segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Analógico

O corpo é assim
Bate aqui
Sobe lá

Quebra embaixo,
Melhora em cima

Nunca está inteiro
Nem pode estar

Cresce a hérnia,
Diminui o coração

Diminui a úlcera
Cresce o tempo

É melhor, por via das dúvidas,
Bailar a mão
Socar o pé

E dosar o olhar
Na medida certa do que vai acontecer
Porque se
Se
Se permitir
Não tem como controlar
O que vir


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Todo mundo tem algo escondido - 02

Assim seja então. Começar pelo começo, que é por onde tudo se ajeita. Mas por onde é o começo mesmo? Depende. Depende do que o amigo quer saber...Ou melhor, depende do que eu quero contar. Meu começo vai ser quando eu pisei em Nero a primeira vez, nessa cidade, que nem era uma cidade ainda, mas um amontoado de casas, um amontoado com bastante espaço livre, um amontoado de montes...A gente era criança e veio arrastado porque não tinha mais lugar para viver aonde a gente vivia antes. Nem vale a pena explicar. A gente? Minha mãe e eu. Não se acometeu de conhecer meu pai, só a sua reputação...Todo mundo tem algo escondido, e a estimada, que agora está descansando em paz, nunca quis me contar. Mais tarde, muito mais tarde, acabei descobrindo por mim mesmo dos seus feitos. Era então crucial ter ido embora, aquele dia eu entendi.  Mas na época eu não entendia é nada, na época eu nem lembro do que me importava. Gostava de correr naqueles pátios grandes. Gostava de ouvir a voz da mãezinha que me fazia dormir assim que o sol baixasse. A coitada passava o dia todo na casa do seu Adão, trabalhava tanto lá como dona de casa, limpando, cozinhando, organizando, ordenhando, costurando. Que de tanto ando, acabou mesmo é se doando pra ele. Meses depois tavam se ajuntando de vez, mais pela convenção, talvez. Mais para ocupar o lugar vazio que a viuvez deixou para o tio Adão, que ainda era moço para assuntos do coração e da casa. O estranho, que por mais que pareça, é que  foi assim que comecei a me enraizar em Nero, que nem era Nero ainda, mas já era Monte, porque nasceu assim. E o mais estranho é que foi assim que meu caminho de vez começou a tropeçar em Inara, que, veja só, eu nem nunca tinha visto, nem sabia que existia, e tudo que eu tenho também é por causa dela... Mas ela não é assunto, não pra agora, não pra agora. O amigo precisa entender que tem hora pra tudo nessa vida, e há hora dentro das coisas que a gente conta também, há hora dentro das frases, hora e tempo por meio das palavras. Eu sei sobre o tempo, eu sei como tempo demora, você pode acreditar em mim. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Monte Nero - 01

Quando eu cheguei na cidade, eu era muito novo. Não lembro em que ano foi, e os arquivos, com certeza, não contêm essa informação. Eu era muito novo e muito sem instrução, para o colega ver. Mas eu não cheguei sozinho, não. Minha mãe, já falecida, é que me trouxe, sei que era verão, talvez fevereiro. Muito sol na cabeça, essa é uma das minhas primeiras recordações, o mal estar do calor, os mosquitos, o suor escorrendo. Naquela época eu não estava interessado em quase nada também. Se não fosse Inara, eu nem nada faria. Estava bom para mim como estava, quer saber. E se tivesse ficado estando assim, eu estandaria vivendo daquele modo para sempre. Mas aí, ô colega não iria querer tirar umas palavras de mim, e eu não viveria do modo como vivo hoje. Graças a alguma força maior, e talvez a Inara, eu não preciso da ajuda de ninguém pra me manter, ao contrário, se eu perdesse boa parte do que tenho, poderia viver muito bem por muitos anos, sem me mexer. É o que me interessa só, viver o que resta sem maiores incomodações, que eu já me incomodei deveras muito demasiado nessa vida. Se o senhor soubesse tiraria essa cara do riso na hora...Ahn..Por acaso o senhor que saber? Saber é ruim, saber só leva a mais incomodações, saber só leva a querer saber mais e saber mais e saber mais... Conhecer pra quê. Eu não quero mais é conhecer nada, eu não quero mais é saber de ninguém. Encosta esse bloco para lá, tira essa geringonça daqui. Não me interessa compartilhar o tanto que eu já fiz. Os outros querem saber o quê? Só falar já é burocratizar o infinito por demais e você ainda quer transpor tudo isso na palavra escrita? Daí é que vai desperdiçar todo mundo..escrever? Pff, escrever..Não, não, eu posso lhe contar bastante coisa, mas com uma condição: sem anotações, sem gravação de nada. Se o senhor é escritor, vai lembrar como eu falo, ou vai lembrar até melhor do que eu falei. É assim. É assim?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Meia noite volta

