
domingo, 18 de julho de 2010
Brincando nas nuvens - Com ilustração

quarta-feira, 30 de junho de 2010
Em volta do pescoço
Se eu soubesse pelo menos o seu nome, eu daria um jeito de sair daqui. Já faz alguns meses que eu conheci o mais belo pescoço em que meu corpo já se enrolou. Era sinuoso, fixo e imóvel. Duro e retilíneo como todas as coisas belas deveriam ser, e nossa como ventava. Eu ficava lá, pulando feliz, chacoalhando de um lado para o outro. Diferente de agora, em que não pego nem uma brisinha, que não sou nem mais utilizado. Aposto que aquele pescoço deve estar sentido falta de mim, como eu sinto dele agora.
Será que ela se lembra de mim depois de tanto tempo?
-------------
A ilustração linda desse mês é da Mariana Sirena.
sábado, 29 de maio de 2010
Carta 05
A nosso foto juntos ficou uma droga, Lucas. Que pena, mas fotos no impulso não costumam dar muito certo. Fico triste porque queria tê-la para ver a sua cara de espanto. A sua cara de espanto quando eu tirei a máquina da minha bolsa, te puxei para tirarmos a foto. Mas ela ficou ruim. A máquina já ta velha, a coitadinha. Foi engraçado o nosso encontro e é uma pena que tenha que lhe enviar uma foto assim, feia, toda escura, em que só se pode ver o contorno mal feito do que seriam os nossos corpos. Estou te mandando por carta e não por email, porque acho mais legal. Às vezes sou old, sabe? Gosto de coisas meio retro, e de filmes antigos, a lá Audrey Hepburn.
Aliás.
Você murmurou algo de que estava indo ao cinema aquele dia, que filme foi ver? De que tipo você mais gosta? Estou com uma curiosidade enorme, desculpe, eu sei. Na realidade, estou sozinha por aqui. Me mudei há pouco tempo para essa cidade. A gente deveria conversar mais. Não sei. Vou lhe passar meu telefone para você me ligar. Espero que não me ache maluca por isso. Não vai me achar, né?
Sei que não. Aquela maçã ainda ta por aqui, eu nem queria a maçã, eu nem gosto de maçã para falar a verdade. Ela ainda está aqui se você quiser. Meu número 57489214.E temos que tirar uma nova foto, dessa vez melhor.
Francine G.
Obs: A ilustração desse mês é minha mesmo, por isso que não está muito boa. Mas valeu a intenção.
Para acompanhar a história de Francine G. e Lucas Felt, leia os posts anteriores:
Notícia que só a rua João Sabiá viu
quinta-feira, 29 de abril de 2010
A terra girou para nos acostumar
É assim que eu queria a vida ao seu lado. De cabeça para baixo e com todas as coisas se desejando. Assim como a natureza, essas árvores verdes, fingindo afeto, ansiando por atenção. Por que você não é mais assim comigo quando estou perto e quando não estou, Beth? Virar essa foto me deixou com saudade da época que fazíamos sexo cinco vezes por dia, desculpe se era segredo. Mas o que nós fazemos agora? Viajamos para a praia e tiramos fotos da paisagem na estrada. Você dorme na poltrona do passageiro e não me chama mais para passear na areia.
E, de vingança, eu viro as suas fotos. Mas gostaria era de virar a nossa vida.
----
A ilustração desse mês, no caso uma fotografia, é de Tainá Ludmila
terça-feira, 30 de março de 2010
O Retorno de Perséfone
“Por que tu não escreve sobre amor?”, ela me sugere com aqueles olhos que parecem refletir um céu sem sol, sem nada – apenas o mais lírico e transbordado mar límpido de sensações que eu já havia navegado. Eu meio torto e nervoso (sempre fico assim na frente dela) respondo: “Sobre amor?”. Encontrava-me escasso de ideias e lamentava isso com minha amiga Mariana, pela qual nutria um afeto há muito tempo contínuo e há muito tempo abafado. Mas logo emendei a frase “é um tema tão banal, literatura de verdade não consegue angular ou perimetrar o amor, é por isso que a geração romântica afundou, é tudo ilusão de uma coisa que raramente acontece, sabe?”. Vejo que ela se sente um pouco incomodada com as últimas palavras. Sei disso porque os formatos dos seus olhos mudaram, abstiveram-se, criando uma negação ao meu ser, modificando um pouco da cor. Ela diminui os passos, caminha lentamente e começa a levantar aquelas jazidas brilhantes em minha e direção e, por fim, me encara, disparando: “não sei para ti, mas amar para mim não é tão difícil. Talvez tu tenhas o coração muito hermético, acho que há vários modos de gostar de algo ou de alguém, veja aquela árvore...” enquanto ela fala meus olhos seguem seu braço que aponta levemente para um Ipê mediano que acabamos de passar, porém, eu, por descaso, ou por causa daqueles olhos, não notara.
