Da semana

"O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja"

Augusto dos Anjos

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Trevoada - postagem temática

Rega todo dia

a terra no pátio,

traz bastante sombra


e


espera pacientemente.

Enquanto se desdobra


uma a uma,

quatro folhas verdes.


Elas desenham

mapas no corpo,

iludem um novo caminho.


Prendem a boa sorte.


Mas também fixam os teus pés

na terra.


(Aproveita e

absorve tudo)


Cresce junto,

pra florescer

o tão esperado

uníco

e necessário

destino.


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Sugestão para o próximo tema: Seu pior medo.


Essa postagem faz parte do Projeto Postagem Temática, no qual é escolhido um tema, por meio de uma enquete, e vários blogs postam sobre ele. Entre no Blogsintonizados para maiores informações

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Meu outro eu

Duas e meia da manhã e eu sozinho, quando um barulho vindo da sala chama a minha atenção. Observo pela janela do quarto que alguém abre o portão de entrada de casa. No entanto ninguém, além de mim e dos meus pais possuem a chave certa para isso. Corro até a sala e tranco a porta com o trinque, coloco uma cadeira para dar mais peso e suporte à porta. Como isso poderia ocorrer? Meus pais estariam bem? Foram viajar há umas duas semanas e só voltariam no fim do mês. Roubaram a chave deles. Será que roubaram a chave deles. O negócio é ligar para a polícia.

Duas e meia da manhã quando eu chego em casa vindo da festa da Luiza, estranho que ainda há uma luz ligada no meu quarto. Me lembro de ter apagado todas antes de partir. Meus pais já teriam retornado? Eles só voltariam no fim do mês...não, não pode ser. Bebi demais e estou imaginando coisas. Parece que há movimento dentro de casa. Agora a porta de casa...como assim trancada por dentro? Com o trinque? Que porra está acontecendo aqui..

Ligo as luzes da rua para o intruso perceber que há alguém em casa, disco o número da polícia enquanto observo pelo olho mágico para ver alguma movimentação. Dá para ver as costas do indivíduo, é alguém da minha estatura, com a mesma cor de cabelo: castanho escura. Foi quando ele virou, assim pelo lado esquerdo, falando algumas coisas sem sentido, que eu reconheci o timbre. Depois vi que também conhecia a camiseta, os tênis, o rosto. Era igual a mim. Era eu? Como poderia ser eu ali fora? E aqui dentro também? Eu de pijama e eu lá fora. Isso não existe. É alguma pegadinha? É melhor abrir a porta e ver o que está acontecendo realmente...

Qual é a melhor coisa a fazer numa situação dessas? Ligar para a polícia. Quem quer que esteja lá dentro é um idiota. Se trancar e ficar lá parado. É alguma bobagem. Pegadinha do Thiago. Só poder ser....Aquele filho da puta do Thiago. Mas ele não teria como fazer cópia da chave. A luz ligou. Que espécie de bandido ligaria a luz? Há algo estranho por aqui... barulho na porta, o trinque....

- Quem é você, porra? Que brincadeira sem graça é essa?

- Quem é você é o que eu pergunto...E o que você faz na minha casa?....peraí.... o que é isso? Você é igual a mim! Eu bebi mais do que o normal na festa da Luiza...só pode ser isso..

- Como assim? Você que é igual a mim. Onde arranjou essas roupas? E a Luiza? Você conhece a Luiza também?

- Isso só pode ser uma espécie de brincadeira...

- Sim, uma droga de brincadeira...

- Ou um sonho, um maldito sonho.

- Nós somos iguais, e isso é impossível...

- Sim, é óbvio que eu conheço a Luiza. E finalmente consegui ficar com ela hoje, depois de muito tempo!

- O que? Com a Luiza? Eu gosto dela desde que a conheci! Como pôde? Mas peraí..se você é igual a mim então...

- Ficamos com ela, Rodrigo!

- Então ela sempre gostou de nós?

- Sim, você deveria ter ido lá..

