sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Ato II - Sonhar

Apagou os olhos.

De repente estava carregando o pai no colo. O nível da água começava a subir cada vez mais, alcançando os joelhos. Ao mesmo tempo, seu pai não parecia seu pai; era ele, mas mirrado, pequeno, frágil. Crescia em seu coração a certeza de que deveria protegê-lo, que deveria continuar levando-o sabe se lá para onde, sabe-se lá com que força. Já era escuro quando o depositou em uma cama branca. A água agora alcançava um pouco abaixo de sua cintura. Visivelmente cansado, sentou no pé da cama e começou a chorar. Não sabia mais o que fazer.

Agora estava com ela novamente. Na cama que dividiram prazeres, carícias e gritos de pesadelo. Deitados no meio da madrugada, ele podia sentir o vento que entrava pelas frestas da janela. Devagar, se insinuando estrategicamente, ela esfregava a as coxas nele. Logo, estavam enlaçados, beijando-se e mordendo-se mutuamente, como se tudo pudesse acabar no dia seguinte.

Via o cachorro de estimação com quem dividiu dezoito dos seus anos. Morrera vítima de um câncer, morrera na sacada de madrugada, sozinho. Se afastando de todo mundo. Mas agora lá estava ele na sua frente, com a língua de fora, os pelos cor de creme, a expressão alegre em vê-lo de novo. Eles ansiavam o toque, mas sempre que chegavam perto um do outro, alguma coisa impedia. Era impossível brincar.

É noite novamente, ele está em movimento. Do lado não há ninguém. Só consegue ver a sombra do motorista. Ele fuma, um cheiro insuportável. Quer falar algo, mas não consegue. Mexe as mãos para alcançá-lo, mas ele sempre desvia. Parece uma brincadeira. Tudo é tão alegre nesse carro em movimento, apesar de só estar os dois. Consegue ver que o homem tem bigode e parece  sempre meio sorridente. É madrugada e toca música, toca música bem alto e ele nunca consegue falar nada.

Aos poucos abre os olhos, um faixo de luz, dia novamente.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Poema retirado de um erro de fabricação

Gustavo era o responsável pelo caderno de carros do jornal de menor prestígio de Curitiba.
Não recebia muito bem, mas pelo menos podia viajar a convite das empresas.
Fazia o test-drive para depois escrever sobre a sensação de dirigir.
Os carros estavam em várias vezes no jornal.

Terça-feira ele pegou um fiat e quase se acidentou.
Sobre o assunto escreveu uma resenha terrível.
O editor não comprou a ideia.
O carro era popular.
Ia vender, lucrar.
Anunciar.

Julio resolveu ter um carro e juntava dinheiro para um zero.
Barato, mais prestações e propaganda - era óbvio.
Ao sair da loja, uma semana tudo certo.
Até a direção morrer.
Cair no arroio.
Afogar.

domingo, 25 de agosto de 2013

Paixão, entretanto

Ninguém sabe dizer ao certo o exato momento em que se apaixona por uma pessoa. Todos conhecemos, entretanto, aquela sensação pulsante que te prende, que te faz querer estar com o outro. É essa mesma sensação que pode vir a crescer tanto e unir dois indivíduos antes desconhecidos, ou não, em um relacionamento. Tenho amigas e amigos, porém, que frequentemente estão em dúvidas, assombrados por algo que muitas vezes parece se assemelhar a um jogo de caça ao rato, ou pior, a um jogo de adivinhações, cheio de paranoias e preocupações demasiadas (ele não me ligou, ela viu a mensagem e não respondeu na – insira a rede social ou o dispositivo tecnológico aqui – etc.). Quando tudo ficou tão complicado?

