande interesse em descobrir o jornalismo impresso – e o Jornal da Universidade parecia o lugar ideal para isso. Aí, acabou surgindo uma vaga por lá, e como a seleção ainda não era realizada por testes, acabei sendo indicado pela Sandra de Deus, então secretária de comunicação e também professora da UFRGS, para uma vaga no JU (apelido carinhoso do impresso). 

E, então, tudo começou de fato para mim. Acredito que foi por lá que moldei algumas das minhas crenças e costumes que carrego comigo até hoje, nesse pouco tempo de “carreira” (não gosto muito do termo, mas...). Conheci excelentes profissionais, em especial a Ânia Chala e a Caroline da Silva. Apesar de, no nome, ser um jornal, na verdade a publicação está bem mais para revista, em seu espírito editorial e tempo de publicação (é mensal). Talvez pelo maior período de apuração e edição da matéria e também mais espaço (é um jornal padrão standard), sentia-me mais propenso a ser criativo e, como era a primeira matéria que ia produzir, queria que ela ficasse muito boa - então, realmente me puxei. Não me recordo exatamente como essa pauta caiu para mim, mas era na área da cultura, e me lembro de que sempre quis trabalhar por aí, então fiquei muito satisfeito. Havia visto a famosa peça no colégio, mas não me recordava exatamente dos detalhes e do contexto. Encontrava-me no terceiro ou no quarto semestre da faculdade, ainda não tinha aulas mais técnicas de texto. Foi tudo no feeling apoiado na ideia de escrever uma matéria interessante, em três atos, fazendo uma espécie de brincadeira com o roteiro de uma peça de teatro. Entrevistei quase todos os atores da primeira geração do espetáculo e alguns da nova, assim como o crítico Antonio Hohlfeldt, o ator Zé Victor Castiel e, é claro o diretor Júlio Conte (escrevi sobre essa experiência aqui). Realmente entrei na história e produzi um texto gigante e, claro, um pouco pretensioso, acho que tinha algum parêntese no título, originalmente, e também tinha a ideia de fazer o primeiro parágrafo de cada cena, como se fosse descrevendo a época, no mesmo formato de um roteiro de uma peça. Na minha cabeça ficava bem...

É aí que entra a importância da Carol, que me ajudou bastante durante a produção dando dicas de como seguir na matéria e de quem entrevistar e orientações do texto também para buscar aquela almejada clareza e tirar os preciosismos, que não combinam necessariamente com um texto jornalístico – ou sim, depende do momento. Também, é claro, orientação da Ânia, e a edição do texto principalmente pós-produção, deixando mais limpo e coeso, e me chamando para me orientar, quando fazia isso. É o modo como um editor deve agir, ainda mais com um estagiário que, em tese, está aprendendo. Descobri que jornalismo se faz em conjunto. Por essas e outras, o JU foi um grande lugar para trabalhar. Por essas e outras, eu gostei da ideia do jornalismo impresso, da área cultural. Uma das coisas que me marcou nessas entrevistas sobre “O Bailei na Curva” era o modo como eles acreditavam naquilo que eles criaram, a força da expressão artística e da criação sempre me interessou e, nesse momento, aquilo me despertou para o jornalismo cultural também, e toda a sua responsabilidade de ser algo além da simples divulgação. Começava a criar em mim a crença de que o aprofundamento é algo necessário no jornalismo, o ímpeto de que a reflexão sobre a pauta e o objeto a ser discutido deve ir muito além do que a simples informação – apesar, é claro, de entender hoje que tudo é necessário.

Mas foi por lá, em algum momento nessa matéria, que tudo começou a se formatar para mim. Se eu pudesse falar com o Rafael Gloria daquela época, eu agradeceria. 


sexta-feira, 1 de março de 2013

Meus 25 anos

Não me sinto tão diferente de quando eu tinha dezesseis anos, o que muda é que fica mais fácil. Fica mais fácil tudo, na verdade: perceber, esquecer, superar, tentar. Com 25 anos me sinto aberto para tentar de tudo, ao mesmo tempo que me sinto preocupado de não conseguir nada. Mas isso é coisa minha e da minha cabeça que procurar prever as possibilidades para não se machucar  depois. Para não se perder mais.