Meia noite e meia quando Júlio levantou, pôs as calças e acendeu a luzinha fraca, que agora ficava perambulando majestosa, se alargando por todo o quarto. Silêncio voava sob o apartamento e ele sem sono metia os dedos na calça jeans, esparramada na cadeira perto da cama. Tinha até que acordar cedo, mas não importava, precisava dar uma volta, nem que fosse pela rua, pelo bairro. Encontrou as chaves largadas no chão e se apressou em tomar o caminho da rua do jeito que estava vestido mesmo: o chinelo, a bermuda, uma camisa larga. Avançava o portão de saída do prédio e encontrava a calçada e de repente já dobrava a esquina, cortando caminho até a avenida, onde carros minguados eram cada vez mais escassos na noite que adentrava a primeira hora da madrugada. Mirando seus olhos, devagar, ele já podia ver o reflexo dos faróis dos carros (tons cinza misturados) com o vazio transparente de vento. Ventava um pouco, mas nada que atrapalhasse o passeio noturno. Nada que atrapalhasse a visão de Júlio que ficava estarrecido com a altura dos meios-fios da calçada. Só lá pelas duas da manhã esperando para atravessar a faixa ele conseguiu se perder de vez ao confundir as cores e os olhos da pedestre que cruzava ao seu redor. Destoado, sem saber o que fazer resolveu não fazer nada. Tomou o caminho de volta para casa por um atalho entre um jardim, pelo qual nunca havia passado – pelo menos de dia. Dobrou a esquina e cortou caminho direto para o prédio. Aos poucos, a noite ia terminar de ser consumida, alimentada por sonhos, olhares, cores.

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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Descobrir

Descobrir. Para mim, uma das melhores sensações. Descobrir os prédios que de repente se abrem, surgindo colossais em uma rua deserta – normalmente sempre cheia de gente, de carros. Descobrir por trás de uma conversa qualquer o que realmente se quer dizer. Descobrir naquele texto complicado, sinuoso, camuflador, aquela fantástica história e se maravilhar. Descobrir a essência de uma pessoa por trás de toda timidez, por trás de toda a felicidade exacerbada. Descobrir o que significa a perna dobrada na cama, o sinal no ombro, no antebraço, descobrir que se respira forte à noite.  Descobrir aquele cacoete na voz e descobrir que se gosta do aparelho, da dobra do sorriso na bochecha, formando a maçã cavocada no rosto. Descobrir-se no outro, e misturar-se com o outro em novas descobertas juntos, descobrindo o que não mais se esperava, des-cobrindo debaixo do assoalho, para todo mundo ver o que estava escondido há tempos. Descobrir que o Café da manhã à noite pode ser o melhor.


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terça-feira, 17 de junho de 2014

Com ar

Fiz poema para te dar
Mas nem sei como entregar
Vou pedir para o pássaro levar

Ele é bobo e rima todo com “ar”
Mas, inclusive, é o seu ar
O meu ar
Nosso ar

Espero que você nem saiba para aonde olhar
De tanto que vai gostar,
Até consigo imaginar

Inclusive vou te falar
Quando a gente caminhar
Para você esperar
Pois aqui parado perante o mar

Estou para você me amar.



Obs: Da série poemas bobinhos

terça-feira, 3 de junho de 2014

Carta 14

Então eu soube que você vai namorar. É o seu primeiro namoradinho, você recém completou 15 anos. Como assim você me pergunta se aquele filme que tá no cinema é bom? Ele quer te levar para ver, né. Tão jovem. Quando eu soube, senti um aperto estranho. Parece que tinha algo ali, entalado. Parece que algo estava errado em mim também. Como assim? Como assim?

Mas passou.

Acho que era só susto. Depois eu percebi que você não é mais aquela menininha. Agora, você está crescida. Agora, você está formando suas opiniões, que darão base para como vai agir daqui em diante. Saiba, porém, que para alguma coisa aqui em mim você sempre será a minha mais nova, a que eu vi crescer, a que eu acompanhei, troquei as fraldas, com quem eu aprendi a carregar um bebê no colo.

Então, já que você está entrando nessa “coisa” meio maluca que é um relacionamento, ainda que seja o primeiro, eu só tenho um conselho: se jogue de cabeça. Se você está com alguém – e esse alguém desperta algo bom e único em você – então é o certo a fazer.  Mesmo que provavelmente vá doer em algum ponto, eu quero que você sinta tudo, toda essa paixão, todo esse receio, toda essa ansiedade, essa dúvida, essa alegria, esse medo. Se apaixonar, estar com alguém, entrelaçar-se...É dar uma espécie de sentido a uma parte da sua vida. E não ter isso ou perder isso, seria simplesmente trágico. Então, sinta tudo, experimente esse sentimento, se perca nele, perca a razão, recobre a razão. 

E, qualquer coisa, estamos aqui. 


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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Vai surgir

Os olhos serpenteiros esverdeados vão esboçar a incontrolável vontade. Vai subir pelo corpo e rondar o ambiente, contornar o seu rosto e sucumbir no cabelo cheio de volta - se perder nele, se jogar nele. E vai esperar. O silêncio surgir quando se fica quieto em dois. É o momento sem palavras mais importante do mundo. É o tempo mais calmo e estrangulado. Esse que precede a boca, a sua boca na minha. Toda essa vontade em contratempos de tempo é promessa de se tornar experiente em cruzados encontros das esquinas dos nossos corpos. Escalando todos os beijos imaginados e perdidos. Todos os ensaios de silêncios anteriores, só para este. Só para este. Surgir.