Faço um paralelo com a sociedade estadunidense, baseada em competição desenfreada, maior país capitalista, e, por consequência, um paralelo com os produtos culturais que ela produz. Muito da linguagem utilizada por eles,quando falam sobre relacionamentos, vem do jogo, do esporte. Além, é claro, do termo “date”, o encontro. Parece que há fases padronizadas para se conhecer uma pessoa. “First base”, “Second Base”, “Third Base”, termos utilizados no Beisebol e também figuras de linguagem para certos comportamentos, que seriam quase que cumulativos – do tipo, já estamos no terceiro encontro, então é hora de rolar o sexo. Como se tudo fosse assim tão regrado, como se existisse uma normatização para o desconhecido. Quanto a isso, acredito absolutamente que não há, o contato é anárquico e literalmente revolucionário para o seu sistema. Por isso não há ordem nesse caos todo.

Há sim evidências, há pequenas pistas, há atitudes sutis que podem indicar um caminho em comum para ambos. Mas isso deveria vir naturalmente e sem muito esforço, sem tantas brigas, sem tantos joguinhos, paranoias ou padronizações. Há gente que valoriza demais a dificuldade em conquistar alguém, a dificuldade em manter aquele relacionamento, quando o contrário me parece bem mais necessário. A leveza é sempre mais interessante e, no final das contas, não gera tanto ressentimento. Minha experiência, pelo menos, sugere isso: todas as mulheres importantes da minha vida até então simplesmente demonstraram interesse também – sem tantos jogos, sem tanto medo.

Não posso relatar com certeza o exato momento em que me descobri apaixonado, mas guardo alguns dos indícios de que poderia ser feliz com elas – até para lembrar, quando acontecer de novo. A menina que me olhava na escola e cuja carta eu, relutante, enviei. ; a ruiva extrovertida que pegou na minha mão durante um show; aquela que eu deixei um recado no Orkut e em seguida nos conhecemos; a moça do interior que eu ainda confundo com saudade. Todas também tomaram a iniciativa, ou retribuíram sem hesitar a atenção que dei a elas. Quando insisti demasiadamente, ou tentei combater a frieza e escárnio da indiferença, não obtive sucesso. E, nos raros casos que obtive, não foi para frente.

Lembrei  daquele velho ditado que diz que só há duas pessoas no mundo: “Você e todo o resto”. Mas, se lembre de que isso vale para os outros também. Então nos vários e diferentes relacionamentos não pense só em você, mas também no outro –  se ele ainda quer, se você está perdendo o seu tempo – por que, às vezes, simplesmente não é para acontecer.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Gira mundo

No inverno, é verdade que elas se escondem, ou melhor, se camuflam a partir das mais diversas fantasias, das mais diversas roupas, dos ornamentos em forma de cachecóis enrolados majestosamente no pescoço. Sejam sérias, bem-humoradas, sacanas, pueris, amorosas. O frio as faz ficarem mais contidas, mas isso não significa que parem de se comunicar ou se comuniquem menos. Não, só há formas diferentes falar.  É só prestar a atenção para ver que sempre que andam cansadas, ligam o “foda-se” e não se maquiam totalmente, esquecem-se daquela parte que não seria esquecida em qualquer outro dia normal – e é isso que faz toda a diferença. Saem para a rua, um pouco mais irritadas, pisando mais firme no chão, mais propensas a não aguentar as suas baboseiras e, meu amigo, eu sei que você é propenso a falar muitas besteiras. Mas elas são seres, se não superiores a você, muito melhores em vários quesitos e entre esses quesitos está a capacidade de se reinventar, de mudar tudo, de ficar confusa e de se entregar, porque isso é parte da vida , algo tão difícil para nós. E é essa entrega, que pode ser contida, ou não, que pode ser alegre, ou não, que pode ser derretida, ou não, é que faz esse nosso mundo pequenino girar. E se tornar grande, se tornar confuso, se tornar certo, se tornar propício para morar com uma pessoa. Morar em uma pessoa, você e ela morando juntos, tão diferentes, tão perto. Sem se perguntar o porquê, é lá onde mora o amor.  

domingo, 18 de agosto de 2013

- Vem pra cá

- A Dida morreu

- Alô?

- Vem pra cá

- Sério? Isso foi agora? Como tu tá?

- Não pode vir para cá? Tô sozinha aqui...

- Eu sei, mas...tá, tô indo.


.......

