sexta-feira, 30 de maio de 2008

correntes

Pedro veio tão nervoso, contando para Jonas o que acabara de lhe acontecer. “Saí do carro agora há pouco...eu tava fechando a porta, já tava meio escuro, final de tarde,o céu se fechando todo, sabe como é..?”. Jonas, largando a pasta na classe, respondeu com um movimento reto e vertical da cabeça, mudando vagarosamente o sentido (cima baixo, baixo cima), para seu conhecido que o tinha pegado de surpresa. “Pois é, foi aí então que um cara baixinho, um metro e sessenta, sessenta e poucos, não sei, chegou do nada, e perguntou se eu tinha fogo...”. Pronto. Jonas já imaginara o que acontecera: mais um caso de assalto. “Devem ter lavado o carro do Pedro” pensou de imediato. Não pôde deixar de exprimir um sorriso interno. Não gostava do conhecido, dividia o assento em dupla, pois era assim que um coordenador da faculdade tinha organizado, desse modo, teve que aprender a conviver com a presença daquela pessoa desajustada e insipiente. “Jonas!”, foi a exclamação de Pedro o que o acordou da divagação partidária. E logo prosseguiu “tá me ouvindo?”, “tô sim, continua...”. “então, como eu não fumo, respondi que não, que caísse fora, que pedisse para outra pessoa. Dae, ele fez um sinal para o meu pneu, para eu olhar. E depois com a mão esquerda, segurou uma corrente...” Jonas já não entendera mais nada. “ o baixinho pegou a corrente de aço e se enrolou nela, amarrou-se, forte, parecia ter uma dessas forças extraordinárias, ninguém viu, só eu. Ele se prendeu tão forte que desmaiou...fui checar as pulsações e batiam devagar. Tirei a corrente dele, e coloquei as no meu carro.” “ E ele? O que houve com ele?” Eu não sei o que aquilo era, depois que larguei as correntes no banco que estavam meio quentes, o corpo foi sumindo, desaparecendo, ao mesmo tempo em que a nuvem fechava o céu completamente.” Jonas estremeceu. Devia ser só mentira do amigo por conveniência. Acabou por instinto, tirando o caderno da sua pasta, depois que ouviu o sinal. A professora já iria chegar. Resolveu responder a história de Pedro apenas com um sorriso de canto, meio que desafiando toda a narrativa. Pedro parou e sentou-se, ainda meio agitado, espalhafatoso, pegou o lápis, mas não conseguia segurar, desistiu na terceira tentativa. A imagem do desaparecimento não o deixava relaxar. Jonas sentiu um cheiro de queimado, de canto novamente, olhou para Pedro, e observou algo brilhando bem fraco, soltou os olhos completos para cima e pode ver o metal da corrente na cintura de Pedro, amarrando o conhecido, prendendo, pouco a pouco, tudo nele.

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