quinta-feira, 29 de julho de 2010
Obstáculo 31
terça-feira, 27 de julho de 2010
“Todos meus amigos têm sido campeões em tudo”
E você não tem nenhum dinheiro a mais na carteira no fim da noite. Tem o dinheiro exato, contado; extrato da conta negativa, sem o pai para bancar todos os seus problemas. E você que não acumula nem uma grande viagem para o estrangeiro, não sabe como é a vida em outro país – enquanto todos os outros, os seus amigos já passaram algum tempo na Europa vendo coisas que você, provavelmente, nunca verá. E eles comentam sobre o rio Danúbio à noite e depois descansam sobre os seus problemas superficiais, usando termos como “balada”, “noite”, e dizem fazer muito mais do que realmente fazem. E também falam de assuntos importantes, de política, de bens culturais como se dominassem toda a linguagem necessária para isso. Entram rapidamente em consenso, fazem gestos positivos com a cabeça selando acordo para esconder a mediocridade.“Nunca conheci quem tivesse levado porrada”. E você mal consegue dormir a noite se preocupando com o futuro. E você que escorrega por dúvidas e trabalha por quase nada. E você que esculpi ideias adornando frutos que provavelmente não brotarão. E você que só pelos livros conhece o fog londrino. “Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”
Aspas do senhor Fernando Pessoa.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Do que elas não querem saber - Postagem Temática
- Calma, calma, amor
- Estamos quase atrasados, você sabe..como a minha mãe é com horários..
- Relaxa...você sabe que ela me adora...
- É...
- Olha só, já estou indo para o quarto, deixa só eu dar os últimos retoques.
- Ok, ok...estava lendo o jornal agora há pouco..sabia que o preço do petróleo aumentou novamente?
- Ah é...?
- Bom para os negócios...
- Amor, estou indo para aí!
- Acho que vamos ter mais lucros...
- Tãnan! O que acha?
- Ahn..
- O que foi? Eu fiquei gorda com esse vestido?
- Não, claro que não..esse vermelho escarlate não te deixou maior não..
- Como assim "te deixou maior"? Você acha que eu engordei? É isso?!
- Não, amor, de maneira alguma...talvez a cor..
- O que tem a cor?
- Talvez ela te deixe mais chamativa, talvez ela passe a sensação de expansão..
- Sensação de expansão? Seu idiota, você acha que eu engordei sim...chega, não vou mais na festa da sua mãe.
- Para Débora, para com isso, claro que não acho. Você está magrinha, linda, como nos casamos. Se lembra?
- Seu mentiroso, só está falando para me agradar.
- É verdade, está linda, toda gatona ainda nesse vestido vermelhão. Muitas gurias teriam inveja desse corpo!
- É?
- Sim, é claro. Agora vamos, estamos atrasados! E você sabe como é a minha mãe com atrasos..
- Então não estou gorda, né?
- Não, amor, claro que não.
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terça-feira, 20 de julho de 2010
Quebrou todos os protocolos
A cara de cansada me encarando às 23h45min.
Roubou o copo da minha mão
e foi diretamente para o
meio da pista
onde contorceu as coxas
os quadris e todo o corpo
em velocidade altamente impressionante.
Pum-pa-patim-pum-pa
Encheu com gelo e vodka e
renegou companhia a noite inteira.
Fez acordo pré-nupcial
com a pista e quebrou
todos os protocolos,
todas as táticas
de aproximação.
As inúmeras metodologias
desenvolvidas ao longo de anos.
Pum-pa-patim-pumpa-pumpa
Tudo que restou
foi a sinceridade brega do fim-da-noite
de quem vai embora desacompanhado.
domingo, 18 de julho de 2010
Brincando nas nuvens - Com ilustração
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Meu arranha céu
Cobriu os pés com as meias avermelhadas, procurando calor. Esparramou os dedos por aquele tecido coberto de linhas e emaranhado de lã fabricada manualmente por alguma senhora antiga, com uma máquina velhinha. Começou a pensar em sua vó e deixou o queixo cair até a mão. Morreu tão sozinha aos 82 anos de idade, toda enrugada a danada. “Braba, toda braba. Tinha raiva de gente”, lembrou. E começou a esticar a perna e o pé já todo coberto pela nova meia que ganhara e começou a virar a cabeça para trás, aos poucos. Acabou caindo, caindo com as costas para o chão, o carpete todo marrom escuro amornando a sala. Esticou o pé para cima e reparou nas meias felpudas, quase vivas. Em movimentos aleatórios tapava com o pé esquerdo a lâmpada amarela e depois destapava, iluminando e assombrando o pequeno rosto.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Uma metamorfose ambulante
“É apenas rock’n’roll, mas eu gosto” é o que diz a letra da música It’s only rock’n’roll but I like It, famoso hino do rock escrito em 1974 pelos Rolling Stones, banda liderada por Mick Jagger. Assim como todo gênero que se presta, o rock aprendeu a falar sobre si mesmo com muita qualidade desde que surgiu, lá no final da década de 1940. Foi a canção Rock around the clock, de Bill Haley em 1955 que se tornou a primeira desse novo estilo a chegar ao topo de parada de vendas e execuções da revista Billboard nos Estados Unidos, abrindo caminho mundialmente para uma nova onda da cultura popular.