- Ela já tava bem velhinha, né?

- Sim, 15, completou 15 anos mês passado, e eu nem tava lá.

- Como foi isso?

- Minha mãe me ligou agora há pouco, chorando, assim que ela começou a falar eu já sabia. Só podia ser...

- Como tá a dona Fátima?

- Triste, muito triste. Era a única companhia dela lá, né..

- Eu sei, eu sei...mas e tu? Sei o quanto aquela gatinha significava pra ti..

- Sim, cresceu comigo. Nem sei como eu tô, olha, sente só aqui minha mão. Tu sabe, como eu era apegada nela, né, tu sabe. Às vezes ela até dormia com nós na cama, quando a gente ia visitar minha mãe...

- É verdade, manhosa, ela, costumava dormir bem em cima das minhas pernas, quando eu tava lá..de manhã meus pés tavam tudo formigando.

- Sei que é estranho eu te ligar, desculpe, mas eu não sabia com quem mais  falar.

- É, quando eu vi teu nome no celular, eu não esperava, mas tu sabe que, apesar de tudo, tô aqui. Vem cá, vamos secar esse choro. Tu que nunca foi muito de chorar. A Dida tá num lugar melhor..

- E eu nem tava lá para ver ela, que droga, que droga.

- Não se culpa..não iria adiantar, não daria para fazer nada, ela tava velhinha já ..

- Eu só queria deitar mais uma vez com ela, para ela se enrolar na minha perna também. Depois de velha e acomodada ela ficou assim, toda manhosa. Mas quem é que não fica, né?

- É, quem não fica...

.................


- Me abraça..só um pouco..

- ....Eu...

- Só um pouco, amanhã a gente finge que isso não aconteceu, eu finjo que a Dida ainda tá pulando por aí, incomodando as pernas das pessoas e caçando insetos...

- Não sei, acho que eu tenho que ir embora..

- Mas...

- Tá tarde, eu preciso ir.

- Mesmo?

- Mesmo

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Minha, nossa, tua, dele

Acho que a vi hoje de novo,
ou foi ele quem a viu.

Era mesmo quem achava que ainda era.

Passando pela rua, sem deixar de ver ninguém e sem ninguém a ver.
Quieta, enquanto se distanciava
e eu muito longe.

Era ele quem olhava
Também quieto, abandonava os olhos.

“E se eu fosse puro, mas eu não sou.
E se fosse sagaz, desviaria para outros braços:
Gozados, dormentes, novos.”

Se eu fosse ele, acabaria com o sono que falta,
fecharia os olhos para dormir diferente

toda a noite. 

domingo, 4 de agosto de 2013

de ti antes de mim

- Você parece que nem precisa se arrumar pra ficar toda bonita assim.

- Ah, mas eu me arrumo, sabe, eu gasto um tempo mesmo na frente do espelho. Eu gosto. Eu me arrumo é pra mim.

- Eu sei, eu sei. É pra você antes de tudo, assim que tem que ser, a gente tem que se gostar antes que os outros gostem da gente.

- Aham..

- Mas eu acho que eu gosto de ti antes de mim, pode ser?  Nem tô, é verdade. Só queria dizer de uma vez. Aí já me solto mais.

- Desde quando isso?

- Não sei bem, acho que quando te vi lá na praça, quando nos conhecemos. Nossa, nem sei quando descobri:  acontece que brotou, e era isso. Mas nem sei, sempre tive vergonha, mas tive vontade de te falar, ainda mais  agora que tu tá assim, tão bonita, tão maquiada. Olha, é verdade, gosto antes de ti e depois de mim.

- Olha, nem sei o que dizer

- Nem fala nada, deixa eu só te olhar um pouco, aproveitar o frio na barriga. Deixa tudo pra depois e olha, olha para as nossas mãos como ficam bem juntas...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Sentir-se

Neil Young toca nas caixas de som. É pouco mais de duas horas da tarde. Estou acordado há umas oito horas, quase.  Um pouco menos.  O sol está forte lá fora. E tem um monte de livros sobre a minha mesa. Eu os peguei ontem na minha antiga faculdade. A gata chega perto do meu pé, meu pé que mesmo com meia, está gelado. Ela sai agora, caminha, se apoia nos livros e esboça se deitar, mas desiste.  No meu quarto não bate muito sol, e ela prefere o sol. Quem não prefere?

