domingo, 30 de março de 2014

Meio que acordado, sonhando

Eu tava meio acordado, meio sonhando. E então comecei a sonhar mesmo porque me vi transportado para a sala da casa dos meus avós. Acho que é dia, está tudo iluminado, não lembro exatamente dos detalhes, mas dos detalhes das sensações. Tava iluminado e eu almoçava com a minha avó, só nós dois na mesa. Minha avó mais jovem, mas não tão jovem quanto eu, talvez lá pela casa dos 50 anos. Parecia mais disposta, com certeza, do que está agora. Agora ela se encontra no hospital depois de passar por mais uma cirurgia e não se tem certeza do que pode ocorrer. Mas agora só estamos nós como nos velhos tempos, quando eu ia almoçar na casa dela e comia a sua comida, que era boa, e continua bem boa, bem cheia de sensações e cheiros que o sonho parecia intensificar. A gente conversa sobre suas preocupações com o cotidiano, das suas preocupações comigo quando eu saio à noite. Você está estudando? O orgulho de ter me mostrado livros e dizer que me ajudou a ler, desde pequeno eu sempre gostei de ler ela dizia, desde pequeno ele já demonstrava saber das coisas. E eu nunca dei bola porque eu sabia que ela me tinha em alta estima, ela gostava demasiadamente de mim; e eu que nunca fui lá muito bom em demonstrar meus sentimentos, aprendi com ela a tentar demonstrar mais. Sempre houve uma facilidade em me ler da parte dela e eu não sei exatamente o porquê, talvez eu fosse muito vulnerável e ela muito perspicaz. Depois disso, fomos para a cozinha que fica do lado da sala, levar os pratos, os garfos, a louça suja para serem limpas. E eu não me lembro exatamente o que ficamos fazendo durante aquele período de tempo. Mas me lembro da cozinha, e posso dizer que parecia diferente de como está agora. Será que meu sonho havia voltado no tempo também? Eram azulejos azuis espalhados pelas paredes e você sabe como isso funciona, uma mesa, armários de madeira com detalhes nos lances de puxá-los na cor prateada. Era uma sensação de pós-almoço no domingo, quando todos nós íamos nos reunir na casa deles, algo que nunca mais fizemos, algo que nunca mais fora a mesma coisa. Acho que desse ano ela não passa. Não sei, é, mas ela disse que me amava algumas vezes na cozinha e eu me lembro que eu já estava visivelmente emocionado, e que tudo parecia tão real porque tudo também era muito confuso. Foi aí que ouvi uma risada muito semelhante ao meu falecido avô que morrera há um ano e meio por problema no coração no hospital, a cara dele morto no velório não parecia nada com ele e eu que não fui vê-lo no hospital, não sei porque, por medo talvez por ele não estar consciente, talvez porque nunca fomos tão próximos. A risada conhecida continuava quando ela entrou acompanhada do meu avô na cozinha normalmente, como se também tivesse acabado de almoçar, como se estivesse estado sempre ali com o prato na mão sujo, levando para a pia. Era algo tão real que eu quase caí da cadeira de susto e ao mesmo tempo não me senti em nenhum momento com medo, sentia a luz clara e forte enquanto ele simplesmente ia embora por alguma porta e é claro que deve ser tudo parte da minha imaginação, das sinapses do meu sistema nervoso arrependido por nunca ter dito certas palavras para ele. Resolvi então ignorar que isso não era a realidade e eu gritei, ou falei alto não sei, para ele ouvir eu te amo, desculpe por nunca ter dito isso enquanto você estava vivo. Foi só isso que consegui dizer, mas tudo parecia tão real que sinto como se tivesse dito de verdade. E o que não é memória, o sonho, a vida se não tentativas absurdas de se conseguir dizer o que você realmente quer dizer?  Depois disso acordei e já era de manhã cedo, levantei e com uma sensação de felicidade e um pouco de tristeza também fui para o computador escrever, escrever, escrever. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Um ano e pouco acostumados

Fez um ano e pouco
da última vez.

O mundo gira
e fica diferente
mês a mês.

A gente mede distâncias
conforme o mandato.

Fez um ano e pouco,
da última quarta-feira
e do último sábado.

Um ano e pouco acostumados.

O pássaro como está?
Acuado, no canto
ou liberto, voando.

