quarta-feira, 2 de julho de 2014

Descobrir

Descobrir. Para mim, uma das melhores sensações. Descobrir os prédios que de repente se abrem, surgindo colossais em uma rua deserta – normalmente sempre cheia de gente, de carros. Descobrir por trás de uma conversa qualquer o que realmente se quer dizer. Descobrir naquele texto complicado, sinuoso, camuflador, aquela fantástica história e se maravilhar. Descobrir a essência de uma pessoa por trás de toda timidez, por trás de toda a felicidade exacerbada. Descobrir o que significa a perna dobrada na cama, o sinal no ombro, no antebraço, descobrir que se respira forte à noite.  Descobrir aquele cacoete na voz e descobrir que se gosta do aparelho, da dobra do sorriso na bochecha, formando a maçã cavocada no rosto. Descobrir-se no outro, e misturar-se com o outro em novas descobertas juntos, descobrindo o que não mais se esperava, des-cobrindo debaixo do assoalho, para todo mundo ver o que estava escondido há tempos. Descobrir que o Café da manhã à noite pode ser o melhor.


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terça-feira, 17 de junho de 2014

Com ar

Fiz poema para te dar
Mas nem sei como entregar
Vou pedir para o pássaro levar

Ele é bobo e rima todo com “ar”
Mas, inclusive, é o seu ar
O meu ar
Nosso ar

Espero que você nem saiba para aonde olhar
De tanto que vai gostar,
Até consigo imaginar

Inclusive vou te falar
Quando a gente caminhar
Para você esperar
Pois aqui parado perante o mar

Estou para você me amar.



Obs: Da série poemas bobinhos

terça-feira, 3 de junho de 2014

Carta 14

Então eu soube que você vai namorar. É o seu primeiro namoradinho, você recém completou 15 anos. Como assim você me pergunta se aquele filme que tá no cinema é bom? Ele quer te levar para ver, né. Tão jovem. Quando eu soube, senti um aperto estranho. Parece que tinha algo ali, entalado. Parece que algo estava errado em mim também. Como assim? Como assim?

Mas passou.

Acho que era só susto. Depois eu percebi que você não é mais aquela menininha. Agora, você está crescida. Agora, você está formando suas opiniões, que darão base para como vai agir daqui em diante. Saiba, porém, que para alguma coisa aqui em mim você sempre será a minha mais nova, a que eu vi crescer, a que eu acompanhei, troquei as fraldas, com quem eu aprendi a carregar um bebê no colo.

Então, já que você está entrando nessa “coisa” meio maluca que é um relacionamento, ainda que seja o primeiro, eu só tenho um conselho: se jogue de cabeça. Se você está com alguém – e esse alguém desperta algo bom e único em você – então é o certo a fazer.  Mesmo que provavelmente vá doer em algum ponto, eu quero que você sinta tudo, toda essa paixão, todo esse receio, toda essa ansiedade, essa dúvida, essa alegria, esse medo. Se apaixonar, estar com alguém, entrelaçar-se...É dar uma espécie de sentido a uma parte da sua vida. E não ter isso ou perder isso, seria simplesmente trágico. Então, sinta tudo, experimente esse sentimento, se perca nele, perca a razão, recobre a razão. 

E, qualquer coisa, estamos aqui. 


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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Vai surgir

Os olhos serpenteiros esverdeados vão esboçar a incontrolável vontade. Vai subir pelo corpo e rondar o ambiente, contornar o seu rosto e sucumbir no cabelo cheio de volta - se perder nele, se jogar nele. E vai esperar. O silêncio surgir quando se fica quieto em dois. É o momento sem palavras mais importante do mundo. É o tempo mais calmo e estrangulado. Esse que precede a boca, a sua boca na minha. Toda essa vontade em contratempos de tempo é promessa de se tornar experiente em cruzados encontros das esquinas dos nossos corpos. Escalando todos os beijos imaginados e perdidos. Todos os ensaios de silêncios anteriores, só para este. Só para este. Surgir.

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segunda-feira, 19 de maio de 2014

De repente, quatro anos

Há quatro anos a gente se reunia num apartamento pequeno e cheio de afeto em uma rua do Bom Fim. Não me lembro exatamente como tava o tempo – o céu totalmente nublado, talvez.  Sei que era dia 16 de maio de 2010, eu ainda era estudante de jornalismo na faculdade de comunicação da Ufrgs e estagiava na editoria de cultura do Jornal do Comercio. Eu tinha viajado para São Paulo a fim de participar do Congresso da Revista Cult e retornado com várias ideias, sempre elas. Estava empolgado, porque sou uma pessoa um tanto quanto passional, e então comecei a procurar outros seres passionais, ou não, que eu sabia que poderiam se interessar com a proposta de trabalhar com jornalismo cultural. Todos nós assinamos uma folha que reproduzo em seguida.