Ela suspende o nosso silêncio, a humilde pausa tão comum que existe ao analisarmos alguma situação e diz: “...aquela árvore..sabe em que época do ano estamos?” Agora, no meio dessa rua quieta, encaramos um ao outro, estáticos, e há algumas pequenas faíscas saindo de nós, daquelas que antecedem um grande momento e eu não sei qual é a nossa estação, nem nada. “Ah, não tenho certeza, mas é final de agosto”, respondo como uma possível alternativa para não passar o papel de um completo desinformado. “Isso”, ela diz olhando para a árvore e depois caminhando na minha direção, retomando “Veja, e pense comigo, o que um Ipê faz nessa época do ano? Se apaixona. E se levanta, cresce e fica mais bonito. E não é só ele que fica diferente, pois também serve para enfeitar a cidade inteira, transformando as pessoas ao redor”..E isso só poderia vir de uma doce bióloga mesmo, é só um Ipê Roxo. O que ela quer dizer? Toda as árvores crescem. Faz parte da vida.
Volto à realidade com ela em encarando: as duas cachoeiras azuis me jorrando ideias que eu ainda não entendia muito bem, deixando-me meio tonto. Ouço a voz de Mariana, prosseguindo, “e há algo de mágico e muito sutil nessa árvore, sabe? Algumas pessoas acreditam que ela representa o símbolo da dubiedade. Há uma lenda que os gregos nos deixaram na qual uma deusa chamada Perséfone permanece seis meses na terra, que englobariam a primavera e o verão, e passa seis meses no Reino dos Mortos, sendo esse o período conhecido por outono e inverno. Acho sinceramente que a deusa está chegando agora ao nosso mundo. E as árvores parecem estar se apaixonando novamente. As flores estão recém começando a nascer e um leve roxo já dá os seus ares, fluindo levemente. É possível perceber o doce contorno, principalmente quando o sol banha aquelas pétalas ainda pequenas..” Enquanto ela descrevia o Ipê, eu só cuidava dos seus olhos claros, da boca e a descrevia internamente para mim.
A primeira sensação, e uma das que mais me impressionam: o cheiro. Simplesmente algo tão singular que nem aquelas flores roxas do Ipê – no alto de sua beleza – irão emitir. Não há ninguém de aroma tão dócil e envenenado de uma forma tão sensual quanto Mariana. Talvez seu odor explique seus olhos também, porque combinam de uma forma tão peculiar que não me arrisco a ficar mais de trinta segundos os encarando fixamente. Sabe-se lá o que pode ocorrer. Há um perigo de perder-me por aí e sumir, caminhando por mundos que eu tenho medo em não ser convidado. A boca, porém, era o que completava tudo de uma forma fantástica, um lábio levemente rosado, ágil, esperto, malandro que me refutava toda hora e fazia eu me perguntar – silenciosamente – será que se, simplesmente, roubasse-lhe um beijo a parede que há entre nós cairia? O que começa a despencar são algumas folhas mais soltas da árvore que observamos. Trazidas pelo vento elas circulam, formando pequenas espirais, dançando levemente no céu e aproximando-se cada vez mais de nós. Até pousar nos pés, onde roçam os calçados fazendo pequenos carinhos, como se quisessem me empurrar para perto dela. Entendo a sensação, quem sabe a deusa Perséfone não esteja tentando me enviar um sinal? Quem sabe tudo não esteja conectado e as verdades gregas sejam reais mesmo?
