sexta-feira, 22 de maio de 2015

Chumbos

A casa ficava um pouco mais longe, afastada das outras do bairro, e o que mais impressionava nela era o grande pátio, em que a grama crescia alta. Era quase cinco horas da tarde e o sol não ia embora. Muitos jovens do bairro usavam o lugar para tentar se divertir ou passar o tempo jogando conversa fora, o que seja. Eles só queriam tentar pensar em outra coisa que não fosse o calor.

De longe, Antônio escutava um barulho que não sabia reconhecer. Primeiro achou que podia ser alguém batendo em madeiras, alguém quebrando pratos. Apressou o passo e, ao entrar no pátio da casa abandonada, foi direto aos fundos. Lá, Matheus e Henrique empunhavam uma pequena espingarda de chumbinho e faziam das garrafas de vidro os seus alvos.

- O que é isso? – perguntou.

- Encontrei nas coisas do meu pai, na garagem – disse Henrique, enquanto Matheus completamente focado só atirava. As garrafas a gente achou por aí, na rua, no bar tinha algumas também.

- Posso atirar depois? Nunca fiz. Quero ver como é.

- Espera, depois do Matheus é a minha vez. Olha, você pode ir catando mais garrafa para a gente enquanto isso.

Antônio saiu em disparada e, correndo, pulou a pequena cerca que falhava em tentar proteger aquele casarão. Correu até a próxima esquina e começou a revirar o primeiro lixo que viu, mas nada de útil havia dentro. Só muita comida estragada, caixas descartáveis e qualquer outra porcaria que não lhe interessava nada. Precisava da garrafa de vidro. Podia ouvir de longe os tiros de chumbinho, e ficava se perguntando como era quebrar alguma coisa.

Lembrou-se do bar e resolveu tentar a sorte, bater à porta e conseguir um casco. Com bom humor, João, o dono, até ameaçou perguntar o porquê daqueles moleques do bairro, de uma hora para outra, estarem pedindo velhas garrafas de vidro, mas, com pressa, decidiu só dar duas sem pedir maior explicação. 

Partiu, então, triunfante para, enfim, conseguir, quem sabe, dar uns tiros.

Ainda longe, ouviu um grito que logo pareceu tomar todo o ar ao redor da casa e correu o mais rápido que pôde, deixando uma das garrafas caírem no meio do caminho. Presenciou lá no fundo do pátio a grama verde pintada com um pouco de vermelho. Matheus deitado no chão, em choque, com o olho esquerdo todo ensanguentando. Nunca tinha visto um olho daquele jeito. Um pouco mais atrás Henrique também atordoado segurava a espingarda e, subitamente, apontou-a para Antônio.

- Que droga. Por que tu tinha que voltar?

- O que aconteceu?

- Ele me irritou. Ele me irrita há muito tempo.

- Do que tu tá falando?  – e Antônio começou a se mover para ir ao encontro de Matheus. Mas a Henrique o mandou recuar.

- O desgraçado não queria dar a MINHA própria arma, que eu achei nas coisas do MEU pai. Falava que eu não ia acertar nada. Taí a prova. Tu acha que eu não acertaria tu também?

- Não, não. Eu tenho certeza de que tu me acertaria. Mas olha a merda que tu fez. Tu sabe no que isso vai dar?

- Sei, e é por isso que eu não vou dizer nada, e nem tu também. E agora tu vai me ajudar a colocar ele no porão da casa até eu pensar em alguma coisa.

E continuou apontando o chumbinho para Antônio, que se sentiu nauseado com tudo aquilo. Não sabia o que fazer, mas a ideia de ter o olho ensanguentando o assustava muito. Mesmo não querendo, se direcionou até onde Matheus estava, enquanto Henrique caminhava ao seu lado, um pouco mais a frente, com a arma ainda apontada. Ele também tremia, assustado com aquela situação. O que poderia ele fazer?

Antônio, entretanto, parecia exatamente saber o que fazer quando viu o pedaço de uma garrafa com cacos pontudos ao lado de Matheus. Aproveitou o momento de distração de Henrique, que abaixou a arma para começar a segurar Matheus, e rapidamente pegou o resto da garrafa. Em um relance afundou a metade da garrafa entre as costelas de Henrique. Na verdade, mal pensara: agindo por impulso, acabou repetindo várias vezes o gesto para ter certeza de que a metade da garrafa ficaria ali encravada. Então era essa a sensação de quebrar alguma coisa.

