terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Retalhos de tempo - Boyhood


*Não sei o que mais me marcou em Boyhood, são tantas cenas e momentos importantes nessas três horas de filme.  A começar pelo projeto ambicioso do Linklater, um dos responsáveis por brincar com o tempo, como na trilogia Antes do...Em outro de seus filmes, o Jovens, Loucos e Rebeldes ele também já trazia esse assunto da mudança, de passar para outra fase ao abordar a juventude nos anos setenta e a transição para o que eles chamam de high school.  Mas todos esses filmes citados tem a característica de não terem um grande acontecimento em suas histórias. A trilogia é conversa, atrás de conversa, já os Jovens é a rotina de amigos que estão crescendo, mudando de vida, e agora em Boyhood presenciamos uma série de acontecimentos na vida do jovem Mason, saindo da infância, alcançando a juventude e a chegando à faculdade. Não há um plot twist: é a vida assim apresentada e filmada ao longo de 12 anos. Acontece que ali cada período daria um outro filme completo, mas isso não é o importante, aqui realmente cada pedaço vale mais que a soma, porque nós vemos a vida não como uma totalidade, mas como retalhos. Contamos histórias e deixamos outra para trás - não contamos. Por isso que o choro desesperador da mãe de Manson no fim é tão comovedor, “eu achei que teria mais tempo”, diz ela. É, todos nós achamos. Várias cenas ficam na cabeça dessa história reveladora porque traz um pouco de cada um, e principalmente daqueles que cresceram juntamente com Manson, todas referências da cultura pop (outra coisa que o Linklater faz muito bem), estão ali. De Yellow à Arcade Fire. Para todos aqueles que se questionam e se perguntam mais sobre a vida, ver como o jovem Manson cresce e se descobre insatisfeito e sempre pronto para experimentar é mergulhar na própria história. 



*Nova série de posts, em que vou escrever rapidamente sobre algum tipo de produto cultural (filme, livros, jogos, quadro,etc) rapidamente, de forma mais instintiva do que analítica. Reforçando mais minhas impressões do que qualquer coisa. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Dois perdidos em uma noite deserta

A primeira impressão que eu tive ao chegar em seu apartamento é que era tudo tão organizado para aquela bagunça que ela aparentava ser.  Mas desde quando um riso agitado e uma forma de mexer os braços efusivamente significam tragédia organizacional? Sempre tive um problema em julgar pessoas, vai saber. Certo que eu a conheci há apenas algumas horas, ainda na fila daquela festa que, meu deus, estava um saco. Para falar a verdade, eu já não esperava muita coisa por ali, mas, mesmo assim, fui arrastado por uns amigos e pela possibilidade de acabar bem a noite.  E por acabar bem a noite vocês devem saber que algo como sexo sem compromisso, conhecer alguém legal, beber e não vomitar já seriam o suficiente. Não necessariamente nessa ordem, mas ok, talvez nessa ordem de importância.

Era tarde e tinha essa mulher agitada um pouco atrás da fila da festa e que não parava de falar alto sobre uma banda que eu gosto bastante e de como eles são incríveis e de como ela foi a todos os shows que eles fizeram no País...E eu quase já não gostava mais da banda, quando tentando apenas interromper, acabei começando uma conversa que foi andando mais depressa do que todo o resto da fila e deixando de lado as pessoas ao nosso redor, quando vimos já estávamos na festa e rapidamente à frente do seu apartamento.

417.

Tarde da noite e eu ali esperando ela encontrar a chave certa. Tarde da noite, eu com as mãos metidas no bolso, sem graça. Lembrava da última vez que havia feito algo assim, fazia tempo. Não estou me referindo ao sexo, mas ao sexo com outra pessoa que não fosse minha ex-namorada. Confesso, agora, que não sou um homem muito expressivo em conversas, gosto mais de escutar para, depois, tentar esboçar um raciocínio, mas tudo fluiu tão rapidamente que não tinha como não ir para a casa dela, para acabar “bem” a noite, para, então, se tornar algo que eu não esperava que acontecesse e que, desse modo, fosse uma surpresa a qual eu pudesse me gabar no dia seguinte para os mais chegados: “Se lembra daquela guria da fila da festa ontem? Pois é, fui para a casa dela...” Mas no fundo eu sabia que nada disso realmente importava e que as minhas mãos no bolso apenas esclareciam tudo, elas praticamente falavam que se a gente só conversasse já estaria ok e eu ficaria feliz, porque eu queria conversar sobre coisas sérias e não tinha conseguido fazer isso com ninguém ainda. E, com ela, tinha visto uma abertura. Uma pequena brecha nessa eterna fechadura comprimida que é vida.