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segunda-feira, 19 de maio de 2014

De repente, quatro anos

Há quatro anos a gente se reunia num apartamento pequeno e cheio de afeto em uma rua do Bom Fim. Não me lembro exatamente como tava o tempo – o céu totalmente nublado, talvez.  Sei que era dia 16 de maio de 2010, eu ainda era estudante de jornalismo na faculdade de comunicação da Ufrgs e estagiava na editoria de cultura do Jornal do Comercio. Eu tinha viajado para São Paulo a fim de participar do Congresso da Revista Cult e retornado com várias ideias, sempre elas. Estava empolgado, porque sou uma pessoa um tanto quanto passional, e então comecei a procurar outros seres passionais, ou não, que eu sabia que poderiam se interessar com a proposta de trabalhar com jornalismo cultural. Todos nós assinamos uma folha que reproduzo em seguida.



Eles compraram a ideia e, de repente, as reuniões foram se tornando mais frequentes. Foi-se discutindo o conceito, foi-se pensando no layout, foi-se escolhendo um nome. E, do nada: Nonada. E, de repente, já se tinha uma data para o lançamento (um pouco mais tarde, no dia onze de setembro), de repente já se tinham problemas com prazos, de repente pessoas saíram e outras pessoas entraram. Nós não sabíamos o que estávamos fazendo no começo, principalmente em termos de vender um produto. Todos nós éramos jornalistas e pensávamos basicamente na produção do conteúdo, da matéria, do enfoque. Foi um erro em termos mercadológicos, eu admito sem nenhum constrangimento. Porém, a qualidade das nossas matérias ao longo desse tempo não fica atrás de nenhuma grande publicação da área, principalmente aqui do Sul do País. Pode soar pretensioso, e é, mas eu confio tanto nessas pessoas com quem trabalhei, que atesto isso.

O Nonada, entretanto, acabou sendo maior que todos nós que passamos por ele. E olha que, de diferentes colaboradores, nós já atravessamos a marca de sessenta pessoas (acho, não sei, talvez eu não tenha contado direito). Do começo do site, mas eu digo do começo mesmo, daqueles seres calorosos que estavam lá naquele apartamento no Bom Fim naquela tarde de maio, não há mais ninguém. Alguns nem em Porto Alegre estão mais. Outros largaram o jornalismo. Outros sumiram.  Mas o Nonada não sumiu, porque eu estou cada vez mais convencido de que eu não sei fazê-lo sumir.

E, claro, é minha culpa, eu admito. Porque o Nonada também sou eu, ou eu me confundo com ele. É para onde eu volto sempre, meu porto seguro do jornalismo, que me conectou a várias pessoas, que me levou interagir com diferentes conhecimentos e, o mais importante, que ajudou a definir a minha vida .  Eu aprendo tentando, eu tenho ideias a partir de diálogos e trocas. O Nonada proporcionou isso tudo para mim, porque me fez entrar em contato com algumas  pessoas incríveis. E tenho certeza que não é só eu que me sinto assim em relação ao site.

Atualmente, estamos retornando com um novo layout (quase pronto), temos um programa semanal de rádio web, temos uma equipe pequena, mas empolgada e que está trabalhando para trazer mais pessoas e mais novidades ao site – sempre com o mesmo espírito de travessia. Estamos com uma nova proposta de divulgar e trabalhar com a cobertura de artistas novos. Queremos fazer a cobertura crítica de produtos culturais, algo que sempre fizemos bem.

E é bom sentir toda essa vontade novamente.

Quero fazer uma série de entrevistas com jornalistas da área cultural para entender a lógica de cada um e mostrar o seu trabalho para o público. Quero entrevistar escritores. Quero entrevistar desenvolvedores de jogos digitais. Quero entrevistar artistas de rua, quero entrevistar economistas da área da cultural. Quero ter conversas com pessoas que têm ideias diferentes da minha. Quero entrevistar cineastas cults e os não cults. Quero entrevistar músicos de qualquer tipo. Quero escrever sobre o cinema de Hollywood e também sobre o cinema produzido por estudantes. Quero conhecer vocês a partir do Nonada, e quero que vocês conheçam a gente por lá também.


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domingo, 4 de maio de 2014

Mundo

Hoje acordei era alta madrugada.
Tu ainda dormia.

As pernas entrelaçavam-se com o lençol.
O lençol não mais existia.

Teu rosto farol  iluminava a noite,
contornei as linhas da encosta
descobrindo novos mundos.

Nosso novo mundo.

Tua boca brasa contorcia
elixir de ar e
eu era todo átomo
toda partícula

dessa paisagem.

Teu seio manso que me acalma
a volúpia externa.
Tua voz trêmula no ouvido.

Eu sou um pouco disso -
da tua madrugada,
do teu corpo na cama.
No quarto,
no mundo.

O mundo desaparece.