Para sempre ele canta, entretanto.

Entre atos,
entre casos,
entre falsos abraços.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Ato III – Acordar

Despertou depois de quase três meses dormindo. Sonhou com tanta coisa e teve diversas vidas – em uma delas, inclusive, chegando a idade de oitenta anos, com vários netos; em uma morreu ainda muito jovem: acidente de carro;  outra acabou se casando com a namorada do colégio e tudo era horrível. Mesmo vivendo tanto em quase três meses de sonho acordou sem querer, quando caiu em um buraco e sentiu aquela horrível sensação de perder o degrau da escada. De sucumbir para o infinito, que durou até o momento que conseguiu abrir os olhos e aparecer na sua cama. 

Estava ensopado, o calor de mais de 40 graus acentuava como os dias mudaram desde que ele simplesmente apagou depois de voltar do trabalho. O colchão fedia a merda e mijo e o quarto era só mofo escuro, pouca luz entrava pela cortina semiaberta. Pensava em ver as horas, mas tinha esquecido de como ver as horas. Só conseguia sentir o cheiro de merda e isso o lembrava dos porcos que criou quando criança na fazenda de seu tio, mas não sabe se era realmente sua vida ou um dos sonhos.

Tentou se arrastar para rasgar a cortina e sentir os olhos, mas os seus membros não respondiam a nada, ficou ainda um bom tempo deitado. Ficou ainda um tempo tentando se lembrar como era ser ele, como era seu nome e sua identidade. Os pensamentos ficaram no ar e o ajudaram a levantar, empurrando-o da cama, jogando-o no chão e forçando a se arrastar pelo carpete cheio de pó até a cortina. Depois de muito esforço, conseguiu rasgar um pedaço dela e pode ver a luz invadindo o quarto, pintando a parede com uma cor amarela nauseante. Começou enfim a enxergar algumas pessoas, sua esposa, seus netos, um cachorro que tinha adotado, sua irmã andando de bicicleta.

Quanto mais rasgava a cortina, mais clara suas várias memórias ficavam. Foi aos poucos se levantando, pronto para encarar o banheiro e o trabalho, precisava, enfim, ficar limpo, precisava enfim, voltar a viver alguma coisa – mesmo não sabendo exatamente o quê, ou para quem.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Agora, é claro

Esse foi o ano em que eu cometi um erro de informação, esse foi o ano em que eu fiquei confuso com quase tudo, foi o ano em que acabou uma importante relação. De 2013, vou levar um misto de receio, solidão e incertezas.

Esse foi o ano em que eu recuperei a vontade de fazer jornalismo, foi o ano em que eu me aproximei ainda mais dos meus amigos (e fiz novos), foi o ano em que a vida mais me moldou. De 2013, vou levar um misto de alegria, certezas e aberturas.

Ninguém é feito só de coisas boas ou só de coisas ruins, por mais que a gente venda apenas o que acontece de positivo conosco – principalmente nas redes sociais. Tive momentos bem ruins, inclusive, e em maior escala do que os bons em 2013. Deixei de escrever durante muito tempo, deixei de acreditar nas minhas qualificações, neguei trabalho, neguei amores, abracei o descaso, abracei o desânimo. A maioria por medo, e o medo veio da falta de certeza que os términos trazem. Fui negligente com algumas pessoas, tive inveja.

Em uma época que cada vez mais abafamos o que temos de “ruim” (mas que também constituem o que somos), e nos maquiamos de “super pessoas” para nos apresentarmos devidamente àquela vaga de trabalho, àquele interesse amoroso, ou até mesmo para um perfil da rede social, assumir as suas falhas é cada vez mais complicado.

Venho pensando, entretanto, que somente soltando e entendendo o que de pior há em mim será possível saber quem eu realmente sou.  

Não escrevo isso, então, como um exercício de exibicionismo torto, mas porque sinto que é necessário e, também, para deixar registrado que um ano ruim é normal. E que atos falhos acontecem, é só não deixar que eles tomem conta de si – e te atrapalhem depois.

Mas falar isso é fácil.

Não sei onde as pessoas encontram forças, onde encontram os ânimos para seguir adiante. Venho descobrindo, entretanto, como isso funciona em mim e acho que passa por abandonar o que não me faz bem, por se arriscar mais e saber registrar o que deve ser registrado. Sobretudo, escrever. E 2013 precisa ser registrado para que o ano que vem seja diferente. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A vida pede

Nasci em rua sem saída.