Meio bêbado a gente pensa em cada coisa.

Quando , enfim, ela conseguiu abrir a porta, pude ver o apartamento organizado milimetricamente. Na estante gigante que encobria toda a parede da sala vários livros de todos os tipos, no qual os de filosofia tomavam a frente. Um pouco bêbada, chegou dançando entre os sofás e ligou o som. Olha a nossa banda favorita aí novamente. É verdade, é verdade, eu sabia que você ia gostar, nossa, esse é melhor álbum deles, não é? Não sei, acho que prefiro o material antigo. Sim, sim, pode ser. No canto, perto do sofá um imenso gato deitava da forma mais confortável do mundo, encarando-me, abrindo e fechando os olhos. Nós acordamos o seu gato, que fatalidade. Qual o nome dele? Dela! Minha única fiel companheira nessa vida, se chama Minerva, a gata. Haha, Minerva como o sabão em pó? Não, Minerva como a deusa romana, sabe? Da sabedoria e das artes...Eu sei, eu sei, estava só brincando contigo. Ah, sim, haha. Mas não brinque muito com ela, ela morde, cuidado. É difícil de ganhar dela em uma briga. Falou isso me mostrando uns arranhões no braço e deixou a sala, disse que ia tomar banho, estava muito cansada e queria tirar aquele cheiro de fila dela, aquele cheiro da festa. Eu concordei e sentei no sofá.

Chuveiro ligado.

Era uma e meia da manhã. E eu só imaginava o modo como a água descia pelo seu corpo. Ao mesmo tempo, a gata Minerva sai do seu cesto-altar e tal como uma deusa, imponente caminha em minha direção. Olhos fixos, ela estanca em minha frente, encostando a cabeça em minha perna. Acaricio-a com um gesto de respeito e afeto, o que ela parece entender. Como é a sua dona, Minerva? Ela te alimenta bem? Pelo jeito sim, né? Pelo jeito sim. Me conta mais sobre ela, me conta. A gata entorta a cabeça, lambe a pata e vira de costas. Atrás de algo mais interessante. Acompanho a caminhada e reparo nas fotos em cima da estante, todas de paisagem, nenhuma de pessoas, nenhuma dela. A música continuava tocando, uma das minhas faixas favoritas.

Chuveiro desligado.

Do banheiro, então, surge pela porta uma nuvem de vapor da água e por meio da neblina improvisada: ela, enrolada de toalha. As pernas morenas e o sorriso aberto. Cabelo molhado escorrendo nas costas, pés sem chinelo, não se importando em sujar o chão, porque ela era assim, ou parecia ser assim, não sei. Disse que ia ao quarto, se vestir, mas que era para eu continuar ali, a esperando. Tá certo, respondi, com as mãos no bolso, olhando ela ir embora.

Tá certo, agora pensei, respirando para imaginar o que poderia acontecer. Estava nervoso como se fosse a primeira vez, a primeira vez de muitas vezes? Não sei. Tá certo, o que eu poderia fazer? Estava destinado a levá-la para o quarto. Agora que eu consegui entrar no apartamento dela, no meio da madrugada, depois daquela festa terrível, eu, enfim, precisava “acabar bem a noite”. Tá certo, a gata Minerva pensava me olhando. Você está pronto? Estou, Minerva. Eu acho. Não sei, Minerva. Eu queria estar pronto? Queria até, eu queria depois que vi a tolha amarrada no corpo dela. Ela disse para eu esperar e eu vou continuar esperando. A gente espera tanta coisa na vida, Minerva. Acho que passou uns 5 minutos, porque tocou duas músicas e o álbum tem músicas curtas,  quando ela saiu do quarto, sonolenta em uma camisola toda acordada, olhando para mim com os olhos cansados e uns olhos assim que eu me lembro de ter visto só algumas vezes em tão poucas pessoas, que eu não sei se era a bebida, a minha confusão, a Minerva me perguntando se eu estava pronto, mas eu resolvi simplesmente pegá-la pela mão e juntos arrastarmos nossos corpos juntos pelo carpete da sala em uma dança juntos quase caindo enquanto um riso improvisado mais alto dela tropeçava em mim. E nem era a minha música favorita.