Estou dando um tempo entre o almoço e o voltar a estudar. Na verdade, sinto que estou dando um tempo há certo tempo, para ser redundantemente explicativo. Foi preciso para voltar a acreditar nas minhas possibilidades, nos projetos, para tentar abrir um caminho em toda essa confusão que foi o semestre passado. Não gosto de papo de autoajuda, ou, pior, autoafirmação, mas é preciso tomar uma atitude quando você chega a certas encruzilhadas.

Vai ficar e desistir? Vai continuar em barco que só promete afundar? Vai deixar ir?

Há tempo que eu estava perdendo para mim mesmo, deixando passar oportunidades por achar que eu não seria simplesmente capaz de fazer. Quando, em outros tempos, eu tirava de letra. Não cheguei a essa encruzilhada por nada. Ao me formar jornalista,  profissão que continuo admirando, percebi certa distância do meu pensamento com a lógica do mercado dominante (fato que, obviamente já crescia forte em mim, mas depois de formado, floresceu). Somado a isso o fim de um relacionamento (não quero entrar em detalhes aqui para não tirar a privacidade de ninguém), me levou a uma pequena grande crise do homem comum formado há pouco tempo. Meu primeiro semestre todo foi de retomadas, de reconscientizações, de nutrir impulsos para descobrir ser capaz de apostar novamente em mim. E, desse modo, sair da minha concha para voltar a minha função – mesmo ainda não sabendo bem qual ela é.

Não necessariamente ser forte, mas se sentir forte..., como diria o protagonista (baseado em personagem real) de “Na Natureza Selvagem”. Um cara que queria viver simplesmente, desraigado da sociedade em que não compartilhava dos mesmos ideais. Talvez o segredo seja por aí: sentir-se capaz de mudar a sua profissão, a sua rotina, a vida. Ainda mais em um momento em que se luta cada vez mais por mudanças sociais, acho que todos nós passamos um pouco por uma crise de identidade, uma crise em que em alguns pode se agravar ainda mais, e que, em outros, pode não afetar quase em nada o comportamento. Em mim, balançou, admito. Fiquei paralisado por muito tempo até conseguir me retomar – ainda estou, é verdade, no processo, ainda estou “entre” muita coisa. E isso não é algo fácil de admitir, mas é só admitindo que se torna vivo, que os problemas aparecem na nossa frente e conseguimos combatê-los. É só assim que, sei lá, você consegue andar, consegue pular do barco afundando, todas essas metáforas bobinhas, mas necessárias.

Eu ainda não sei exatamente  o que vai ser, mas eu sei que está um pouco a minha frente. Estou quase alcançando, já dá até para ver. Talvez, estivesse lá o tempo todo e eu não vi. Talvez, seja algo totalmente novo. Só sei que será diferente de agora, e isso já é alguma coisa por que se vale lutar.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Aos poucos

Eu quero escrever sobre ansiedade e talvez por isso já tenha tentado várias vezes começar o texto, mas nenhuma delas deu certo. Opa, agora que abri o jogo é mais fácil de emparelhar as ideias. Ansiedade essa que não me deixa concentrar e me paralisa. Ela me detém tantas vezes, porque tantas vezes eu tenho ideias sobre o futuro. Penso em planos que não vão necessariamente se concretizar, mas que na minha imaginação correm alucinadamente. Imagino histórias para escrever, e a ansiedade, cada vez mais, as tornam difíceis de colocar no papel. 

É preciso driblá-la, mas andava frequentemente perdendo a batalha. E, junto com ela, a fé necessária em mim para continuar com os planos, com os projetos, com a vontade de trabalhar. Isso tudo e mais acontecimentos pontuais da minha vida nesse ano me levaram a procurar uma ajuda profissional, no caso uma terapia, para eu aprender a lidar melhor comigo mesmo. Faz pouco tempo que estou me consultando, mas percebo algumas pequenas melhoras. 