- Mas acho que eu fui de certa forma...agora entra aqui em casa e me conta tudo, quero saber todos os dealhes...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Carta 01

Ah, não acredito que estou fazendo isso, mas eu encontrei a velha máquina atirada ao canto e de súbito a peguei. Para a minha surpresa funcionava perfeitamente. Pensei em escrever qualquer coisa e veio a ideia de carta. Então lembrei de nós. Dos pensamentos imbecis que eu tinha antes de dormir e como eu gostava de te cutucar com o cotovelo. Só para brincar, só para te iludir, só para me machucar. Daí você vinha com aquelas frases sempre cheias de metáforas...E o maldito modo como você adorava citar o Caio Fernando de Abreu, aquela da planta que cresce a tal ponto que ele tinha que abrir as janelas e depois as portas, derrubar tudo para que ela se expandisse por aí. Essa é uma das minhas analogias favoritas dele. Que desgraçado que sabia mexer tão bem com as palavras. “Você cresceu em mim de um jeito insuspeitado”, eu queria ter escrito essa frase e ter posto em uma camiseta, ou pintado no muro branco que tem lá na frente de casa. Eu seria o cara daquela frase bonita, sabe? E de algum modo, graças a isso, nós ainda dormiríamos juntos. Com certeza. Então estou escrevendo uma carta, mas daquelas que nunca serão entregues. Na realidade, não sei nem para quem escrevo, nem sei que tipo de narrador sou eu. É algo assim perto do Eu Bruto, narrador Eu Mesmo, eu diria. Sem leitor almejado ou pensado. Talvez escrever cartas seja uma espécie de autobiografia, uma biografia bem egocêntrica, não sei. É besteira quem diz que escreve para outros lerem, eu fico feliz em escrever aqui e guardar para sempre. Mas é besteira maior quem fala que não escreve por medo da pressão. Não há outro ato tão natural e tão almejado. Escrever é se expandir em cada linha. Às vezes é preciso abrir as orações coordenadas, mudar os advérbios, substantivos e até tirar alguns pontos finais, para uma frase que você nunca esperou que pudesse ser tão boa. E assim você se descobre mais uma vez apaixonado por isso. É, acho que acabei utilizando a analogia do Caio. Que filho da mãe que escrevia tão bem. Mas posso dar uma de ladrão, ninguém vai ler mesmo.


De mim para mim, Estevão.


domingo, 31 de janeiro de 2010

Teoria número vinte e cinco: sobre os nossos diferentes tipos de construção

Você vai impermeabilizar aquela casa, o telhado, a caixa da água, para não haver nenhuma possibilidade da substância líquida entrar. Vai observar se existe algum vazamento anterior, talvez um pequeno buraco na superfície, afinal de contas qualquer coisa malfeita pode estragar o seu trabalho.

Assim como o meu.

Eu também preciso impermeabilizar todas as frases do meu texto para ver se não há algum ponto que possibilita a entrada de erros, de críticas. Vou sempre observar a construção do nexo entre as sentenças, a originalidade e o modo como vou prender a atenção do meu leitor.

Do mesmo modo que você deve prender a atenção do seu cliente, explicando para ele o que ele deve evitar depois que você fizer o seu trabalho de não deixar a chuva invadir o patrimônio dos outros. De não deixar o mofo tomar conta das paredes e estragar toda uma casa.

Eu também não posso deixar o mofo invadir o meu texto e o meu estilo de escrever. Tenho que sempre observar a narrativa de diferentes ângulos e traçar toda uma armadilha para quem estiver lendo seja surpreendido. Ser original é necessário para não ficar mofado, verde cor de musgo no canto.

Você usa um material chamado mantas asfálticas para proteger o seu trabalho e eu também uso um manto. Um manto invisível para esconder a sub narrativa – aquela que justifica e dá valor ao bom texto – e deixo a narrativa de boas vindas mais à mostra – aquela que é a mais ilustrativa, aquela que é a mais superficial.

Sim, nós dois somos construtores e – mais do que isso – somos excelente no que fazemos.

Crônicas de um repórter novato - parte XIII

Na crônica anterior escrevi que essa coluna sairia do Contagens para outro blog, mas pensando melhor resolvi mantê-la aqui. Fiz isso porque a Crônica de um Repórter Novato é um momento único nesse espaço no qual posso refletir sobre a minha relação com o jornalismo, meus pensamentos, surpresas e medos.


É verdade.


Esse mês aprendi como o jornalismo realmente é, em sua essência, um trabalho em conjunto. Apesar de muito da nossa função como jornalista depender de afazeres individuais, principalmente quem trabalha no impresso, ele só funciona para valer na coletividade. Claro, você precisa de fotos para ilustrar a matéria, você precisa ouvir conselhos dos colegas, do editor. Pode até pensar na diagramação para dar um diferencial para a sua matéria.