De repente ficou tudo tão tarde e ficamos tão cansados que ela simplesmente puxou meu braço, levando-me ao quarto, o tão destinado quarto. A tarefa da noite. O álbum já acabara e a gata Minerva dormia. Enrolada na camisola, enrolada na toalha e em mim, ela me puxava. Vem, vamos dormir. Tá tarde. Vem, vamos para a cama. Você vem? Esbarrei na estante e nela e depois na porta e acabei deitando ao seu lado. Os seios encostando em mim, abraçando como se me conhecesse há séculos. Ela, então, virou a cabeça para o lado, deixando os cabelos em meus ombros, como se lá fossem o lugar de origem deles, e dormiu. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Essas coisas que acontecem - 03

Acho que o amigo da cidade grande nunca viu direito, mas aqui em Nero a gente sempre conseguiu ver muito bem, ainda mais naquela época em que não tinha tanto prédio alto, tanta gente, tanta indústria e tanta máquina como tem agora. Pensando bem, parece até que era outro mundo, pensando bem parece até que foi em outra vida, mas quando se olha para trás sempre se parece tanta coisa…Bom, não era isso que queria comentar; naquele tempo a gente conseguia muito bem ver o céu à noite, e ver as estrelas como se fossem um grande mapa aberto à nossa frente, todas piscando, todas ilustradas por demais...Era um espetáculo, diria que o maior espetáculo da cidade. A gente foi morar com Seu Adão e a casa dele pousava no maior morro de Nero na época, e juro que é verdade o que vou falar, era tão alto que me lembro que as estrelas ficavam mais perto do que lá embaixo, na outra parte da cidade. Tenho essa lembrança bem incrustada na memória, metida em algum canto principal da minha cabeça. Era noite, uma das primeiras noites que fiquei acordado até tarde, já não era tão criança, já fazia vários afazeres e me lembro de não conseguir dormir porque o brilho das estrelas era tão forte que entrava no meu quarto, e eu tinha que levantar para fechar a cortina. É verdade; é como era e não como é mais. Seu Adão, que eu nunca consegui chamar de pai, mas que me tratava como um, acho eu, gostava de ficar admirando as constelações, desenhando algumas, brincando de confeccionar as próprias. Foi aí que ele tentou me instruir naquela nomenclatura que no começo achei fascinante por ser tão diferente, Andromeda, Circinus, lembro de algumas, mas o tempo apagou o resto. O tempo é que nunca acabou o que vem agora: um dia daqueles eu estava em meu quarto, quando escutei um barulho lá embaixo no pátio. Era o Seu Adão com a usual parafernalha, visualizando as constelações. Ele me chama, faceiro. Pede para eu descer rapidamente, porque era algo importante o que ele tinha acabado de fazer, pelo jeito. Chegando lá, disse que tinha sinalizado e pontuado a constelação mais bonita, criada a partir da disposição e da justaposição das estrelas de diferentes constelações. Eu apontei o dedo para o céu, tentando entender, quando ele me disse que o nome da constelação levava o nome da sua filha, que ele não via há tempo, mas que estava para chegar e eu nem sabia que existia: Inara. Logo depois me deu um tapa na mão e falou para eu não apontar para as estrelas que dava verruga, eu nunca mais fiz isso, mas se alguma coisa ficou em mim naquele dia foi a lembrança de ter ouvido aquele nome, que soava tão bem, pela primeira vez.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Analógico

O corpo é assim
Bate aqui
Sobe lá

Quebra embaixo,
Melhora em cima

Nunca está inteiro
Nem pode estar

Cresce a hérnia,
Diminui o coração

Diminui a úlcera
Cresce o tempo

É melhor, por via das dúvidas,
Bailar a mão
Socar o pé

E dosar o olhar
Na medida certa do que vai acontecer
Porque se
Se
Se permitir
Não tem como controlar
O que vir


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Todo mundo tem algo escondido - 02