Sinto vontade e penso grande sobre tudo que acontece ao meu redor, sinto falta da cumplicidade dos amigos diariamente, algo que tive no colégio, na faculdade, e não sinto agora. Talvez eu me sinta um pouco solto. Tenho, é claro, grandes amigos, mas não os vejo com tanta frequência. E nada é melhor do que uma boa conversa sobre a vida, porque falar, conversar, é um modo de organizar o seu mundo, você. A vida é uma chegada eterna a epifanias baratas em conversas muito importantes. Ou pode ser o contrário também.

Com 25 anos, a gente pondera demais sobre as coisas, quando devia simplesmente viver sem estar preocupado. Estar ansioso, ou receoso, não me leva a nada. Se preocupar com suas características inerentes, não leva a nada também.

Com 25 anos, a gente começa a pensar no que já fez. Com quem se reuniu, o que conquistou, as experiências que obteve. E me sinto bem nesse campo até, pois eu vivi, amigos (e vivi amigos). Eu senti muitas coisas, muitos sentimentos, muitas pessoas, e momentos tão divertidos, quanto tristes. Criei laços que certamente vou levar até fim.

Com 25 anos, a gente percebe que limitar é necessário, afinal, você deve tomar decisões. Decisões que podem nem sempre parecer boas, mas que podem se mostrar corretas tempos depois.

Acho que  o que importa com o tempo é o quanto você consegue evitar se iludir. Ninguém precisa armar contra si mesmo, mas todo mundo faz isso um pouco. São os abafamentos diários os males mais ariscos, as palavras não ditas, os medos não compartilhados, as vergonhas alheias, as opiniões não dadas, o medo de machucar...É desse modo que se morre aos pouquinhos, lentamente. E com 25 anos, você vai percebendo, porque fica mais fácil.


sábado, 13 de outubro de 2012

Meu vô



Agora à noite o meu vô quase morreu. Meu vô tem 82 anos, 83 anos a serem completados no dia nove de dezembro. Eu moro no mesmo terreno que o meu vô, isto é, somos vizinhos há 24 anos. Minha idade. Meu vô parou de trabalhar há muito tempo, aposentou-se cedo devido ao emprego: era tipógrafo numa época em que se moldavam as letras ainda com aquelas máquinas grandes, bem antes dos computadores, e se trabalhava com metal pesado (e perigoso), como o chumbo. Ele exerceu a função um bom tempo no Correio do Povo. Meu vô aposentado com quarenta e poucos anos passou a dedicar a sua vida à casa. Cresci, então, com meus avós por perto, em todas as situações, como um segundo porto seguro.

Estar por perto não é a mesma coisa de intimidade ou proximidade. Meu vô não é uma das pessoas com quem fui mais íntimo na minha vida, na verdade, não o conheço muito bem. Raramente ele me falou do seu passado ou contou histórias e eu, raramente, fui atrás, ou perguntei para saber mais sobre ele. Entretanto, às vezes, você só precisa estar lá para ajudar. E meu vô sempre esteve lá por mim.

É difícil vê-lo assim deitado, sem conseguir andar direito, sem se lembrar das pessoas, de nós. Ou lembrar, e esquecer, confundir, ver coisas que não há. Ouvir músicas do Carlos Gardel e perguntar da onde vem o som, quando só ele está ouvindo. Meu vô piorou consideravelmente nas últimas duas semanas e foi tão abrupto. Numa hora estava dirigindo, andando pela rua, ou na sacada descascando bergamota e comendo. Agora assim, deitado, sem conseguir caminhar, sem conseguir lembrar das coisas, sem falar, meu vô, é quase como um castigo.

E agora à noite meu vô teve uma parada cardíaca. Tudo aconteceu tão rápido, que escrever sobre parece algo tão simplório perto disso tudo. Eu estava lá, ajudando meu vô a se vestir, juntamente com a minha tia e o meu pai. A ambulância do plano de saúde que pagamos estava demorando e acabamos ligando para a SAMU. O que se demonstrou o certo: eles chegaram rapidamente e a tempo de salvar a vida do meu vô.  Pude ver todo o ato, meu vô atirado no chão, a massagem cardíaca impulsionando o coração a bater de novo. O som angustiante da caixa elétrica, dos aparelhos, as seringas, a adrenalina sendo injetada diretamente, e enfim, o pulso.