Digo isso porque escrevi uma matéria sobre o show do Metallica e queria algo diferente no desenho da página a fim de deixá-la mais atraente aos olhos do leitor. Então resolvi conversar com o editor, trocar algumas ideias do que poderia ser, nisso a subeditora também já deu mais sugestões. Acabamos levando esse pequeno brainstorm para uma diagramadora com vontade de fazer algo diferente e que sabia lidar com certos programas de imagem e ela trouxe mais ideias. Enfim, acabou nascendo uma página bem legal, com a união de ideias e a vontade de fazer algo diferente.


Agora em janeiro também escrevi a minha primeira matéria em dupla para o jornal, outra experiência que se revelou uma grata surpresa. Uma vez que a ouvir e escutar a opinião alheia é um tremendo aprendizado, e é interessante como as ideias se moldam e são tranformadas por outras pessoas, gerando um novo trabalho que pode ser dignamente intitulado que foi feito em conjunto.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Volta sempre

Faz as malas,
pega todas as quinhentas mil roupas
e
deixa tudo que não precisa
de lado.

Dá um último suspiro para
o quarto.
Espia todos os recantos:

Não esqueceu nada?

Apaga a luz e sai.
Quando fechar os olhos
vai se lembrar

das minhas predilações.

E nesse momento
você volta sempre.

Agora você
volta sempre

pra mim.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Top 5 - Óculos e os músicos

O Top desse mês traz os cinco artistas também conhecidos pelos seus óculos. Pelas suas armações, as lentes e como elas influenciaram a moda e consequentemente a vida de muitas pessoas por aí. Foi então:



5 – Elton John





O cantor britânico é um exemplo de como os óculos se modificam conforme a mudança de época e de atitude. Na década de setenta e oitenta, Elton usava grandes óculos, sempre pomposos e bastante ilustrativos – chegavam até a roubar a cena às vezes. Agora, mais sossegado, os óculos estão mais tímidos, mais normais, com formato retangular deitado, mas ainda coloridos.



4 – Bono Vox



Lá pelos idos dos anos oitenta, quando o U2 começou a despontar Bono Vox ainda não utilizava óculos – o que hoje em dia é a sua marca registrada. A armação da Emporio Armani é desejada por vários fãs da banda, ou outras pessoas que tenham mau gosto...Sinceramente, não vejo grande coisa nesse tipo de óculos e não sei por que razão Bono decidiu adotá-los como visual. Mas a verdade é que atualmente não dá para imaginar o vocalista sem utilizar esse acessório. No mínimo, ficaria estranho.


3 Buddy Holly

Buddy Holly não era bonito como o seu rival Elvis Presley, na realidade ele foi o primeiro no rock a não ser necessariamente bonito. Na verdade ele era um pouco nerd, tinha dentes feios e usava óculos. E que óculos. Com a armação grande, linhas direitas e aros escuros Buddy era jovem mas com ar de senhor. O cantor e guitarrista teve uma participação indiscutível na popularização e valorização do Rock’n roll, influenciando muita gente. Mesmo morrendo tão jovem, ele realizou muito – e admiro profundamente isso. O vocalista do Weezer, River Cuomo, é quase um sósia do cantor, prova de que os óculos de Buddy fizeram muita cria por aí.

2 – John Lennon


A armação redonda tão utilizada por Lennon virou ícone de uma geração contestadora. Ele começou a utilizar o modelo após ter saído dos Beatles, e com esse novo artifício acabou influenciando a moda dos anos 70. A armação pertencia a um produtor de TV japonês, que trabalhou como tradutor na época em que os Beatles se apresentaram em Tóquio. Quando Lennon foi assassinado, o produtor retirou as lentes, representando luto. De acordo com a tradição japonesa, só assim o ex-Beatle poderia ver após a morte.


1 – Bob Dylan


O cantor americano imortalizou o modelo Wayfarer, lançado pela Ray-Ban em 1952 e um dos primeiros feitos de plástico. Dylan sempre foi fiel à armação escura, que combina bastante com sua personalidade fechada. Graças ao astro, o acessório tornou-se objeto de desejo para milhares de fãs e é peça comum do visual folk e rock n’roll. Atualmente os mods, indies e outras estirpes adotaram o visual. As cores também variam bastante, indo do branco até o verde limão.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Na praia também


Não sou grande fã de praia e nem um grande fã do que o Luís Augusto Fisher escreve, mas sei que ambos são importantes para algumas pessoas. Falo isso porque achei no mínimo interessante a sua coluna do dia 19 de janeiro no Segundo Caderno (a parte de “cultura” da Zero Hora), que abordava a questão da falta de literatura inspirada pela praia. E como pelas bandas do Sul, Fischer é a maior autoridade para falar sobre literatura, além de MPB , futebol, e não sei mais o quê, tudo que vem dele eventualmente desperta a minha atenção – senão como leitor interessado, como leitor desinteressado.