Deixou os dois lado a lado caídos no chão e correu, a grama alta toda cheia de sangue, e correu ainda mais para longe do casarão. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Esquina para dois

Vejo-a, novamente, entre tantas pessoas,
é escandalosa e impertinente
(costumava subir em meus ouvidos e
me desafiar com as maiores  baixarias)

Agora suspira, melindrosa, descansando
no meio de tantos corpos da rua;

Não me reconhece ou apenas faz-me crer que não.

A despeito continua sem jeito em tratamento.
Sempre teve receio de se enturmar,
exibida, dizia que precisava relaxar

Arrumava amor novo a cada fim de semana e
eles só queriam o que ela podia dar.
Desse jeito ela navegou
até se machucar.

Entre tantos corpos cantando na rua,
só eu a vi chegar, esquecida
envolta, carregada de feridas.

Eu apenas deixei ela passar,
Decidida ou não sei

Aonde você quer estar?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

27 da noite

Enquanto converso
já é quase 27
da noite.

Há anos, lia-se o Conhecer
em colo da vó
para menos temer
o primeiro dia escolar.

Dorme e já é quase o Médio,
com primeiro beijo sob a lua
no quarto em construção.

Mãos suas, mãos suadas.

Quatro dias de provas
para tentar passar a vida escrevendo.
Mas escrever o quê? Para quem? Quando? Como? Onde?

Por quê?

A gente escolheu se enrolar em nós,
quando a vida segue fluxo de riso,
engatinhando para todos os lados
de várias bocas.

Veio você, você, você, você e você.

Ficaram glórias e tragédias impressas
em jornal.
E o quase nada do Rosa
ainda navegando .

A gente dança entre tragos e estragos.
Vou me mexer até não aguentar mais na cama.

Já é quase fim de noite e o 27 acompanha.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Carentia

Não que nada vá ficar
dela em mim:
Só essa carência
impetuosa, nojenta.

O medo de perder
que te fez ver várias outras
pernas;
abraçar vários outros
corpos;
deitar com tantos
no escuro.

Esquecer é a resposta
para tanto desencanto.

A gente anda é morrendo,
enquanto devaneios.

Um ao outro despistando
os próprios rodeios. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Ninguém vai lembrar – 04

O amigo pode não acreditar, mas é a pura verdade: não há nada mais fiel nesse mundo que um cachorro. É claro que recordo como o Faísca entrou na minha vida, mas o que eu quero mesmo é contar como ele saiu. E, para isso, vou ter que pular alguns punhados de anos. Contar é isso também, não? Posso ir e voltar a hora que eu achar melhor. De acordo? Às vezes quando vou dormir tarde da noite, beirando às duas da manhã, quase que posso sentir o ronco do velho Faísca deitado ao pé da cama, me ajudando a vencer as noites sem sono. Não sou bom em descrições, mas é difícil esquecer um amigo como ele. De porte médio, o pelo raso e claro, Faísca virou Faísca, porque corria muito: ardia os olhos quando ele se metia a sumir atrás de um daqueles pássaros do campo. Mesmo depois de velho ele ainda podia subir um monte mais rápido que eu. Faísca. Faísca durou uns 15 anos, ou melhor, viveu, porque animal não dura, permanece, vive.  Você sabia que os cachorros podem ter as mesmas doenças que os homens têm? Na época, eu não tinha muita ideia que cachorro também podia ter câncer, ataque do coração; não, achava que cachorro tinha doença de cachorro. Quer ver Faísca era mais homem que muito homem por aí...Não sei, mas sabia que havia algo errado, quando ele começou a ficar quieto, apenas em cantos de casa, quase não me acompanhava mais em meus passeios diários pela propriedade. Faísca, velho Faísca, por onde anda. Visitamos um médico de animal que recentemente tinha se mudado e ele diagnosticou câncer, mas como podia ser câncer se essa praga só dava em ser humano. E ainda era um câncer que já tinha espalhado, pelas patas, pelo fígado...Não haveria muitos dias, mas ainda haveria muita dor, me contou. Enquanto Faísca me olhava quieto e eu olhava para Faísca, já em casa, eu tive a sensação de que só eu iria lembrar do Faísca e ninguém mais. Mal se lembram de familiar depois que morre, imagina de um cachorro. Ninguém vai lembrar. Resolvi, então, aliviar o velho Faísca que já chorava de dor até dormir. Escuta bem, porque nunca mais vou contar isso: peguei no colo e parece que ele já sabia, de certa forma, pois me olhava com os olhos bem maiores que o de costume, olhos de quando era filhote e voava pelo pátio. Caminhamos até o horizonte da minha propriedade que dava em uma grama rasa que ele costumava comer quando jovem e dormir quando mais velho. Depositei-o ali e puxei o revólver que sempre carregava comigo. Naquela época, não haviam os tais remédios para aliviar a dor, o que mais eu poderia fazer, o que mais. Nunca mais esqueci aqueles olhos antes de atirar entre eles, antes de não mais emitirem nada. Não eram olhos de súplica, eram de afeto, carinho. Olhos que eu nunca esqueci e que agora, espero, você também não. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Desperto, e é cedo

Não para de dançar,
se não eu paro também
e te esqueço.