O coração do vô parou por cerca de 4 minutos. E voltou.

Então, eu ajudei a colocá-lo na ambulância, eu e o meu pai e os paramédicos. Eu, ao contrário dos outros, não chorei muito, vô. Mas não é porque eu não me importo, eu me importo, eu me importo demais. Só que meu choro besta é mais interno e meu corpo dói agora. Mas eu estava lá e quero estar lá por você, vô.




segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Meu bem

Você tem que parar de pedir desculpas.

Não espalhar sorrisos aos quatro ventos

como se estivéssemos dentro de uma propaganda de margarina.


Dominar o receio

de não ter desassossego, articular com seus medos

todos os contratempos, os desalentos e

esquecer que está no meio.


De tanta coisa.

De tanto sono.

De tanta espuma.

De tanto afeto.

De tanto concreto


Bem,

É preciso desacordar todos acertos

e todas as noites pirar um pouco.

Só assim a gente piora para depois sim, melhorar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Meu pequeno frasco

Queria descrever Eliana como alguém que sempre usou aquele vestido azul com as duas alças compridas sem decote – tudo que ela mostrava era o espaço bonito que ficava entre os seus seios e o pescoço. Queria descrever ela assim porque é uma das lembranças mais remota que tenho na minha cabeça sobre ela. Faz parte da época em que costumávamos passear apenas nós no sítio do tio João, meu tio, irmão do meu pai, ambos já falecidos. Queria falar de Eliana assim, mas tenho medo de começar a descrevê-la e limitar ainda mais meu pensamento. Sou do tipo que guarda as coisas em pequenos frascos; gosto mais das frases curtas que explicam grandes coisas, de uma ideia “menor” para uma ideia “maior". Conceitos, não? Por isso acho melhor falar sobre a expressão incutida em seu sorriso, espécie de droga que se desdobrava de trás para frente, e que fazia os músculos do rosto dela se estremecerem e ficarem todos empolgados por aqueles pequenos segundos de orgasmo facial. Tipo de droga porque – desculpe o trocadilho clichê – me viciava. E eu poderia ficar horas tentando encontrar alguma pista que explicasse o porquê daquela expressão. E até hoje passo horas tentando entender como eu nunca consegui esquecer isso.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Meu que vem antes

E l e g a n t e m e n t e ela tira a roupa – peça por peça arrancadas devagar. O silêncio toma conta do ambiente e são apenas dez para nove da noite. As pernas torneadas ensaiam passos, enquanto os olhos de Eduardo já dançam. Fernanda só caminha, sentindo uma coceira suave no pé nu ao arrastá-lo pelo carpete. Algo muda quando vai até o rádio e coloca o CD, a música suave, como se cantasse para o amante no meio da noite, deixa o ar cheio de fugacidade. Devagar, ela também começa a cantar, manhosa, sentindo que seu coração pode parar a qualquer momento. Está sim, mais próxima de Eduardo, está sim só de calcinha e sutiã. O ritmo da música aumenta e várias vozes fazem o backvocal, tudo seguindo para o fim. Ela ainda não quer, ele sabe que ainda não é a hora. O cabelo preto curto, e o sorriso grande de Fernanda não escondem nada. O desespero observador de Eduardo e o modo como a segue com os olhos não escondem nada. O amor está nas coisas anteriores.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Meu arranha céu

Cobriu os pés com as meias avermelhadas, procurando calor. Esparramou os dedos por aquele tecido coberto de linhas e emaranhado de lã fabricada manualmente por alguma senhora antiga, com uma máquina velhinha. Começou a pensar em sua vó e deixou o queixo cair até a mão. Morreu tão sozinha aos 82 anos de idade, toda enrugada a danada. “Braba, toda braba. Tinha raiva de gente”, lembrou. E começou a esticar a perna e o pé já todo coberto pela nova meia que ganhara e começou a virar a cabeça para trás, aos poucos. Acabou caindo, caindo com as costas para o chão, o carpete todo marrom escuro amornando a sala. Esticou o pé para cima e reparou nas meias felpudas, quase vivas. Em movimentos aleatórios tapava com o pé esquerdo a lâmpada amarela e depois destapava, iluminando e assombrando o pequeno rosto.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Meu diálogo com Francine G.