Quando falamos de nós mesmos para outras pessoas sempre é benéfico, até mais do que escrever, porque você tem um contraponto, e é quase que obrigado a se compreender melhor no processo. Não é nada fácil, não é nada rápido, porém, é o que vai me ajudar a tomar o rumo da minha vida de volta. Sinto-me um pouco como aquele título do livro do Bukowski: "O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio". Isto é, minha vontade (minha razão de fazer as coisas) parece que foi dar uma volta e deixou todos os pequenos problemas caminharem pela cabeça. É claro que isso não aconteceu de uma hora para outra, estou descobrindo ainda os motivos,as razões (se há realmente elas). 

O que é que passa por nossa cabeça, afinal de contas? Sei que muitos dos nosso maiores medos, receios, estão no inconsciente, e ele escapa nos sonhos, nas falas ditas de arreganho - quando você quer falar algo, mas tem receio e usa o artifício da brincadeira. Acho que no fundo tudo isso passa por me cobrar menos, por me perdoar por alguns erros que cometi, por deixar pessoas irem embora.

Algo me diz que eu levo a vida muito a sério às vezes. Mas, aos poucos, a gente vai ficando mais leve. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Sobre protestar, gás lacrimogêneo e esperança



Manifestação começou tranquila em frente à Prefeitura Municipal

“Hoje a noite vai fechar”, meu amigo me disse assim que passou o helicóptero por cima das nossas cabeças. Devia ser por volta das 19h30 quando os manifestantes atravessavam a  João Pessoa. Lá na frente dava para ver algumas luzes piscando. A PM? Já havia barreira ali? “Não sei, não sei.”

Do lado de cima, pedaços de roupas, lençóis, toalhas brancas surgiam nas janelas, voando calmamente. Foram recebidas com empolgação pelos manifestantes. Tudo corria bem, é verdade, desde o começo lá na Prefeitura Municipal.  Perto das 18h já tinha gente pra caramba e a promessa era aumentar.  Havia cartazes, muito mais do que do último protesto -  e muito mais criativos. E as bandeiras, também, é claro. Algumas pessoas enrolaram a brasileira no corpo. Veja só: nada relacionado a futebol.

Depois que começamos a nos locomover em direção a Borges e, em seguida, tomando o caminho da Salgado Filho para descer a João Pessoa dava para ver a verdadeira extensão da manifestação.  Não tenho os dados de quantos compareceram, mas, com certeza, foram mais de dez mil.

“Caramba, é muita gente”, eu disse em voz alta para ninguém ouvir. Ficou perdido entre os gritos ecoados pelos manifestantes. Mas para que gritavam?  Contra o que era esse protesto? Eu estava mais interessado nas perguntas do que nas respostas no momento. Talvez porque eu seja jornalista, talvez porque acredite que, como cidadão, só o fato das pessoas saírem para a rua e mostrarem sua indignação já é válido. É claro que a coisa não é tão simples assim, mas seja lá pelo o que você esteja protestando, ir para a rua já é um começo. Aqui em Porto Alegre, pelo menos, protestávamos pelo transporte público, pela mobilidade urbana, pelo ato de poder protestar sem termos a nossa liberdade roubada, ou violentada.  Para que possamos andar com vinagres. Protestávamos para que pudéssemos continuar.