Chega de fingir,
que eu silêncio e te vejo
desaparecer aos poucos,
também:

Quem disse que era para ser?
Quem disse que ia resolver?

Aqui, já tá tarde,
para qualquer esforço.

Fora (já saio),
desassossego é praxe.

Deixa, eu construo um pedestal,
e posto a nossa frente,
rente em mim
distante em ti.

Deixo você 

dançar
- só dançar -,
enquanto tudo desperta
e sou levado pelos primeiros
pássaros da manhã.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Carta 15

Desculpe ficar assim, mas é que eu não me controlo. É ridículo, eu sei, e eu não queria ficar desse modo. Estou mais leve escrevendo. Ainda é cedo para tanta coisa e eu nem sei o que te escrever agora, porque eu sinto um misto de tanto e a grande maioria desse tanto está na minha cabeça. Mas por que você tinha que mentir para mim? Eu sei, eu sempre quero saber de tudo, mesmo sabendo, na verdade, que é esse tudo que vai acabar com nós. O que eu posso fazer? Dos teus casos, dos teus descasos. Por que a carência é tão importante para você? Por que não ficar sozinho, por que dar, dar, dar. Isso tem algum valor? Adiantou alguma coisa? Deus no céu e alguém no chão. O que restou disso tudo? Eu apareci, mas poderia ser qualquer um. Não? É o convívio velado que dói e os sonhos e recordações suas espalhadas por ambientes em que não existem ou existem em uma realidade paralela. Uma realidade com sucursal em lugares que você esteve, dando dando dando, por aí. Para quê. A cama é nossa, e já foi de quantos. Estou escrevendo assim, porque me sinto melhor soltando essas ideias bizarras e quero ver se consigo dormir de noite agora, enquanto neva e o sol vem degelar os carros congelados da madrugada. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Eu não sou mais eu

Lembro quando comecei esse blog há exatos sete anos. Eu não sabia o que escrever e me surgiu a ideia de iniciar o primeiro texto com uma curiosidade asteca que teria acontecido naquele dia, ou seja, hoje, 17 de dezembro.

Por mais que eu tenha diminuído a frequência de postagens aqui no Contagens, ele continua sendo uma das atividades que eu mais gosto nessa vida. Reconheço-me e desconheço-me em muitas desses textos. Eu não sou mais aquele que eu era. E eu ainda sou um pouco daquilo que eu fui e, provavelmente, continuarei sendo – até o momento fatídico de não ser mais. 

O momento, talvez, uma das palavras que defina o Contagens.

Ano passado, praticamente há quase 365 dias escrevi o texto “Agora, é claro”, resumindo aquele 2013, que fora péssimo para mim, assim como eu fora péssimo para ele. Em 2014, eu acreditei e aceitei mais. Comecei a entender melhor o meu compromisso como jornalista e pude delinear o que posso vir a fazer.

A vida, de modo geral, ainda continua confusa para mim, mas agora consigo observar melhor o que sempre foi claro e consistente durante todos esses anos. Eu posso ver aqui dentro de mim, e, desse modo, eu também posso ver refletido no Contagens.  As respostas que eu preciso sempre estiveram variando entre esses dois lugares, esperando o momento certo de caírem no meu colo.

E, mesmo assim, é difícil chegar a elas, porque não são redondas, ou prontas. Elas se transformam também, assim como esse blog, assim como eu.

Escrever é a chave de tudo. Assim como o jornalismo cultural na minha vida profissional. E a importância que eu dou para os relacionamentos. Minha vida gira em torno disso tudo. E me transforma periodicamente. Pois, então, decidi escrever mais, trabalhar mais com o jornalismo cultural e prezar ainda mais pelos meus relacionamentos.