5 – 7 – 4 – 8 – 9 – 2 – 1 – 4


TUUUUM


TUUUUM


- Alô

- Alô..Francine?

- Eu!

- Oi...é o Lucas...tudo bem?

- Lucas! Olá, tudo, tudo! Recebeu minha carta?

- Sim, recebi, na verdade acabei de receber. Fico triste pela foto.

- Ah, tudo bem. Tiraremos outras.

- Claro..Olha só, o que fará quinta?

- Quinta quinta...quinta que horas?

- Quinta à noite.

- Hum...ah, vo tá ocupada!

- Que pena...

- Por quê?

- Ah, pensei em fazermos algo..você disse que se mudou há pouco tempo...

- Mas vem comigo na minha ocupação..

- O que você irá fazer?

- Dançar.

- Dançar? Como assim?

- Meu grupo de dança se apresentará, e o senhor está convidadíssimo!

- Estou?

- Sim, te vejo lá quinta feira às 19h. Ok?

- Ok, então. Quanto é? Aonde?

- Ah, não se preocupe, só me procure por lá que eu dou um jeito de te colocar para dentro...é no Teatro da Rua XVI

- Não sabia que dançavas..

- Pois, é..e eu ainda não sei o que você faz..

- Ah, não é nada demais.

- Quero saber tudo, mas pessoalmente..Olha só, tenho que ir para o meu ensaio, nos vemos quinta então?

- Com certeza. Beijo!

- Beijo, até!


TUUUUM


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Acompanhe a história:


Carta 05 --> 29/05/2010

Notícia que só a rua João Sabiá viu -->17/05/2010


sábado, 8 de maio de 2010

Meu caro Carlos Heitor Cony

Então eu nunca havia visto o Carlos Heitor Cony e lá estava ele sentado a alguns metros de mim. Um senhor distinto, graça àquele bigode tão bem aparado, desenhado no rosto. E foi justamente o bigode o principal responsável pela fixação dos meus olhos na figura do escritor, durante a banca de jornalismo literário em que participei recentemente no congresso de Jornalismo Cultural. Era um bigode tão bem cuidado que me fez imaginar que ele, provavelmente, deve carregar um pente especial no bolso do seu paletó só para deixá-lo mais bonito. Ah, para ajudar a completar a figura de cavalheiro inglês, Cony também se utilizava de uma bengala, que só aumentava ainda mais o seu grau de distinção. O bigode, a bengala e a fala rápida, direta, objetiva, esclarecendo, para ele, o que era os princípios de um bom jornalismo. Não sei, mas já é o terceiro jornalista clássico (livros publicados, respeito e um belo trabalho realizado ao longo de muitos anos) elegante que já vi; os outros eram o Tom Wolfe que tive a oportunidade de apertar a mão e o Mino Carta, que tive a oportunidade de entrevistar. Elegância e bom jornalismo caminham juntos? Talvez a elegância do texto e do apuro jornalístico também com o passar do tempo comecem a se confundir e a se misturar com o da vestimenta. Cony que o diga.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Meu futuro eu deixo com os pássaros


Quando você voltar para esse mundo será no formato daquele pássaro que tanto admirava. Pequeno, discreto, com as penas marrons claras. Aquele que solta as asas na rua e voa por aí, sem rumo. Pouco percebido e, justamente por isso, tão livre. Vai pousar nos capôs dos carros, nos canteiros das janelas, nos fios de energia que ligam os postes. Vai roubar a uva na parreira daquela única velhinha que ainda tenta cultivar a fruta na cidade grande. Montará ninho em algum poste, ou em árvore qualquer – um ninho tão forte que nem a chuva ou outra ventania vai ousar destruir. E vai voar por aí e de algum modo dará um jeito de me encontrar de novo. Em qualquer formato, em qualquer circunstância. O futuro a gente deixa com os pássaros.


sexta-feira, 5 de março de 2010

Meu roteiro para amanhã - Postagem Temática

São seis e quarenta e cinco da manhã, quando eu levanto. Ou melhor, nós dois levantamos. Hey, eu estou com aquele bottom de submarino amarelo que você me deu seis meses atrás. E eu me visto, e eu tomo banho para me acordar. Tento me arrumar bem, e aproveito para imaginar alguns diálogos para quando te encontrar. Mas nada disso dá certo, em momentos deveras premeditados. Eu como qualquer coisa e bebo qualquer coisa no café, porque eu realmente não estou me importando. Nem um pouco.