Assim seja então. Começar pelo começo, que é por onde tudo se ajeita. Mas por onde é o começo mesmo? Depende. Depende do que o amigo quer saber...Ou melhor, depende do que eu quero contar. Meu começo vai ser quando eu pisei em Nero a primeira vez, nessa cidade, que nem era uma cidade ainda, mas um amontoado de casas, um amontoado com bastante espaço livre, um amontoado de montes...A gente era criança e veio arrastado porque não tinha mais lugar para viver aonde a gente vivia antes. Nem vale a pena explicar. A gente? Minha mãe e eu. Não se acometeu de conhecer meu pai, só a sua reputação...Todo mundo tem algo escondido, e a estimada, que agora está descansando em paz, nunca quis me contar. Mais tarde, muito mais tarde, acabei descobrindo por mim mesmo dos seus feitos. Era então crucial ter ido embora, aquele dia eu entendi.  Mas na época eu não entendia é nada, na época eu nem lembro do que me importava. Gostava de correr naqueles pátios grandes. Gostava de ouvir a voz da mãezinha que me fazia dormir assim que o sol baixasse. A coitada passava o dia todo na casa do seu Adão, trabalhava tanto lá como dona de casa, limpando, cozinhando, organizando, ordenhando, costurando. Que de tanto ando, acabou mesmo é se doando pra ele. Meses depois tavam se ajuntando de vez, mais pela convenção, talvez. Mais para ocupar o lugar vazio que a viuvez deixou para o tio Adão, que ainda era moço para assuntos do coração e da casa. O estranho, que por mais que pareça, é que  foi assim que comecei a me enraizar em Nero, que nem era Nero ainda, mas já era Monte, porque nasceu assim. E o mais estranho é que foi assim que meu caminho de vez começou a tropeçar em Inara, que, veja só, eu nem nunca tinha visto, nem sabia que existia, e tudo que eu tenho também é por causa dela... Mas ela não é assunto, não pra agora, não pra agora. O amigo precisa entender que tem hora pra tudo nessa vida, e há hora dentro das coisas que a gente conta também, há hora dentro das frases, hora e tempo por meio das palavras. Eu sei sobre o tempo, eu sei como tempo demora, você pode acreditar em mim. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Monte Nero - 01

Quando eu cheguei na cidade, eu era muito novo. Não lembro em que ano foi, e os arquivos, com certeza, não contêm essa informação. Eu era muito novo e muito sem instrução, para o colega ver. Mas eu não cheguei sozinho, não. Minha mãe, já falecida, é que me trouxe, sei que era verão, talvez fevereiro. Muito sol na cabeça, essa é uma das minhas primeiras recordações, o mal estar do calor, os mosquitos, o suor escorrendo. Naquela época eu não estava interessado em quase nada também. Se não fosse Inara, eu nem nada faria. Estava bom para mim como estava, quer saber. E se tivesse ficado estando assim, eu estandaria vivendo daquele modo para sempre. Mas aí, ô colega não iria querer tirar umas palavras de mim, e eu não viveria do modo como vivo hoje. Graças a alguma força maior, e talvez a Inara, eu não preciso da ajuda de ninguém pra me manter, ao contrário, se eu perdesse boa parte do que tenho, poderia viver muito bem por muitos anos, sem me mexer. É o que me interessa só, viver o que resta sem maiores incomodações, que eu já me incomodei deveras muito demasiado nessa vida. Se o senhor soubesse tiraria essa cara do riso na hora...Ahn..Por acaso o senhor que saber? Saber é ruim, saber só leva a mais incomodações, saber só leva a querer saber mais e saber mais e saber mais... Conhecer pra quê. Eu não quero mais é conhecer nada, eu não quero mais é saber de ninguém. Encosta esse bloco para lá, tira essa geringonça daqui. Não me interessa compartilhar o tanto que eu já fiz. Os outros querem saber o quê? Só falar já é burocratizar o infinito por demais e você ainda quer transpor tudo isso na palavra escrita? Daí é que vai desperdiçar todo mundo..escrever? Pff, escrever..Não, não, eu posso lhe contar bastante coisa, mas com uma condição: sem anotações, sem gravação de nada. Se o senhor é escritor, vai lembrar como eu falo, ou vai lembrar até melhor do que eu falei. É assim. É assim?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Meia noite volta