Mas não quero me perder por meandros, sua coluna me deixou pensativo sobre a questão de não haver muita literatura produzida sobre praia e especificamente sobre as do nosso litoral, abandonado por Deus. Tirando Torres, todo o resto dele é semelhante em sua mediocridade: mesmo vento forte chato, água marrom gelada, e, com freqüência, águas-vivas para deixar aquela marca na perna dos mais desavisados, como esse narrador que vos escreve.


Apesar de tudo, não acho que o nosso litoral seja tão ruim a ponto de não poder inspirar boas histórias, talvez ele apenas ainda não tenha sido descoberto. É fato, a maioria de nós moradores do Rio Grande do Sul busca por praias de outros estados, ou viajamos para localidades onde o calor não impere. A desculpa normalmente é que lá as praias são melhores, com dunas brancas e águas transparentes que lembram piscinas de tão calmas.


Nesses lugares, porém, o que você menos terá é inspiração, pois boa parte do seu tempo será ocupado com o vislumbre – e isso não fornece literatura de qualidade. Experimente passar seu veraneio em Quintão, Cidreira, Magistério, ou Pinhal. Arroio Teixeira, Arroio dos Ratos, todas essas praias com nomes criativos, porque nelas há pessoas com tempo e com vontade fazer outras coisas além de aproveitar o mar e a areia. Nós não queremos pegar só sol, nós não queremos só se banhar. Por que não ler cinco livros, escrever bastante e manter seu corpinho no branco mais estiloso da estação? Aposto que em Porto Seguro você não conseguiria isso...


Nem em Porto Alegre, uma vez que o charme das praias gaúchas está naquele sentimento de finitude que ela nos transmite. Um sentimento que não pode ser encontrado em nenhuma outra parte do estado, quiçá do País (sem querer soar como um bairrista nojento, mas parecendo um pouco). Uma praia como Cassino com seus vários quilômetros de extensão em linha contínua não nos obriga a pensar um pouco sobre a vida ? É a imagem da mais pura e doce contemplação melancólica tão necessária, principalmente nesse período de férias que serve também para organizar o ano.


E tão necessário também na literatura. Talvez os escritores, ou os que anseiam um dia conseguir carregar essa ardilosa alcunha devam prestar mais a atenção nas águas e areias que banham o estado. Refletir sobre o que significa andar descalço na beira do mar com o vento forte te puxando para os lados. Pois sempre é tempo de reflexão, sempre é tempo de escrever - e por que não sobre, e sob, a areia?


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Canto de navegação

Para Juliana Gloria

Me prega uma peça

cheia de reviravoltas,

regada a armadilhas

das várias formas


que existem no mar.


Depois ri de mim,

como quem canta para sereias.

E me diz todas as melhores mentiras,

as histórias de pescadores

que já ouviu.


Prometo acreditar fielmente,

somente na metade.


A outra,

eu vou imaginar.


A outra,

eu vou destruir,

misturar com ondas

e navegar.

Das danças

Não dá para definir se é o corpo ou se é a música. É uma união dos dois que movimenta Francine G. durante os poucos minutos de cada canção, e depois durante a próxima canção – e a próxima. Debaixo das luzes escuras, debaixo do barulho ensurdecedor, da batida que traz cada nova melodia, a morena de um metro e sessenta reacende, revive. Renovada, estonteante, por entre passos de dança que hipnotizariam qualquer homem em sã consciência. Os que já se encontram alterados não merecem entender o que aquela dança significa e o que aquele momento significa. É Francine G. em pura essência. E quando ela dança comigo eu não quero mais nada sinceramente falando, e quando ela pega no meu pescoço e me dá beijos calculados no rosto eu quase perco a cabeça. Pois encontro o que eu sempre quis – e sempre tive medo de achar. No momento que Francine G. dança eu nunca quero que as músicas tenham fim.

 
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