Eu só quero que as próximas seis horas passem voando, e você sabe. Já foram seis meses, assim por entre estardalhaços, por entre oceanos, terras, montanhas e sotaques. O meu nunca mudou. O seu, apesar de provar uma gama de novos, acredito que também não. Ainda deve falar com aquele tom suave tão seu e que almejo tão nosso.


São dez e pouco e eu vou brincar de dirigir novamente. Mas a minha cabeça ainda está em outro lugar, é claro. E ela adora ficar lá. Droga. Não quero prestar a atenção nos sinais e nos inúmeros carros a minha frente. Para que eles me servirão? Para que droga eles me servirão se eles não me levam a você? Prefiro os meus sinais internos, que apontam um só destino. Eles sim sabem das coisa, eles sim sabem o que eu desejo.


E agora são meio dia e pouco, eu preciso almoçar e preciso pensar em o que te comprar. Na realidade, eu já sei. Eu tive aquela ideia que eu te contei, mas parecia um pouco inviável, não é, ainda, o momento. Pensei na flor obviamente, na rosa que eu vou, novamente, te dar.


E não é nem meio dia. Mas já são14:45 da tarde e eu vou passar a lembrar sempre desse horário também. Porque eu estou te vendo chegar, “toda linda e despenteada, que maravilha, que coisa linda”, e sorrindo, olhos emocionados, meio cansado, alegre, alegre, alegre. Eu estarei feliz também, obviamente. Assim como obviamente tímido, por causa da presença dos seus pais, mas é natural. Tudo será muito natural daqui para a frente.


A girar.


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Minha sugestão para o próximo tema é Angústia.


Esse post faz parte do projeto Postagem Temática, no qual é escolhido um tema, por meio de votação, e os blogs devem postar sobre tal assunto. Acesse o Blogsintonizados para maiores informações.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Meu outro eu

Duas e meia da manhã e eu sozinho, quando um barulho vindo da sala chama a minha atenção. Observo pela janela do quarto que alguém abre o portão de entrada de casa. No entanto ninguém, além de mim e dos meus pais possuem a chave certa para isso. Corro até a sala e tranco a porta com o trinque, coloco uma cadeira para dar mais peso e suporte à porta. Como isso poderia ocorrer? Meus pais estariam bem? Foram viajar há umas duas semanas e só voltariam no fim do mês. Roubaram a chave deles. Será que roubaram a chave deles. O negócio é ligar para a polícia.

Duas e meia da manhã quando eu chego em casa vindo da festa da Luiza, estranho que ainda há uma luz ligada no meu quarto. Me lembro de ter apagado todas antes de partir. Meus pais já teriam retornado? Eles só voltariam no fim do mês...não, não pode ser. Bebi demais e estou imaginando coisas. Parece que há movimento dentro de casa. Agora a porta de casa...como assim trancada por dentro? Com o trinque? Que porra está acontecendo aqui..

Ligo as luzes da rua para o intruso perceber que há alguém em casa, disco o número da polícia enquanto observo pelo olho mágico para ver alguma movimentação. Dá para ver as costas do indivíduo, é alguém da minha estatura, com a mesma cor de cabelo: castanho escura. Foi quando ele virou, assim pelo lado esquerdo, falando algumas coisas sem sentido, que eu reconheci o timbre. Depois vi que também conhecia a camiseta, os tênis, o rosto. Era igual a mim. Era eu? Como poderia ser eu ali fora? E aqui dentro também? Eu de pijama e eu lá fora. Isso não existe. É alguma pegadinha? É melhor abrir a porta e ver o que está acontecendo realmente...

Qual é a melhor coisa a fazer numa situação dessas? Ligar para a polícia. Quem quer que esteja lá dentro é um idiota. Se trancar e ficar lá parado. É alguma bobagem. Pegadinha do Thiago. Só poder ser....Aquele filho da puta do Thiago. Mas ele não teria como fazer cópia da chave. A luz ligou. Que espécie de bandido ligaria a luz? Há algo estranho por aqui... barulho na porta, o trinque....

- Quem é você, porra? Que brincadeira sem graça é essa?