Mariana está sorridente com a sua explicação sobre o grande Ipê Roxo, claro, toda a pessoa que tem certa carga de conhecimento adora transmiti-lo para pessoas leigas. Olho o relógio e é quinze para as quatro, quando ela começa a caminhar ao encontro da árvore. E eu só a sigo. Muito mais por instinto, por impulso e sensação do que por raciocínio – não penso em editor, não penso em cobrança, penso nela. E naquelas pernas que tem olhos lindos, e que podem devorar qualquer homem são que conheço. Estamos embaixo do Ipê e o tempo ficou mais raso, tranqüilo, empurrando serenamente nossas vontades, como se houvesse um espaço só nosso. O vento já não sopra que nem antes, e os olhos parecem ser os meus amigos novamente, porque entendem que eu caí naquele conto da deusa grega. Sim. Acho que ela estava ali, no meio de nós, quando Mariana sorri de uma forma distinta e pergunta “Você já se apaixonou de verdade? Não sei se foi o sol que batia no rosto dela, ou aquela brisa suave que parece só passar quando nos encontramos em baixo de uma bela árvore ou ainda aqueles olhos que me intimidavam e me derretiam, só tenho certeza que naquele momento eu sabia exatamente o que escrever. Linha por linha, perfeitamente. Iria escrever sobre como me apaixonei de verdade. Realmente. Quando cheguei em casa fui direto à maquina de escrever e comecei o derradeiro texto: “Por que tu não escreve sobre amor?”, ela me sugere com aqueles olhos que parecem refletir um céu sem sol, sem nada..”
---------
A Ilustração dessa vez foi de Ana Karina Silveira Gloria. Todo mês trago um post com uma ilustração feita por uma pessoa convidada.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Muito pouco
Foi quando resolveu levantar para ir atrás de uma vassoura que sentiu um líquido viçoso escorrer por entre suas pernas. Duas horas da tarde e ninguém da família em casa para socorrer Helena. O sinal de que seu filho estava pronto para nascer finalmente acontecera, mas por que em um momento tão desprovido de sorte, tão solitário? Malditos momentos errados, ela gritava na sua cabeça. Para logo depois ir ao telefone e discar para a irmã no trabalho. O telefone parece não cooperar com o momento também: chama chama chama e ninguém atende. Ô hora de querer sair, ô hora de querer descer. Pensou em amaldiçoar seu ainda não nascido filho, mas o pensamento foi tão rápido que se evacuou por entre um mar de ideias que deixamos de lado, que não valem a pena serem pensadas, ou mencionadas.
Era seu primeiro filho e talvez por isso ela não soubesse exatamente como agir. Não sentia dor. As peles das coxas passavam a conhecer o líquido que saia de sua vagina e deixava a roupa de baixo molhada. Tinha conhecimento que o trabalho de parto não começava necessariamente agora, mas seu espírito foi envenenado pela ansiedade – absolutamente natural para uma garota de 21 anos – e seu coração, graças a isso, pulsava em um ritmo frenético. Buscou o banheiro como opção para tentar se acalmar, tomaria um banho e aguardaria até que sua irmã chegasse do trabalho.
O bebê poderia esperar mais um pouco. Já esperara nove meses. Acabaria nascendo sobre o sol de gêmeos. No dia 6. Ela criaria sozinha e eles seriam felizes, apesar das dificuldades. Enquanto a água caia sobre os cabelos pretos de Helena, e enquanto a água limpava o líquido que se acumulava entre as coxas brancas, pensava em como tudo havia acontecido tão rápido e, ao mesmo tempo, tão devagar. A gravidez foi indesejada por certo tempo, mas acabou a unindo com a irmã mais velha, a única que a apoiara na família, quando decidiu não abortar.
“A gente vai crescer juntos”, ela pensava enquanto passava a mão na barriga e vestia a roupa para ir ao hospital. “Sem nenhuma merda de homem nos enganando”, continuava. Ela havia esperado por João um bom tempo, mas ele nunca voltara. Mas não importava mais. Agora ela era duas, ou melhor, três. Vestiu a roupa de baixo, vestiu a roupa restante e sentindo uma leve dor de cabeça resolveu se sentar na sala. Faltava pouco para que sua irmã chegasse do trabalho. Muito pouco. Faltava pouco para que Helena fosse mais de uma também.
Esse é um novo post que estou criando aqui no Contagens, todo mês farei um texto com uma ilustração. Quem fez a ilustração de inauguração para o post foi meu pai, Nilton Luiz Cardoso Gloria. Ele poderia ter sido um ótimo pintor, mas a vida dá vários caminhos. Espero que tenham gostado.
