segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Alois

Ela acabou de me perguntar qual era o meu sobrenome mesmo. E antes, ela já havia perguntado duas vezes. Estava sentada em sua cadeira, com uma expressão feliz, mais ou menos igual a alguém que sabe algo importante e não quer contar para ninguém. E então me perguntou do nada, como se fosse dizer “boa tarde” ou me questionar como estava a faculdade: qual é o seu sobrenome? Não sabia exatamente o que dizer, primeiro soltei alguma brincadeira idiota e ri. Mas vi que ela franzia a testa e me encarava, me olhando de longe, à distância. É certo que estava velha, mas ainda era ativa e cuidava do jardim sempre da melhor forma possível. Toda a vizinhança elogiava. Todos tinham inveja. Demorei a acreditar no que estava ouvindo, mas respondi. Anathel, vó. Anathel como o seu. Anathel é um belo nome ela diria e se levantaria da cadeira para pegar um pouco de chá. Chá gelado como ela gosta. E seguiu até a cozinha, e então me lembrava de quando era criança, e de quanta vitalidade ela parecia transparecer. Agora, assim, caminhando devagar, com olhar distante e com extrema dificuldade em colocar o chá na sua xícara de porcelana. Os azulejos zelosos me traziam saudade e medo. E então, ao virar e voltar a olhar para mim ela toma um susto e deixa a xícara cair no chão. Ela toma um susto e começa a gritar. A gritar desesperadamente. Quem é você? Quem é Você? Quem é Você?

Um comentário:

Leila Ghiorzi disse...

Minhas lembranças mais queridas da infância são regadas a chá gelado na casa da minha vó. Segurei uma lagriminha agora.