- Quem é você é o que eu pergunto...E o que você faz na minha casa?....peraí.... o que é isso? Você é igual a mim! Eu bebi mais do que o normal na festa da Luiza...só pode ser isso..

- Como assim? Você que é igual a mim. Onde arranjou essas roupas? E a Luiza? Você conhece a Luiza também?

- Isso só pode ser uma espécie de brincadeira...

- Sim, uma droga de brincadeira...

- Ou um sonho, um maldito sonho.

- Nós somos iguais, e isso é impossível...

- Sim, é óbvio que eu conheço a Luiza. E finalmente consegui ficar com ela hoje, depois de muito tempo!

- O que? Com a Luiza? Eu gosto dela desde que a conheci! Como pôde? Mas peraí..se você é igual a mim então...

- Ficamos com ela, Rodrigo!

- Então ela sempre gostou de nós?

- Sim, você deveria ter ido lá..

- Mas acho que eu fui de certa forma...agora entra aqui em casa e me conta tudo, quero saber todos os dealhes...

domingo, 3 de janeiro de 2010

Meu ideal

Você picará a cebola para fazer o arroz, eu vou ficar olhando a sua mão adquirir aquele cheiro de tempero tão normal, tão característico. Vai levar a lasanha que eu tanto gosto para o forno e nós vamos comer juntos. Não vai me deixar morrer de fome. Depois eu prometo que preparo – ou vou buscar – a sobremesa. E o clima mudará quando começarmos a assistir aos filmes que eu aluguei: uma comédia romântica, um drama cult, um filme de aventura. Com pausas para algumas bebidas, é claro. Além das nossas músicas favoritas, os clássicos da década de 50, 60, algo moderno que você trará e as conversas filosóficas sobre besteiras – porque elas são coisas sérias – do passado ou do futuro. Prometo até arriscar alguma coisa no violão, mas só porque você estará junto, só porque você tanto insistiu. E é quando a sua risada ficar mais alegre, ou quando a minha se perder com todos esses acontecimentos, que o momento certo nascerá. Por entre os seus olhos ariscos arriscados ou surgindo por entre as mãos brancas cheirando a cebola e tocando nas minhas, os corpos hão de se encontrar. Assim junto com a noite mesmo, tudo se convertendo para tudo que eu sempre quis. Se unindo pelas peles, por entre os corpos em uma só tensão, em um só movimento.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Meu você

Eu cresci acostumado com o seu barulho ao entrar em casa. Eram sempre os mesmos passos: a batida notadamente forte na porta, a estridente caída de chave metálica na mesa e os seus pés preenchendo o silêncio que a casa entendia. E não era só a casa, todos nós entendíamos também e sabíamos de imediato que você havia chegado, porque a atmosfera nos mudava. A sua presença tão distante fazia contraste com o tanto, tanto, tanto do que nunca dissemos um ao outro. E é assim que a sua imagem permanece em minha mente. Fixa, intragável e sempre longe.


E é assim que ela provavelmente permanecerá.


Não adianta construir uma ponte ou um barco. O tempo já não permite tais intervenções entre as nossas estradas. Tudo apagado pelo que eu gosto de chamar de “blecaute mental”. Tudo diluído pelo que eu gosto de chamar de “contraste relevante”. A gente desliga o que não deve importar. Só me lembro da distância metálica da chave, dos seus passos pela casa e a porta batendo cada vez mais forte. Fechando tudo. A música solitária.


Droga que muito de você, eu também vejo em mim.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Meu bom momento

HEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEY, Tom Wolfe está vindo para Porto Alegre na próxima segunda-feira para participar da última edição deste ano do projeto Fronteiras Brasken do Pensamento. O encontro acontecerá no Salão de Atos da UFRGS a partir das 20h.

Quando eu for velho também quero ter uma bengala. e ser estiloso assim.

Depois do parágrafo explicativo é com muita felicidade que matarei uma cadeira lá no Vale (cadeira que não posso mais matar, aliás, mas vou conversar com o professor) para ver o escritor norte-americano daqui quatro dias. E melhor ainda, vou à entrevista coletiva que ele concederá às 17h, antes da palestra. Imagina, há cerca de seis meses nem sonhava em ver Tom Wolfe por essas bandas, agora tenho a chance de fazer uma pergunta para ele.

