Te amo
de quatro,
na parede
encostada, de leve.
Minha,
te amo entre
as entranhas
encardidas da noite.
Por dentro
te amo
indo e vindo,
indo e vindo
no chão do quarto.
Em cima do tapete,
sob o armário.
Em frente ao espelho
só para ver.
Solta,
há tempo te amo
no chuveiro.
Dormindo, em sonhos poluídos,
com a fumaça
do cigarro.
Te amo como os restos
no cinzeiro amam:
abandonado.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Carta 12
Pode soar meio old fashion, mas eu me vejo casando
com você, e você entrando de vestido branco (ou não) em alguma cerimônia, olhos
úmidos. Vejo-me fazendo forças para falar juramentos, que, na verdade, foram
escritos ao longo de anos. Eu vejo isso acontecendo, sério, eu que por muito
tempo relutei, que não acreditava mais no conceito de família – talvez por
minha família – eu vejo nisso uma chance de tentar. Tentar fazer algo que eu não
pude ter direito, novas tradições. Retratos na sala, noite de filme de terror,
brigas marcadas em períodos, desistir para compartilhar melhor. Estou pronto. Sim,
eu que já errei tanto, faço isso porque tento ser uma pessoa boa o suficiente
para você. Um clichê ambulante, entre os vários clichês ambulantes. Casar.
Clichê tão estúpido quanto o de viajar para se encontrar; para esquecer,
excluir. Verdadeiros, por que não. Verdadeiros, por que sim. A gente vai se juntar
só depois que o mundo diminuir - e assim ficar. Eu vejo, não sei se
você vê, mas eu vejo.
escrevinhado por
Rafael Gloria
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
às
22:39
Um comentário:
Marcadores:
Carta
sexta-feira, 1 de junho de 2012
poema 63#
os galos cantam lá fora
quase quatro da manhã
nem é
hora de acordar
de dentro
a gente prepara o sono,
a gente prepara o fingimento.
de noite quando se esquece de dormir
o que se faz para sonhar
para delirar
é o mesmo que se faz para viver.
escrevinhado por
Rafael Gloria
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
às
23:45
Nenhum comentário:
Marcadores:
poemas
terça-feira, 15 de maio de 2012
Meu eu jornalista
Algo estranho:
Eu ia começar a escrever um post meio
furioso, deprimido devido a dificuldade de conseguir uma vaga como jornalista
em Porto Alegre. Devido a fazer entrevistas, devido a minha condição de “recém-formado”,
de fazer seleções e de não obter retorno. Devido ao fato de enviar currículos
e, muitas vezes, não receber respostas.
Eu ia escrever que estou questionando a
minha qualidade, que devo ser um péssimo jornalista, de que, provavelmente, há
muitas muitas muitas pessoas melhores do que eu por aqui em todos os sentidos.
Estava
pronto para escrever que me sinto mal, e me sinto meio mal é verdade, e que é
patético e triste como eu me importo tanto com a minha condição de jornalista.
Como, por quê, onde, o quê, quem, quando eu comecei a dar
tanta importância para o eu jornalista?
Mas, sei la, eu cheguei em casa e abri a internet e o
facebook e os emails e vi a receptividade do pessoal que começou a compartilhar
a ideia de arranjar mais colaboradores para o Nonada e vários emails de gente
querendo colaborar e eu fiquei um pouco feliz. Não sei, eu fiquei feliz. É bom
sentir que se acertou – nem que seja ao menos uma vez.
Link da colaboração: http://www.nonada.com.br/seja-um-colaborador-do-nonada/
domingo, 6 de maio de 2012
Descoberta
No condomínio,
lá pelas cinco e meia da madrugada,
se ouve
devagar
o primeiro abrir dos chuveiros
no apartamento ao lado
no outro,
pouco mais acima
uma criança chora,
e acorda
quem ainda não quer
(É quase a hora
de dar os primeiros passos, e
levantar pra vida.).
À esquerda, no JK atrás da parede
a moça tem pesadelo,
e grita para todo mundo e ninguém ouvir.
Em breve, mais chuveiros e mais chuveiros
serão violentamente ligados.
E, abruptamente, os corpos levantarão.
Atordoados, ainda sem entender
o que acontece,
onde estão,
aonde vão.
escrevinhado por
Rafael Gloria
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
às
22:08
Nenhum comentário:
Marcadores:
poemas
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Me liga
- Você não percebeu que eu tava desconfortável?
- Quê?
- Nem passou pela sua cabeça, né...
- Como assim?
- Eu já te falei que não gosto de ti falando com essa guria
- Com a Martinha? Mas nós somos amigos há séculos!
- É a Martinha pra lá, a Martinha pra cá...
- Mas ela precisa da minha ajuda pra algumas coisas, ela não
consegue fazer nada sozinha
- Nada sozinha ou nada sem ti???