Logradouro abaixo é a Padre Antônio Vieira
que no fim encontra a compadre
Luis de Camões.

Devem conversar em tom de sermão,
oratórias e epopeias salgadas daquele
mar de lágrimas de Portugal.

Mas eu nasci em uma rua sem saída.

Onde falta luz a cada quinze dias,
bocas sujas falam mal de outras bocas;
vizinhos inertes vendem cocaína.

Chapados percorrem as ruas do bairro
desdenhando fome,  e
na esquina tem uma igreja
chamada Santo Antônio
das causas franciscanas.

É bonito aqui quando dá gente.
Em dia de missa,
hora escolar,
13 de junho.

A noite é quente e algumas crianças
ainda jogam bola na rua.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Carta 13

Aposto que você não está fazendo nada do que disse que iria fazer, quando resolveu sair lá de casa. Ah, sim, eu me lembro como se fosse hoje – apesar de já fazer um tempo. Precisava ter novas experiências para se conhecer melhor, precisava cair no mundo para ver se se reconhecia nele (sei que não foi bem nessas palavras, mas foi quase isso). E isso tudo não dava para fazer a dois, obviamente. E então eu gostaria de te perguntar: você está tendo as tais novas experiências? Você está enlouquecendo na vida? Fazendo aquelas coisas que você queria ter feito e não conseguiu porque é toda problemática, ou simplesmente por ser medrosa? Sei que é meio ridículo perguntar, mas é que sinceramente estou curioso em relação a isso tudo. Mas essa é uma carta que não será entregue, porque eu não preciso que ela seja entregue, eu só preciso que a pergunta fique no ar, que saia de mim e se espalhe por aí, para morrer em seguida, espero. Para morrer em algum lugar entre esse apartamento meio abandonado e um carteiro gordinho que entrega a sua carta no início da tarde. A verdade é que ela morre aqui no papel, no ponto final. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Meus cinco anos de Bailei na Curva

Nesse outubro, a peça “Bailei na Curva”, do diretor Julio Conte, está completando trinta anos. A obra é considerada um clássico moderno do teatro gaúcho, que influenciou e mudou o panorama das artes cênicas aqui no estado, inclusive, fazendo sucesso em outros lugares do País. Porém, mais do que toda essa importância para o campo social e cultural, “Bailei na Curva” também tem papel muito importante para mim, explico: foi o tema da minha primeira matéria para um jornal, cinco anos atrás, justamente sobre os 25 anos da peça.


Quem quiser ler o texto, ele tá aqui.

Meu primeiro estágio, na realidade, foi no Rádio da Universidade (UFRGS), na qual o então diretor André Prytoluk, professor do curso de Publicidade da mesma instituição, me deu a vaga após uma breve conversa. Fiquei por lá por cerca de seis ou sete meses, apesar de ser um bom legal para aprender, eu tinha um grande interesse em descobrir o jornalismo impresso – e o Jornal da Universidade parecia o lugar ideal para isso. Aí, acabou surgindo uma vaga por lá, e como a seleção ainda não era realizada por testes, acabei sendo indicado pela Sandra de Deus, então secretária de comunicação e também professora da UFRGS, para uma vaga no JU (apelido carinhoso do impresso). 