Isto é, acho que não arriscarei em fazer uma pergunta, já estou plenamente satisfeito em acompanhar a cobertura. Só a chance de observar o velho jornalista escritor falar sobre o Espírito do Nosso Tempo (o tema do seminário) já ta valendo.

E isso tudo é a cereja sob o bolo que é o meu estranho bom momento no jornalismo. Eu que sempre relutei em me aceitar nas condições de um jornalista, vejo-me cada vez mais nesse mundo e cada vez mais sendo sugado por ele. E estou gostando. Serei eu uma espécie de ser depreciativo que acaba gostando de sofrer pelos prazos?

Não sei, mas concordo com a minha professora Márcia Benetti, quando ela disse recentemente que jornalismo não é apenas uma profissão, mas um estilo de vida. Você não consegue sair do seu trabalho, e desligar-se completamente do jornalismo, uma vez que o material bruto da nossa profissão é justamente o que acontece no mundo. Somos jornalistas em tempo integral, a toda hora pensando na sua pauta e no que pode fazer para melhorar aquele texto.


E pior: nós gostamos disso.

domingo, 11 de outubro de 2009

Meu nunca mais

Agora será sempre assim, eu passo reto por ti, e tu passa reto por mim. Os olhos nunca mais fraquejarão, embora no peito ainda seja arrancado um pouco de arranha dor. Arranha meu nunca mais aos poucos, dessa força enorme que me proporcionou todo o esquecimento indigesto. Processo natural e sábio, processo sábio e necessário. Embora a cabeça atrapalhe, embora a música e os contextos anseiem em repetir cenas, novos filmes passam, passarão na mente. Em forma de roteiro duplicado. Em forma de roteiros originais, roteiros mais novos e todas essas coisas que eu adoro repetir que será nunca mais. Meu nunca mais. Para sempre nunca mais.

domingo, 6 de setembro de 2009

Meu bluebird

Até quando você vai cantar aqui dentro do meu peito confuso? O sereno que te alimenta ainda não foi embora de vez. Posso ouvir-te por mais horas a fio, sem perder a meada do destino. É rubro e azul claro, e é meu também. Desfalece a cada nota, em que diz tudo e em que diz nada. Eu não te tranco, está livre para soprar. Bluebird alta voz você sempre em mim terá. O sereno provavelmente um dia há de findar, mas as marcas em que pisa, não mais vão sumir. Cinco segredos entre nós, agora é assim que vai ficar. Você deixa os medos, e eu deixo os sussurros. Troca justa, melhor não há. Bluebird faça o seu ninho porque daqui não vou fugir. Deixa o sereno preto ensaiar performance, a gente arranja um lugar para se esconder. Um dia o tempo em nossa volta, assim como suas asas e seu sopro e a minha vontade vão se misturar. É uma droga, mas é o que posso prometer. Agora canta a música, canta tudo, dorme depois, que a manhã já chega, devagar, serena. Eterna.

Baseado em:

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Meu tipo de erro favorito

E lá vamos nós novamente. Joga a chave da casa para fora. Enche a mala. Pega as suas roupas favoritas. E corta. Lá vamos nós novamente. Faz essa cara de braba, não me perdoa por mais nada. Guarda as mágoas da noite passada. Lá vamos nós novamente. Agora junta todos os sapatos, todos os pertences, pega as jóias que eu te dei e atira no bolso. Da calça jeans surrada. Do tempo que você usava, quando só era minha namorada. Isso. Não faz birra, fazendo birra. Lá vamos nós novamente. Quer me irritar com seus erros redondos? Os seus olhos redondos nos meus (também redondos). Também em círculos por aí. Por que nós somos tão viciados nisso? Lá vamos nós novamente. Pega a montanha de cds, pega as meias, as calcinhas e as outras roupas espalhadas pelo quarto. A porta está logo ali. Pega essa boca, esse corpo, essa perna e coloca para fora daqui. Nem tenho mais pressa, mas medo. De qualquer jeito, lá vamos nós novamente.