- Como assim?
- Ela não tem outros amigos para ligar não? Nunca vi isso,
acho que vou começar a ligar sempre para os meus amigos também, quando precisar de uma
ajuda....
- Ah, não começa tá, não começa a viajar...
- O problema da Martinha é que ela não sabe que tu tem
namorada, ou se não sabe, pelo menos não respeita...
- Ah, ok, ok...claro..aquela vez que vocês se conheceram te
apresentei como a minha amiga né? Só faltava essa. Ela anda muito sozinha e
deprimida a coitada. Precisa de uma mão amiga.
- Ai, ai, aham, sei que ela só quer uma mão amiga....
- Para tá, Elisa, pode parar...
- Vou dar uma saída, ok?
- Vai aonde?
- Sair, não sei.
- Volta, fica aqui.
- Não, me deixa. Depois eu volto, acho.
- Me liga depois, tá?
- Daí você vai me dar uma mão amiga também?
- Daí você vai me dar uma mão amiga também?
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Absentia
Pena que amanhã
é recém quinta-feira;
Eu só a verei domingo.
Já anseio o sono tranqüilo,
pausas da madrugada
invadindo o cansaço.
Não é fácil
se esparramar sem ter outro lado.
Se atirando assim,
jogando o corpo leve
em mim.
Bate e volta
Devagar porque horas são dias -
semanas a fio -
Quanto tempo se leva.
Quanto tempo se leva para
subverter uma ausência.
escrevinhado por
Rafael Gloria
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
às
06:46
Um comentário:
Marcadores:
poemas
terça-feira, 3 de abril de 2012
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Cidade Baixa
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Cidade Baixa
Achei que o conhecia, ou que, pelo menos, já o havia visto
Barba mal feita, os trajes horripilantes;
Como quem deita ao relento e se descobre – infelizmente – sóbrio;
Pensei em virar a cara, fingir que falava ao celular
Inóspito, antipático, ácido, amargo.
Mas afavelmente ele me dobrou e como se quisesse vender
(Vender algo, afinal todos deles querem vender algo) ou
pedir
(Pedir algo, afinal todos eles querem pedir algo), apenas
perguntou.
Como eu estava, aonde eu ia, o que eu fazia.
Tenho medos eternos de simplicidades, de perguntas
genéricas.
Não saberia responder nenhuma delas, tudo se apagara repentinamente,
As razões começaram a dissipar
Devagar, via me abarcando em uma genérica paranóia.
Em um gesto de defesa, ataquei meus bolsos atrás de moedas
Como que para espantá-lo
Como que para sanar as minhas dúvidas
Onde eu estava? O que eu estava fazendo
Ao meio dia e meia daquele bairro?
Por que Deus eu devia fazer o que eu devia fazer?
Por fim, encontrei alguns trocados
Mais do que rapidamente os evacuei do bolso
Sem emitir nenhuma sílaba atirei ao senhor
Que as catou ajoelhado, sem nenhuma vergonha,
Esboçou sorriso de uma esquálida gentileza,
De uma estratégica alegria.
E foi embora.
Recompus-me em meros segundos, mais aliviado
Relembrei das tarefas, do trabalho árduo, mas necessário
A maleta na mão, o sapato, as roupas, tudo confortava
novamente.
*poema homenagem/ releitura lamentável
escrevinhado por
Rafael Gloria
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
às
10:49
Nenhum comentário:
Marcadores:
poemas
terça-feira, 13 de março de 2012
Crônicas de um repórter novato – parte XXII
Faz tempo que eu não escrevo nesse espaço. Inúmeras vezes
inúmeros tópicos saudavelmente surgiram convidando-me a escrever, convidando-me
a refletir sobre a minha perturbada, mas adorável, relação com o jornalismo. O
problema é que outras inúmeras coisas aconteceram nesse tempo, tanto que eu nem
sei por onde começar.
Acho que dá para ser pelo fim de um ciclo: me formei como jornalista, diplomado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação no dia 12 de fevereiro de 2012. É verdade que não me sentia mais parte da Fabico há um tempo, entretanto ela se tornou, para mim, uma espécie de espírito, uma mistura de lembranças de colegas, de professores, de aprendizados, de conversas. Não dá para resumir esse tempo em um post de blog, mas há cenas memoráveis que gostaria de narrar qualquer dia desses...
Continuo tocando o site Nonada – Jornalismo Travessia, no ar
desde setembro de 2010. Muita coisa mudou nessa parte da minha trajetória,
muitos colegas que ajudaram a fundá-lo saíram ou abandonaram a ideia; outros
ficaram. Contudo estamos mantendo a chama ainda altiva – mesmo com todas as
dificuldades conhecidas do jornalismo autônomo. Há muita colaboração, muita
gente que apoia a ideia e que nos faz seguir em frente. Nossa resposta nas
redes sociais e nos acessos é boa. A procura de agora deve ser a de descobrir
um meio de tornar o site rentável ou, pelo menos, que se “pague” sozinho. É um
caminho complicado, mas vamos ter que tomá-lo.