E, então, tudo começou de fato para mim. Acredito que foi por lá que moldei algumas das minhas crenças e costumes que carrego comigo até hoje, nesse pouco tempo de “carreira” (não gosto muito do termo, mas...). Conheci excelentes profissionais, em especial a Ânia Chala e a Caroline da Silva. Apesar de, no nome, ser um jornal, na verdade a publicação está bem mais para revista, em seu espírito editorial e tempo de publicação (é mensal). Talvez pelo maior período de apuração e edição da matéria e também mais espaço (é um jornal padrão standard), sentia-me mais propenso a ser criativo e, como era a primeira matéria que ia produzir, queria que ela ficasse muito boa - então, realmente me puxei. Não me recordo exatamente como essa pauta caiu para mim, mas era na área da cultura, e me lembro de que sempre quis trabalhar por aí, então fiquei muito satisfeito. Havia visto a famosa peça no colégio, mas não me recordava exatamente dos detalhes e do contexto. Encontrava-me no terceiro ou no quarto semestre da faculdade, ainda não tinha aulas mais técnicas de texto. Foi tudo no feeling apoiado na ideia de escrever uma matéria interessante, em três atos, fazendo uma espécie de brincadeira com o roteiro de uma peça de teatro. Entrevistei quase todos os atores da primeira geração do espetáculo e alguns da nova, assim como o crítico Antonio Hohlfeldt, o ator Zé Victor Castiel e, é claro o diretor Júlio Conte (escrevi sobre essa experiência aqui). Realmente entrei na história e produzi um texto gigante e, claro, um pouco pretensioso, acho que tinha algum parêntese no título, originalmente, e também tinha a ideia de fazer o primeiro parágrafo de cada cena, como se fosse descrevendo a época, no mesmo formato de um roteiro de uma peça. Na minha cabeça ficava bem...

É aí que entra a importância da Carol, que me ajudou bastante durante a produção dando dicas de como seguir na matéria e de quem entrevistar e orientações do texto também para buscar aquela almejada clareza e tirar os preciosismos, que não combinam necessariamente com um texto jornalístico – ou sim, depende do momento. Também, é claro, orientação da Ânia, e a edição do texto principalmente pós-produção, deixando mais limpo e coeso, e me chamando para me orientar, quando fazia isso. É o modo como um editor deve agir, ainda mais com um estagiário que, em tese, está aprendendo. Descobri que jornalismo se faz em conjunto. Por essas e outras, o JU foi um grande lugar para trabalhar. Por essas e outras, eu gostei da ideia do jornalismo impresso, da área cultural. Uma das coisas que me marcou nessas entrevistas sobre “O Bailei na Curva” era o modo como eles acreditavam naquilo que eles criaram, a força da expressão artística e da criação sempre me interessou e, nesse momento, aquilo me despertou para o jornalismo cultural também, e toda a sua responsabilidade de ser algo além da simples divulgação. Começava a criar em mim a crença de que o aprofundamento é algo necessário no jornalismo, o ímpeto de que a reflexão sobre a pauta e o objeto a ser discutido deve ir muito além do que a simples informação – apesar, é claro, de entender hoje que tudo é necessário.

Mas foi por lá, em algum momento nessa matéria, que tudo começou a se formatar para mim. Se eu pudesse falar com o Rafael Gloria daquela época, eu agradeceria. 


domingo, 13 de outubro de 2013

Sobre festas e seis tipos de pessoas que se encontram nelas – Teoria número trinta e quatro



Se não me engano, comecei a frequentar festas com 14 ou 15 anos, tendo agora 25 outonos, posso dizer que em dez anos já fui em muitas, muitas festas. Festas sempre me causaram alguma sensação, seja um estranhamento, epifania, diversão, raiva, carinho, tristeza, paixão. É. Não entendo a aversão que algumas pessoas têm a festas, acredito que seja um ótimo campo de estudo do comportamento humano. Esse também é um dos pontos que mais me interessa aqui. Não importa o tipo de festa, mas, mesmo assim, vou enumerar alguns elementos para classificar o conceito de festa que estou me referindo. Elas acontecem à noite, em um clube ou ambiente fechado (residência), há bebida alcoólica, você está pagando para entrar e o som é mecânico, ou há um DJ tocando. 

Acredito que quase todo mundo já frequentou uma assim. 