sábado, 4 de julho de 2009

Meu final

Meia noite do dia 25 de Julho. Carlos dera entrada na UTI há quase duas horas, foi de ambulância que ele veio. Sangrando por quatro furos de bala, pequenos orifícios apressando a morte. O que ele fez? Não era bandido, assassino, ladrão. Era porteiro. Porteiro de prédio médio em uma cidade média, num bairro médio. Médio é uma boa palavra para catalogar as pessoas. Podemos ter certeza que ele era um homem médio. Mas não de estatura, pois alcançava quase um metro e noventa; não era forte, corpulento talvez. Alguém soprou que ele poderia defender a entrada de um prédio, e o homem alto acreditou. Mas as quatro balas não estavam nem aí. Não se importavam com seu nome, sua idade, ou seus filhos que ele fazia a questão de levar todas as manhãs para o colégio antes de ir trabalhar. As balas só queriam o sangue. Nem se pode culpá-las, afinal de contas poderia ter sido qualquer um. Mas por que ele escolheu ser um porteiro médio?

‘A gente nunca sabe o que pode acontecer’, diz a esposa, segurando uma bolsa rasgada entre as mãos, espremendo-a e depois soltando, depositando toda a raiva no pequeno compartimento. Ela e os filhos aguardavam na sala de espera algum prognóstico. Relutei em ir ao seu encontro, mas eu tinha que me manter perto, pois uma ótima pauta poderia estar nascendo. Tinha que roubar alguma declaração, descobrir o que realmente havia se passado. Algo assim teria que aparecer no jornal depois. Poderia até virar um livro. Seria o meu texto, algo trágico, para que eu fizesse um retrato sensível e humano. Não é desse jeito que as coisas funcionam?

‘A gente nunca sabe o que pode acontecer’, ela repete calmamente, mas quase estourando pelos olhos. Eu, anotando cada palavra, observava ali uma futura mina de ouro. Os filhos ainda pequenos, só aumentariam a dramaticidade. “A vida é estranha, as coisas podem mudar do nada”, ela dizia, chorando e conversando comigo, talvez achando que eu fosse da polícia, ou algo assim. As coisas só melhoraram depois que chegou o médico. Imagino até como escreveria essa cena, talvez o parágrafo final do meu texto:

“O cirurgião finalmente chega à sala de espera, e é como se todo o hospital ficasse em silêncio. Ansiando o resultado, a esposa de Carlos retira os filhos da sala, eles seguem com a avó para um recinto ao lado. O cirurgião rotineiro que atendia naquela noite fala quase que prosaicamente, como se dissesse um “bom dia” ao seu colega de trabalho, que infelizmente Carlos, o porteiro, o homem alto, estava morto. Não foi como se o hospital todo tivesse implodido, mas a analogia cairia bem a esposa do falecido. Falando coisas sem sentido ela caiu aos poucos, desmanchando por sensações.”

Obs: Até, Porto Alegre!

domingo, 7 de junho de 2009

Meu arquipelágo

É difícil voltar para casa nesses últimos dias. Triste porque eu sempre soube que vocês não se amavam. Tudo bem, eu suportava isso, e por vezes até esquecia. Vocês também pareciam esquecer. A acomodação era o que movia a nossa família. Acomodação e o esquecimento. O amor acaba, é fato. E não escrevo isso daquela forma clichê sentimental que se lê em todo lugar. O amor acaba uma hora ou outra. Não sei se vocês chegaram a se amar mesmo em alguma época, mas isso não interessa. A verdade é que não dá para viver mais no mesmo teto. Isso está me deixando enjoado (vocês mal se falam, mal se olham, mal conversam).
Chego a fingir coisas para não tomar o ônibus na parada e ir para casa. E a primeira coisa que faço ao adentrar a porta de entrada é me trancar no quarto. Observo vocês também sempre em cômodos diferentes, assim como as minhas irmãs. Pequenas ilhas cada vez mais separadas. Fragmentos de uma unidade que nunca foi bem uma unidade. Falhas a toda hora. E todo mundo afundando rapidamente. A hora da janta é a imagem perfeita da droga da nossa família. Ninguém mais come junto. É verdade.
Queria poder voltar no tempo e consertar as coisas. Que não casassem. Imagino-me chegando na igreja na data do casamento. Na hora que o padre fizesse a bendita pergunta “há alguém presente aqui contra o casamento?”, eu teria uma lista de respostas, todas enumeradas. Tudo bem que eu desaparecesse depois. Talvez desse modo as coisas fossem melhores para todo mundo.