Sete anos não é pouco.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Retalhos de tempo - Boyhood


*Não sei o que mais me marcou em Boyhood, são tantas cenas e momentos importantes nessas três horas de filme.  A começar pelo projeto ambicioso do Linklater, um dos responsáveis por brincar com o tempo, como na trilogia Antes do...Em outro de seus filmes, o Jovens, Loucos e Rebeldes ele também já trazia esse assunto da mudança, de passar para outra fase ao abordar a juventude nos anos setenta e a transição para o que eles chamam de high school.  Mas todos esses filmes citados tem a característica de não terem um grande acontecimento em suas histórias. A trilogia é conversa, atrás de conversa, já os Jovens é a rotina de amigos que estão crescendo, mudando de vida, e agora em Boyhood presenciamos uma série de acontecimentos na vida do jovem Mason, saindo da infância, alcançando a juventude e a chegando à faculdade. Não há um plot twist: é a vida assim apresentada e filmada ao longo de 12 anos. Acontece que ali cada período daria um outro filme completo, mas isso não é o importante, aqui realmente cada pedaço vale mais que a soma, porque nós vemos a vida não como uma totalidade, mas como retalhos. Contamos histórias e deixamos outra para trás - não contamos. Por isso que o choro desesperador da mãe de Manson no fim é tão comovedor, “eu achei que teria mais tempo”, diz ela. É, todos nós achamos. Várias cenas ficam na cabeça dessa história reveladora porque traz um pouco de cada um, e principalmente daqueles que cresceram juntamente com Manson, todas referências da cultura pop (outra coisa que o Linklater faz muito bem), estão ali. De Yellow à Arcade Fire. Para todos aqueles que se questionam e se perguntam mais sobre a vida, ver como o jovem Manson cresce e se descobre insatisfeito e sempre pronto para experimentar é mergulhar na própria história. 



*Nova série de posts, em que vou escrever rapidamente sobre algum tipo de produto cultural (filme, livros, jogos, quadro,etc) rapidamente, de forma mais instintiva do que analítica. Reforçando mais minhas impressões do que qualquer coisa. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Dois perdidos em uma noite deserta

A primeira impressão que eu tive ao chegar em seu apartamento é que era tudo tão organizado para aquela bagunça que ela aparentava ser.  Mas desde quando um riso agitado e uma forma de mexer os braços efusivamente significam tragédia organizacional? Sempre tive um problema em julgar pessoas, vai saber. Certo que eu a conheci há apenas algumas horas, ainda na fila daquela festa que, meu deus, estava um saco. Para falar a verdade, eu já não esperava muita coisa por ali, mas, mesmo assim, fui arrastado por uns amigos e pela possibilidade de acabar bem a noite.  E por acabar bem a noite vocês devem saber que algo como sexo sem compromisso, conhecer alguém legal, beber e não vomitar já seriam o suficiente. Não necessariamente nessa ordem, mas ok, talvez nessa ordem de importância.

Era tarde e tinha essa mulher agitada um pouco atrás da fila da festa e que não parava de falar alto sobre uma banda que eu gosto bastante e de como eles são incríveis e de como ela foi a todos os shows que eles fizeram no País...E eu quase já não gostava mais da banda, quando tentando apenas interromper, acabei começando uma conversa que foi andando mais depressa do que todo o resto da fila e deixando de lado as pessoas ao nosso redor, quando vimos já estávamos na festa e rapidamente à frente do seu apartamento.

417.

Tarde da noite e eu ali esperando ela encontrar a chave certa. Tarde da noite, eu com as mãos metidas no bolso, sem graça. Lembrava da última vez que havia feito algo assim, fazia tempo. Não estou me referindo ao sexo, mas ao sexo com outra pessoa que não fosse minha ex-namorada. Confesso, agora, que não sou um homem muito expressivo em conversas, gosto mais de escutar para, depois, tentar esboçar um raciocínio, mas tudo fluiu tão rapidamente que não tinha como não ir para a casa dela, para acabar “bem” a noite, para, então, se tornar algo que eu não esperava que acontecesse e que, desse modo, fosse uma surpresa a qual eu pudesse me gabar no dia seguinte para os mais chegados: “Se lembra daquela guria da fila da festa ontem? Pois é, fui para a casa dela...” Mas no fundo eu sabia que nada disso realmente importava e que as minhas mãos no bolso apenas esclareciam tudo, elas praticamente falavam que se a gente só conversasse já estaria ok e eu ficaria feliz, porque eu queria conversar sobre coisas sérias e não tinha conseguido fazer isso com ninguém ainda. E, com ela, tinha visto uma abertura. Uma pequena brecha nessa eterna fechadura comprimida que é vida.

Meio bêbado a gente pensa em cada coisa.