Explicando um pouco desses elementos, todos eles contribuem para influenciar um estado diferente na pessoa. A noite sempre foi um aspecto interessante, primeiro porque ela é misteriosa e complexa por excelência, e principalmente porque durante o dia, normalmente, estamos presos às obrigações corriqueiras – seja no trabalho, ou estudando. O dia é onde funciona o sistema. À noite também, é claro, mas ela é mais livre, suas horas não são contadas no fundo de previdência, então, a princípio, é um lugar propício para a pessoa ser mais autêntica, para assumir comportamentos diferentes do cotidiano. Delimitei o espaço de um ambiente fechado, clube ou residência, porque festas em ambiente aberto têm outra proposta – talvez mais interessante que as fechada, mas não é o caso da discussão. Delimitar um ambiente já é delimitar barreiras para uma festa, e isso é o aspecto interessante aqui. É uma festa “fechada”: aquelas pessoas estão ali para serem notadas, e notar alguém. Parece-me, inclusive, quase claustrofóbico pensar que se está em um ambiente assim, quase sempre cheio e com música alta – e que você está pagando por isso. O que me leva ao fato do dinheiro. Festa é também um produto, pensada para ser vendida e consumida; sim, há um publicitário por trás da temática da festa, que está fazendo o trabalho dele tentando comercializar aquele conceito para você. E você deve pagar para entrar naquele mundo (festa) criado nos cartazes e nas redes sociais. Só que o ato de pagar já nos traz a ideia de que temos que conseguir algo em retorno. Não parece coerente? Você vai ao supermercado para comprar batatas, para matar sua fome, e você paga por aquilo. Você vai a uma festa para quê? Qual o intuito? Diversão? Conhecer outra pessoa? Dançar? É muito mais abstrato e também mais interessante, já que não é garantido que você vá sair satisfeito. O som deve ser mecânico, sem apresentação ou shows, porque, daí, já se perde a característica de festa no sentido mais clássica. Se fosse um show ou uma apresentação, teríamos um público, uma plateia. E são coisas diferentes. Por último, e não menos importante, o fator alcoólico, que também é vendido no local. Em uma festa, é comum a pessoa beber um pouco mais além da conta. O álcool pode ser transformador, revelador, pode te deixar louco, feliz, triste. Depende muito do seu estado, e de como ele funciona em você. Então, beber é uma escolha e de certa forma, pode servir como uma mutação.

Dito isso, vamos para os seis tipos de pessoas que se encontram em festas (esclarecendo que essas pessoas podem ser você mesmo em diferentes fases da vida):

       O desiludido feliz ou o triste iludido.

Em toda festa há aquela pessoa que está puta da cara ou infeliz com alguma coisa na vida e vai para a festa com o único intuito de esquecer tais acontecimentos. Provavelmente essa pessoa acordará com uma dor de cabeça horrível no dia seguinte, mas aproveitará a festa, bebendo um monte, dançando como se não houvesse amanhã e, de repente, atacando várias pessoas na noite. Cuidado, ou não.

      O julgador

É aquela pessoa que foi arrastada para a festa, ela não queria ir a princípio, mas seja lá por que motivo conseguiram levar a criatura até lá. E lá vai ela ficar em um canto, com a cara emburrada, pensando porque essas pessoas estão lá bebendo, ouvindo música ruim, etc. Julgando todos os outros a partir da sua visão de mundo.

       O vida loka

É quem está sempre nas festas, ele conhece todos os lugares que mais bombam na cidade. Conhece os DJS, é amigo das hostes, e ganha free nas festas. Normalmente, adorado por todos, é ele quem movimenta a festa e traz o espírito da diversão juvenil e estúpida – altamente necessária para a vida – ao restante das pessoas. Essa pessoa nunca para, está sempre circulando na festa e entre as festas.

       O Casal

Essa é para aqueles casais que são praticamente um só, porque não se desgrudam em nenhum momento. Inclusive nas festas. A época de sair deles já passou,  de repente já foram “vida loka”, mas agora estão felizes juntos e assistindo filmes de comédia da década de cinquenta sábado à noite bebendo cerveja. Mas para mostrar que ainda estão jovens eles vão a festas de vez em quando. E daí tem vários subtipos de casais em festas, desde os altamente liberais, até os conservadores. Qual é o seu?

       Só vim para caçar

Outra figura carimbada em festas é a pessoa que está lá para se divertir, mas também para caçar. Ele(a) não parecem ficar satisfeitos até conseguirem chegar e trovar a maioria das pessoas da festa. E não sossega até conseguir ficar com pelo menos alguém. Muitas vezes acaba se frustrando se sair de mão abanando. Na verdade, tudo isso costuma  esconder uma grande carência.

        Mais uma foto, por favor

Essa é uma tendência nova e que começou nessas festas de clube e também com o crescimento das redes sociais e da ideia de compartilhamento. São as pessoas que tiram várias e várias fotos na festa e compartilham em seus perfis na internet. Nada mais natural na nossa época e é uma forma da festa se perpetuar a própria festa nos comentários de amigos e comentário do dia seguinte. Também é uma boa forma de se mostrar o que está fazendo e dar indiretas para possíveis desastres amorosos. Ou só mostrar que está se divertindo mesmo. 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

atados/quebra

Você é real.
Não consegue mentir
sem desviar os olhos.