Bill Halley era o terror dos pais de uma geração que aprendeu a dançar com a música do artista: “Ponha seus trapos alegres e aproveite comigo/Nós vamos dançar rock, nós vamos dançar rock até o final da noite”. Mas tudo bem, esses mesmos pais acabariam se rendendo mais tarde, ao notarem que não adiantaria lutar contra o novo estilo de música, ou até de vida. Quatro meninos vindos de Liverpool, uma cidade portuária e cinzenta na Inglaterra, confirmariam essa tese em 1964. Quando I wanna hold your hand do conjunto britânico começou a tocar nas rádios americanas, a transgressão de “querer segurar na mão, e de sentir aquela coisa especial” como diz a letra, já estava praticamente consolidada.
E como toda boa transgressão, o rock está sempre se modificando, afinal ele precisa ser “aquela metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, como explica um dos ícones brasileiros do gênero, Raul Seixas. No final dos anos 1960, devido à guerra do Vietnã e a um conservadorismo ainda em voga, o rock se torna a válvula de escape dos jovens que encontram no gênero uma forma de contestação. Novos subgêneros surgiriam introduzindo mais originalidade em suas composições além de conceitos musicais cada vez mais complexos. Bob Dylan é um dos artistas mais expressivos e influentes do período, antes de tudo um contestador, como fica claro na sua canção Like a rolling stone: “Como se sente?/ Por estar por sua conta?/ Sem direção alguma para casa?/ Como uma completa estranha?/Como uma pedra a rolar?”. Uma década tão celebrada só poderia acabar em um festival de proporções até então nunca vistas, onde a era hippie e a contracultura tiveram seu ápice: Woodstock com shows históricos em 1969.
Depois do caos sessentista, lá estava novamente o tal do rock se reinventando, agora o que começava a surgir eram o hard rock e o punk. As bandas se tornavam cada vez mais antagônicas, o que pode ser percebido na diferença entre Queen e Sex Pistols, ambas inglesas, mas de estilos totalmente distintos. Enquanto os Pistols trucidavam problemas sociais em suas letras e em seus poucos acordes de guitarra, o Queen em suas composições e arranjos bem trabalhados preferia cantar sobre temas normais como o amor e a própria música. Nessa época surgiu também o famoso show Live Aid, mais precisamente no dia 13 de julho de 1985, que reuniu grandes artistas a fim de angariar fundos para os famintos da Etiópia. Desde então, 13 de julho é também conhecido como o Dia Internacional do Rock.
Justamente por ser um gênero que se transforma, capaz de se adaptar ao comportamento de uma época, o rock é tão celebrado e tão cultivado até os dias de hoje. Onde o mundo da música se vê contaminado com o fenômeno da internet, e a facilidade que é se tornar conhecido. É o começo do rock cada vez mais independente e o fim das grandes gravadoras. Não há mais ídolos na música, e talvez o último gênio do rock tenha sido Kurt Cobain, que representou o grunge da década de 1990 em contraponto ao glitter das bandas de hard rock dos anos 1980, como o Bon Jovi. Assim como a vida, o rock nasceu para ser aquela metamorfose, sempre modificando padrões, associando comportamentos, nunca fugindo da sua natureza completamente transgressora. O bom rock vive e deve ser celebrado não apenas em uma data comemorativa como a de hoje, mas todo dia. Afinal, é preciso sempre lembrar das sábias palavras dos pintados do Kiss: “Eu quero rock and roll a noite toda e festa todos os dias!”
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Texto publicado originalmente hoje na capa do Panorama, caderno de cultura do Jornal do Comercio, em homenagem ao dia do rock - que, na verdade, deve ser celebrado todos os dias, não?
domingo, 11 de julho de 2010
Songs Of Joy Instead Of Burn, Baby, Burn
Pipe of peace
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Pouco a pouco
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Carta 06
Demorei um tempo, eu confesso, para esquecer aquele amor. Nem sei se é o termo correto esquecer, acredito que está mais para algo como abandonar. Você sabe, uma hora é preciso abandonar.
E, em uma relação, há sempre o que abandona por último, que afunda com o barco. Há verdade na frase linda do Caio Fernanda Abreu, quando ele fala sobre remar, “Não para de remar não, porque te ver remando, me dá vontade de não querer parar de remar também...”. Embora você tenha parado de remar há muito tempo, eu não percebi. Talvez eu não olhasse para o lado o suficiente.
Agora, eu sei.
Agora a gente sabe o quão necessário é olhar para o outro lado. E embora eu tenha sim abandonado esse amor, eu não naufraguei, eu pulei daquele barco, daquele jeito. Era a melhor opção no momento e, analisando agora, continua sendo.
Amor sem divisão é castigo. Amar sozinho é invenção.
Ao pular do barco a gente percebe o quão rasa a água é, diferentemente do que pensamos enquanto estamos lá em cima. Eu pulei e não me molhei nada, eu pulei e só os meus pés ficaram ensopados.
E, assim, a gente sempre está pronto para caminhar novamente.