Quando , enfim, ela conseguiu abrir a porta, pude ver o apartamento organizado milimetricamente. Na estante gigante que encobria toda a parede da sala vários livros de todos os tipos, no qual os de filosofia tomavam a frente. Um pouco bêbada, chegou dançando entre os sofás e ligou o som. Olha a nossa banda favorita aí novamente. É verdade, é verdade, eu sabia que você ia gostar, nossa, esse é melhor álbum deles, não é? Não sei, acho que prefiro o material antigo. Sim, sim, pode ser. No canto, perto do sofá um imenso gato deitava da forma mais confortável do mundo, encarando-me, abrindo e fechando os olhos. Nós acordamos o seu gato, que fatalidade. Qual o nome dele? Dela! Minha única fiel companheira nessa vida, se chama Minerva, a gata. Haha, Minerva como o sabão em pó? Não, Minerva como a deusa romana, sabe? Da sabedoria e das artes...Eu sei, eu sei, estava só brincando contigo. Ah, sim, haha. Mas não brinque muito com ela, ela morde, cuidado. É difícil de ganhar dela em uma briga. Falou isso me mostrando uns arranhões no braço e deixou a sala, disse que ia tomar banho, estava muito cansada e queria tirar aquele cheiro de fila dela, aquele cheiro da festa. Eu concordei e sentei no sofá.

Chuveiro ligado.

Era uma e meia da manhã. E eu só imaginava o modo como a água descia pelo seu corpo. Ao mesmo tempo, a gata Minerva sai do seu cesto-altar e tal como uma deusa, imponente caminha em minha direção. Olhos fixos, ela estanca em minha frente, encostando a cabeça em minha perna. Acaricio-a com um gesto de respeito e afeto, o que ela parece entender. Como é a sua dona, Minerva? Ela te alimenta bem? Pelo jeito sim, né? Pelo jeito sim. Me conta mais sobre ela, me conta. A gata entorta a cabeça, lambe a pata e vira de costas. Atrás de algo mais interessante. Acompanho a caminhada e reparo nas fotos em cima da estante, todas de paisagem, nenhuma de pessoas, nenhuma dela. A música continuava tocando, uma das minhas faixas favoritas.

Chuveiro desligado.

Do banheiro, então, surge pela porta uma nuvem de vapor da água e por meio da neblina improvisada: ela, enrolada de toalha. As pernas morenas e o sorriso aberto. Cabelo molhado escorrendo nas costas, pés sem chinelo, não se importando em sujar o chão, porque ela era assim, ou parecia ser assim, não sei. Disse que ia ao quarto, se vestir, mas que era para eu continuar ali, a esperando. Tá certo, respondi, com as mãos no bolso, olhando ela ir embora.

Tá certo, agora pensei, respirando para imaginar o que poderia acontecer. Estava nervoso como se fosse a primeira vez, a primeira vez de muitas vezes? Não sei. Tá certo, o que eu poderia fazer? Estava destinado a levá-la para o quarto. Agora que eu consegui entrar no apartamento dela, no meio da madrugada, depois daquela festa terrível, eu, enfim, precisava “acabar bem a noite”. Tá certo, a gata Minerva pensava me olhando. Você está pronto? Estou, Minerva. Eu acho. Não sei, Minerva. Eu queria estar pronto? Queria até, eu queria depois que vi a tolha amarrada no corpo dela. Ela disse para eu esperar e eu vou continuar esperando. A gente espera tanta coisa na vida, Minerva. Acho que passou uns 5 minutos, porque tocou duas músicas e o álbum tem músicas curtas,  quando ela saiu do quarto, sonolenta em uma camisola toda acordada, olhando para mim com os olhos cansados e uns olhos assim que eu me lembro de ter visto só algumas vezes em tão poucas pessoas, que eu não sei se era a bebida, a minha confusão, a Minerva me perguntando se eu estava pronto, mas eu resolvi simplesmente pegá-la pela mão e juntos arrastarmos nossos corpos juntos pelo carpete da sala em uma dança juntos quase caindo enquanto um riso improvisado mais alto dela tropeçava em mim. E nem era a minha música favorita.

De repente ficou tudo tão tarde e ficamos tão cansados que ela simplesmente puxou meu braço, levando-me ao quarto, o tão destinado quarto. A tarefa da noite. O álbum já acabara e a gata Minerva dormia. Enrolada na camisola, enrolada na toalha e em mim, ela me puxava. Vem, vamos dormir. Tá tarde. Vem, vamos para a cama. Você vem? Esbarrei na estante e nela e depois na porta e acabei deitando ao seu lado. Os seios encostando em mim, abraçando como se me conhecesse há séculos. Ela, então, virou a cabeça para o lado, deixando os cabelos em meus ombros, como se lá fossem o lugar de origem deles, e dormiu.