Eles compraram a ideia e, de repente, as reuniões foram se tornando mais frequentes. Foi-se discutindo o conceito, foi-se pensando no layout, foi-se escolhendo um nome. E, do nada: Nonada. E, de repente, já se tinha uma data para o lançamento (um pouco mais tarde, no dia onze de setembro), de repente já se tinham problemas com prazos, de repente pessoas saíram e outras pessoas entraram. Nós não sabíamos o que estávamos fazendo no começo, principalmente em termos de vender um produto. Todos nós éramos jornalistas e pensávamos basicamente na produção do conteúdo, da matéria, do enfoque. Foi um erro em termos mercadológicos, eu admito sem nenhum constrangimento. Porém, a qualidade das nossas matérias ao longo desse tempo não fica atrás de nenhuma grande publicação da área, principalmente aqui do Sul do País. Pode soar pretensioso, e é, mas eu confio tanto nessas pessoas com quem trabalhei, que atesto isso.

O Nonada, entretanto, acabou sendo maior que todos nós que passamos por ele. E olha que, de diferentes colaboradores, nós já atravessamos a marca de sessenta pessoas (acho, não sei, talvez eu não tenha contado direito). Do começo do site, mas eu digo do começo mesmo, daqueles seres calorosos que estavam lá naquele apartamento no Bom Fim naquela tarde de maio, não há mais ninguém. Alguns nem em Porto Alegre estão mais. Outros largaram o jornalismo. Outros sumiram.  Mas o Nonada não sumiu, porque eu estou cada vez mais convencido de que eu não sei fazê-lo sumir.

E, claro, é minha culpa, eu admito. Porque o Nonada também sou eu, ou eu me confundo com ele. É para onde eu volto sempre, meu porto seguro do jornalismo, que me conectou a várias pessoas, que me levou interagir com diferentes conhecimentos e, o mais importante, que ajudou a definir a minha vida .  Eu aprendo tentando, eu tenho ideias a partir de diálogos e trocas. O Nonada proporcionou isso tudo para mim, porque me fez entrar em contato com algumas  pessoas incríveis. E tenho certeza que não é só eu que me sinto assim em relação ao site.

Atualmente, estamos retornando com um novo layout (quase pronto), temos um programa semanal de rádio web, temos uma equipe pequena, mas empolgada e que está trabalhando para trazer mais pessoas e mais novidades ao site – sempre com o mesmo espírito de travessia. Estamos com uma nova proposta de divulgar e trabalhar com a cobertura de artistas novos. Queremos fazer a cobertura crítica de produtos culturais, algo que sempre fizemos bem.

E é bom sentir toda essa vontade novamente.

Quero fazer uma série de entrevistas com jornalistas da área cultural para entender a lógica de cada um e mostrar o seu trabalho para o público. Quero entrevistar escritores. Quero entrevistar desenvolvedores de jogos digitais. Quero entrevistar artistas de rua, quero entrevistar economistas da área da cultural. Quero ter conversas com pessoas que têm ideias diferentes da minha. Quero entrevistar cineastas cults e os não cults. Quero entrevistar músicos de qualquer tipo. Quero escrever sobre o cinema de Hollywood e também sobre o cinema produzido por estudantes. Quero conhecer vocês a partir do Nonada, e quero que vocês conheçam a gente por lá também.


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domingo, 4 de maio de 2014

Mundo

Hoje acordei era alta madrugada.
Tu ainda dormia.

As pernas entrelaçavam-se com o lençol.
O lençol não mais existia.

Teu rosto farol  iluminava a noite,
contornei as linhas da encosta
descobrindo novos mundos.

Nosso novo mundo.

Tua boca brasa contorcia
elixir de ar e
eu era todo átomo
toda partícula

dessa paisagem.

Teu seio manso que me acalma
a volúpia externa.
Tua voz trêmula no ouvido.

Eu sou um pouco disso -
da tua madrugada,
do teu corpo na cama.
No quarto,
no mundo.

O mundo desaparece.

domingo, 27 de abril de 2014

Emaranhados



Três e meia da tarde quando eu cheguei. Vou pegar a cadeira para sentar mais perto. Tudo bem? Tudo, tudo bem. As pernas e os braços finos. Tão pequena, igual a uma criança. Tão cheia de furos de agulhas, soro, exames. Esse aqui foi para ver como tá a glicose, a enfermeira havia dito para ela, que disse para mim apontando para o furo mais novo no dedo. Só nós dois naquele quarto branco e gelado, lá fora estava quente e eu segurava um casaco - eu sempre ando com um. Bota que tá frio. Rejeitei a ideia com a cabeça, mas me cobri ao sentar.