Você é real.
Quando fica nervosa,
as mãos tremem.

Você é minha,
pois se despe facilmente.
E quebra nós
sem dizer nada.

Você é uma atriz, quando
está aberta na cama.

Uma fingidora de paciência e gozo.

Eu sou falso.
E sobre esse fato,
não converso.

Você é real,
faz hora passar
rapidamente.

Eu sou mentiroso,
nem encaro sua face,
porém sonho acordado.

Você é real,
com as coxas brancas
à mostra.

Você é nossa,
quando se debruça
para o próximo.

Cansada, mas continua.

A andar sozinha
pela madrugada.



domingo, 15 de setembro de 2013

Entre relacionamentos

Casal fotografado por Cartier Bresson

Acho engraçado alguns textos que são replicados por  meus contatos na timeline do facebook. A maioria deles são sobre como os homens deveriam agir com as mulheres, e, obviamente, a maioria desses textos são escritos por homens que se vangloriam (mesmo falando que essa não é a intenção) de ter muita experiência com elas. Por mais que muitas vezes bem camuflados, a maioria desses textos reproduz a ideia de que há uma receita para um relacionamento dar certo, quando não, não há receita ou comportamento que vá garantir seu sucesso com o sexo oposto, ou o sucesso no seu namoro.

Acontece que é muito mais atrativo vender uma ideia pronta. Um caminho. As pessoas, em geral, são preguiçosas para pensar, ou até para questionar as próprias pequenas atitudes do cotidiano. Para nós, o problema sempre é com a outra pessoa.  Afinal, o que eu poderia fazer de errado, não é verdade?  Além disso, parece haver uma pequena implicância com a questão sobre relacionamentos, como se fosse algo típico apenas ao gênero feminino. Exemplificando, podemos com frequência observar isso no cinema, com os filmes de romance. De modo geral, há a tendência de que eles seriam realizados para o gosto feminino, quando o bom filme de romance foca no relacionamento do casal, nos dois, nas dificuldades, nos bons momentos, nos piores momentos, na imensa trajetória de suas vidas. Por isso é tão difícil achar bons filmes desse gênero (e eles existem), e por isso também é muito difícil achar escritores, textos que transmitam algo que vale a pena ser lido sobre relacionamentos.

É que falar sobre relacionamentos não implica em receitas ou em descrever atitudes ou experiências, trata-se de entender uma vida, uma vida compartilhada. E quando me refiro a entender significa ter experimentado ou observado algumas situações, e também ter refletido em cima daquelas vivências. Já que somos seres comunicativos, precisamos de informações e de experiências para criarmos a nossa visão de mundo, e, consequentemente, para criamos a nossa visão de um relacionamento.  Pode parecer clichê, mas um dos meus filmes favoritos do gênero é Annie Hall, do Woody Allen, em que é nos apresentado uma relação contada pelo narrador em off. Desde o começo do filme, sabemos que eles não acabam juntos, mas, mesmo assim, ele vai nos apresentando a história. Como se conheceram, o primeiro beijo, as brigas, etc. É impossível não criar uma afeição pelo casal, por suas histórias – mesmo sabendo que não vai acabar bem. Tudo isso vem regado a sua ótima reflexão final, que deixo aqui com vocês:




E é fato que a maioria dos relacionamentos de sua vida não vai dar certo. Isto é, você não viverá com a pessoa para sempre. Não haverá o momento feliz, depois de duas horas, como um filme. As coisas simplesmente não são assim, mas é aí que reside a graça também. A vida está nas entrelinhas e nos aprendizados quase que diários, em notar as suas evoluções, que você realmente não se importa mais com algo que lhe incomodava até um tempo atrás. Que você amadureceu, nem que seja um pouquinho.  E que um pouquinho dos outros ficou em você também. E que tudo isso vai nos modificando até sermos algo novo, em eterna constância. – ou inconstância. Quanto a fórmulas ou receitas: uma hora, a gente aprende alguns meandros, alguns detalhes que se repetem entre as pessoas, mas isso não é uma regra. Não há regras quando se fala de afeto, não há padrão para o amor.