Quando desembocamos na Ipiranga, foi que o protesto, até então pacífico, começou a degringolar.  E aqui é bom fazer um adendo. Não sei qual a opinião de vocês sobre atos de vandalismo, mas procuro observar isso dentro de um contexto. É muito fácil chegar a uma rede social e intitular tal grupo de vândalos e baderneiros, porque depredaram instituição, patrimônio público, etc. Compreendo os ânimos alterados, mas pelo menos onde eu estava, lá perto do prédio da Zero Hora na Avenida Ipiranga os policiais pegaram pesado com o armamento de gás lacrimogêneo, balas de borracha, etc. Um grupo estava enfrentando um pelotão de choque no lado da Ipiranga em que fica a Zero Hora. Eu me encontrava do outro lado, filmando. Tempos depois eles começaram a atirar as tal bombas de efeito moral para o nosso lado. Uma caiu perto de mim. Encarei pela primeira vez a fumaça branca e densa. A primeira sensação é a de asfixia,a garganta fechando. Daí vem o impulso da tosse, sobe o asco, sobe a vontade de expelir algum líquido. Ânsia de vomito. Os olhos formigam, ardem, lacrimejam. A multidão corre, alguém grita para não correr, mas é difícil muito difícil não correr. Perco-me dos meus amigos, mas ainda tenho um pouco de vinagre no cachecol preto de guerra. Afinal, é uma cena de combate.

O vinagre ajude a recuperar o ânimo depois de um tempo.


É revoltante, é claro. Depois disso, vi muitas pessoas mais a frente comentando que violência deve se combater com violência. Depois disso, vi muito dos “revoltados, anarquistas, vândalos” ficarem ainda mais putos da cara. Foi aí que voltando para a João Pessoa vi cenas exageradas e que na hora, com o sangue fervendo, quase apoiei, quase aplaudi. Ônibus  foram apedrejados, muitos containers foram queimados, vidros de lojas quebrados...Não soube de saques, mas não duvido que tenham acontecido.Veja só: não estou legitimando a ação desse pessoal ( que eram minoria), estou dizendo que consigo compreender que ação truculenta da Brigada Militar incitou – e muito – a revolta de quem já queria fazer merda. Não acredito que violência se responda com violência, mas esse sou eu. Nesse momento, me dei conta que a sede da Zero Hora na Avenida Ipiranga é o lugar mais protegido do Estado, quiçá do Brasil, já que em Brasília os manifestantes chegaram no CONGRESSO NACIONAL , em São Paulo no Palácio da Justiça, aqui mesmo chegamos no Palácio da Justiça. Mas não se consegue protestar em frente ao prédio da Zero Hora.

Momento de depredação de um ônibus na João Pessoa
Dentro da própria manifestação não havia uma unanimidade. Presenciei uma quase briga pós o “combate” com os Policiais Militares entre dois manifestantes. Quando um grupo dos “revoltados” virou um container, logo veio outro grupo e foi levantar a lata de lixo gigante. Alguns aplaudiram a atitude, outros vaiaram. Então chegou um dos revoltados e foi tirar satisfação com um dos caras que levantou o container, alegando que ele estava deslegitimando toda a manifestação com aquele ato. Que os "porcos" estavam jogando bombas e que derrubar o maldito container era, de certa forma, uma resposta. Ainda não sei o que pensar sobre isso.

Alguns grupos se separam, não vi a cavalaria, fui seguindo para o Largo Zumbi dos Palmares na Cidade Baixa, onde aparentemente estava mais tranquilo. Eu já estava cansado, com fome, nauseado por causa do gás e com o tornozelo torcido.  Meu amigo, aquele do início do texto,e eu fomos para a Lima e Silva, pensávamos em qual era a melhor rota para seguir. Estávamos com receio caminhar em nossa própria cidade e sermos parados por algum policial mal intencionado. No fim, deu tudo certo.

Os manifestantes sentados na rua perto do Largo Zumbi dos Palmares
Fui para o protesto com o coração aberto e com o celular ligado, queria fazer uma cobertura bacana. Sincera. Vi muitos amigos meus trabalhando em diversos veículos, e tenho orgulho deles.  Acredito na causa e no lado humano, acho que isso deve ser o norte do bom jornalismo, da boa vida.  Jornalismo nem devia ser profissão, jornalismo é estilo de vida. Esse sou eu, contando um pouco do que vi, com meu modo de pensar. É quase 3 da manhã e não estou com sono, estou, como posso dizer, enérgico. Tem algo de diferente vindo aí. Tem algo que vai furar o concreto, algo que, como uma rosa (diria Drummond), vai nascer do asfalto.