Essa colcha, vó, que colcha bonita. Já é antiga, né, foi tu que costurou tudo, eu me lembro. Nossa, deve ter demorado muito tempo para fazer. E ela fez uma para cada parte da família naquela época. Eu ganhava muito material de linha, mas para emaranhar assim com tanta cor...Hoje em dia não dá mais, o braço não deixa. E sorri de verdade, que é quando se sorri por coisa boa já feita. Que é quando se sorri respingando um pouco de tristeza doída porque não vai se repetir. Queria ter um talento assim, vó, mas eu quase nem sei fazer nada direito, uma colcha dessas, imagina, nem conseguir cozinhar, eu sei. Já a senhora....Eu nunca a havia chamado de senhora, me estranhei, então virei o rosto por um momento, procurando  um tímido abrigo.

Ela abana a cabeça, os olhos pulando, os olhos cansados. Não precisa falar mais vó. Descansa, dorme um pouco. E depois vai comer pra ficar forte e sair logo daqui, né. Nem me fala, filho, nem me fala. Gosta de me chamar de filho e eu, que fui criado praticamente minha vida toda perto deles, sempre acatei com maior profundidade. Vamos ficar quietos, tenta dormir, enquanto eu fico aqui do seu lado. Tira um cochilo. E os olhos fecham.

Os meus abrem mais: consigo agora observar melhor o seu estado. O corpo que se confunde com o cobertor. Retalhos de peças de linha das mais variadas cores feitas manualmente ao longo de tanto tempo; uma pessoa composta por todas essas memórias, uma pessoa toda remendada de novo, indo e vindo do hospital. Cansada e forte. E eu, disposto e fraco, o mais vulnerável da história; não consigo compreender como o tempo pode fazer isso com a gente. O que se pode fazer? Mas a colcha é tão bonita que eu nem sei mais de nada, e parece formar ondas e camadas diferentes ao se escancarar toda sobre o seu corpo. Depois de uns dez minutos ela acorda com um sonho. Quer me contar. Colorido e cheio de vida como essa colcha, deve ser. Acontece que é simples. Estou em casa, andando, cuidando das coisas, tomando banho por mim mesma, sem barulho de máquina a noite toda. É igual a vida. 


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terça-feira, 15 de abril de 2014

Deixa

Deixa eu imaginar a cena. Você está indo embora, descendo a Salgado Filho. Tá chovendo um pouco, bem pouco, mas você gosta de chuva então nem se importa. A sua roupa também não é lá grande coisa, então dá para molhar a vontade. Você está triste, você vai viajar. Você está feliz, você vai viajar. Como posso descrever essa parte? Você quer olhar para trás, mas não vai olhar para trás, porque falou que não iria olhar para trás. Ele também disse que não olharia para trás, mas ele olhou para trás, porque é uma das coisas que ele sabe fazer bem. Ao contrario de você, ele estava com um guarda-chuva, embora odeie carregá-lo. Ao contrário de você, ele não iria viajar e estava todo arrumado para o trabalho. Atrasado? Pouco importa. Só daqui a um semestre tudo voltaria à normalidade, ou talvez não. Deixa eu escrever a cena. 

domingo, 6 de abril de 2014

Manhãs de abril

É como deitar em uma rede no meio da tarde e perceber devagarzinho o vento que parece que alguém que você gosta muito soprou diretamente no seu rosto. E daí, meu amigo, daí, meu amigo, meu amigo, não tem nada ou ninguém nesse mundo comparado a esse tenro momento, talvez só apenas aquelas situações que guardamos na memória como um beijo debaixo das estrelas, um amor fadado ao fracasso que continuamos tentando que dê certo, a felicidade do orgasmo parelho. Mas são poucas coisas, poucas coisas que são tão agradáveis quanto uma manhã de abril fria, uma manhã de abril fria em que se caminha debaixo daquele sol desprotegido e que vagarosamente nos abraça, como se estivesse com pena de nós; e a estrela maior também fica resguardada quando recebe essas manhãs lindas e soberbas de abril e de outono. Se até o sol rei sucumbiu quem somos todos nós para não pregar devoção a essa paisagem tão viva e tão cansada, tão fria e perspicaz, tão calcada na ideia de que o tempo está passando. As manhãs de abril existem para nos lembrar que tudo passou e nós ainda não vivemos o suficiente.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

De se ver

Gosto quando 
ela
tira os sapatos, cansada
e sente os pés  
a primeira vez no dia

E não se importando
beija
o meu rosto em cada
pedaço, o tempo é rés
para nossa mania

Nem até reclamando
perde
encanto ou fica desalmada
sempre disso, ao invés, 
tem amor em demasia