Meu último ano como estudante (2011) não foi bom em termos
de estágio. Todos foram no setor de assessoria, do qual não estava acostumado e
do qual comprovei não ter muito afeto. Fiz o trabalho, mas não a gosto. Depois
de refletir sobre isso, acabei entendendo que para se ser um assessor bom, você
deve vestir a camiseta da sua empresa realmente, e eu não me sentia à vontade
fazendo isso em nenhuma delas. É a velha questão de estar apaixonado pelo que
se faz, só que na assessoria (diferente da redação de um jornal ou site em que
você pode se apaixonar por pautas e pela reportagem/ apuração – não
necessariamente a empresa em que trabalha) você realmente tem que fazer parte
do sentimento empresarial.
Talvez por isso eu tenha ficado tão empolgado com o meu TCC,
a ponto de largar o estágio que não estava gostando, para me dedicar só a ele.
No projeto, consegui unir duas paixões: os videogames e a cultura. Pesquisei a
como os videogames eram tratados dentro da editoria de Arts do New York Times.
Apesar da correria, acho que o trabalho ficou interessante (sou suspeito de
falar, mas...) e fui aprovado com a nota A. Aliás, o último momento como
estudante de graduação daquela universidade...meus amigos presenciando a minha
parca apresentação, e me acompanhando durante os quase dez minutos de espera do
lado de fora da porta, enquanto a banca e a minha orientadora decidiam a nota,
essas coisas a gente leva para sempre. Depois, a gente volta para o início do
texto, a correria da formatura, o planejamento da recepção que fiz juntamente a
três colegas que entraram no curso comigo.
O que acontece agora?
Bem, encontro-me em uma situação esquisita: pela primeira
vez estou sem um trabalho fixo e sem aula. E é muito estranha essa sensação de não
ter um lugar para ir, de não poder entrar em uma faculdade, em um lugar e dizer
que está fazendo algo, ou se sentindo parte de algo. Confesso que estou sim meio
deprimido, talvez mais melancólico, porque ainda estou digerindo todo esse
processo. O fato de ainda não ter um trabalho me deixa também meio ansioso e
com medo do que virá daqui para frente.
Sinto que esse post todo foi uma desculpa para explicar a
minha ausência, nunca gostei de escrever assim...mas está feito. .
quinta-feira, 1 de março de 2012
Escultor
Beijou a boca dele, percebendo que nem era tão diferente de
todas as outras bocas que tinha beijado, o que não eram poucas, mas também não
eram tantas assim. Aos poucos, foi escorregando sob o seu corpo, para se
agrupar melhor àquele abraço que recém descobria. E ele parecia retribuir,
apertando cada vez mais o seu corpo ao dela, pressionando suas mãos levemente às
suas costas, massageando a pele, e, pouco a pouco, invadindo a blusa. Com um
pouco de força tentou imprimir um beijo mais forte ao pescoço, o que ela aparentemente
rejeitou, mas não a ponto de negar totalmente, pois respondeu com um sorriso
atrevido, como quem diz não para uma criança, como quem diz que é “algo feio e
errado e não pode fazer isso, mas...”. E é claro que ele adivinhou tudo isso no
momento que ela mostrou os dentes, no momento que esboçou o sorriso meio
amarelado, talvez pelo fumo, talvez pela genética. Não importava. Havia de
conseguir um modo de invadir aquele corpo. Em um ato atrevido, jogou-a ao sofá
segurando os seus dois pulsos rentes ao estofado, de modo que ela ficasse deitada
com o rosto para cima. Assim ele poderia ver melhor aquela expressão que tanto
gostava, aquela expressão que todas faziam quando ele começava a ficar mais
violento. Todo o ato, toda a encenação da conquista, todo o enorme trabalho que
tinha para construir uma sensação de possível amor que poderia sentir por ela, tudo
aquilo só para poder observar a face horrorizada, confusa, perdida. E ela
começava a surgir exatamente ali. Gostava de se imaginar como um artista, uma
espécie de escultor. Quando largou os pulsos dela, depois de olhar um bom tempo
para seu perturbado rosto, e que agora possuía uma boca que começava a gritar
demais, resolveu que já era hora de desferir o soco para acalmá-la. O que só a
fez chorar copiosamente enquanto tentava fugir, se arrastando pelo carpete da
sala. A sombra grande do homem que há pouco a beijava suavemente, uma boca que
parecia com tantas outras, surgia a sua frente. E ela já sabia, de algum modo.
Assinar:
Postagens (Atom)