Meia noite e meia quando Júlio levantou, pôs as calças e acendeu a luzinha fraca, que agora ficava perambulando majestosa, se alargando por todo o quarto. Silêncio voava sob o apartamento e ele sem sono metia os dedos na calça jeans, esparramada na cadeira perto da cama. Tinha até que acordar cedo, mas não importava, precisava dar uma volta, nem que fosse pela rua, pelo bairro. Encontrou as chaves largadas no chão e se apressou em tomar o caminho da rua do jeito que estava vestido mesmo: o chinelo, a bermuda, uma camisa larga. Avançava o portão de saída do prédio e encontrava a calçada e de repente já dobrava a esquina, cortando caminho até a avenida, onde carros minguados eram cada vez mais escassos na noite que adentrava a primeira hora da madrugada. Mirando seus olhos, devagar, ele já podia ver o reflexo dos faróis dos carros (tons cinza misturados) com o vazio transparente de vento. Ventava um pouco, mas nada que atrapalhasse o passeio noturno. Nada que atrapalhasse a visão de Júlio que ficava estarrecido com a altura dos meios-fios da calçada. Só lá pelas duas da manhã esperando para atravessar a faixa ele conseguiu se perder de vez ao confundir as cores e os olhos da pedestre que cruzava ao seu redor. Destoado, sem saber o que fazer resolveu não fazer nada. Tomou o caminho de volta para casa por um atalho entre um jardim, pelo qual nunca havia passado – pelo menos de dia. Dobrou a esquina e cortou caminho direto para o prédio. Aos poucos, a noite ia terminar de ser consumida, alimentada por sonhos, olhares, cores.

.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Descobrir

Descobrir. Para mim, uma das melhores sensações. Descobrir os prédios que de repente se abrem, surgindo colossais em uma rua deserta – normalmente sempre cheia de gente, de carros. Descobrir por trás de uma conversa qualquer o que realmente se quer dizer. Descobrir naquele texto complicado, sinuoso, camuflador, aquela fantástica história e se maravilhar. Descobrir a essência de uma pessoa por trás de toda timidez, por trás de toda a felicidade exacerbada. Descobrir o que significa a perna dobrada na cama, o sinal no ombro, no antebraço, descobrir que se respira forte à noite.  Descobrir aquele cacoete na voz e descobrir que se gosta do aparelho, da dobra do sorriso na bochecha, formando a maçã cavocada no rosto. Descobrir-se no outro, e misturar-se com o outro em novas descobertas juntos, descobrindo o que não mais se esperava, des-cobrindo debaixo do assoalho, para todo mundo ver o que estava escondido há tempos. Descobrir que o Café da manhã à noite pode ser o melhor.


.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Com ar

Fiz poema para te dar
Mas nem sei como entregar
Vou pedir para o pássaro levar

Ele é bobo e rima todo com “ar”
Mas, inclusive, é o seu ar
O meu ar
Nosso ar

Espero que você nem saiba para aonde olhar
De tanto que vai gostar,
Até consigo imaginar

Inclusive vou te falar
Quando a gente caminhar
Para você esperar
Pois aqui parado perante o mar

Estou para você me amar.



Obs: Da série poemas bobinhos

terça-feira, 3 de junho de 2014

Carta 14

Então eu soube que você vai namorar. É o seu primeiro namoradinho, você recém completou 15 anos. Como assim você me pergunta se aquele filme que tá no cinema é bom? Ele quer te levar para ver, né. Tão jovem. Quando eu soube, senti um aperto estranho. Parece que tinha algo ali, entalado. Parece que algo estava errado em mim também. Como assim? Como assim?

Mas passou.

Acho que era só susto. Depois eu percebi que você não é mais aquela menininha. Agora, você está crescida. Agora, você está formando suas opiniões, que darão base para como vai agir daqui em diante. Saiba, porém, que para alguma coisa aqui em mim você sempre será a minha mais nova, a que eu vi crescer, a que eu acompanhei, troquei as fraldas, com quem eu aprendi a carregar um bebê no colo.

Então, já que você está entrando nessa “coisa” meio maluca que é um relacionamento, ainda que seja o primeiro, eu só tenho um conselho: se jogue de cabeça. Se você está com alguém – e esse alguém desperta algo bom e único em você – então é o certo a fazer.  Mesmo que provavelmente vá doer em algum ponto, eu quero que você sinta tudo, toda essa paixão, todo esse receio, toda essa ansiedade, essa dúvida, essa alegria, esse medo. Se apaixonar, estar com alguém, entrelaçar-se...É dar uma espécie de sentido a uma parte da sua vida. E não ter isso ou perder isso, seria simplesmente trágico. Então, sinta tudo, experimente esse sentimento, se perca nele, perca a razão, recobre a razão. 

E, qualquer coisa, estamos aqui. 


.