domingo, 20 de setembro de 2009

Todo dia seria sexta-feira à noite


Ela chegou lá pelas 22 horas e foi embora às 2 da manhã se segurando – quase caindo pelos lados e sorrindo de ponta a ponta – no pescoço de um cara que bem poderia ser o seu pai. Estava enfiada em um vestido bem curto, meio apertado e todo preto. Não sei o que os seus pés usavam, porque para eles nem olhei. Fixei observação em suas coxas, na tez branca lisa, na quantidade exata de pele em um espaço milimetricamente moldado. Tão jovem e tão bonita. E com um cara que poderia ser seu pai. Ainda mais um assim tão acabado, ainda mais um assim que segura o cigarro vagabundo com as pontas do dedo sujas. O cabelo mal emparelhado. Aposto que você nem sabia o nome. A cena era esdrúxula e repugnante, apesar disso, talvez por revolta própria ou talvez pelas coxas dela tão a mostra, acompanhei o passeio cambaleante dos dois e logo virei os olhos em sinal silencioso de reprovação...


Adélia, minha esposa, percebera todo o movimento dos meus olhos, que fugiam e voltavam para a coxa branca da desconhecida, acompanhando o seu trajeto até a saída. Por sinal, nossa cena era esdrúxula também: Adélia me observando e eu vislumbrando o bizarro casal.


Será que alguém observava Adélia?


Foi um ligeiro e premeditado tapa no meu braço que me fez voltar para a mesa do bar, para o casamento, para a instituição de fidelidade. O tapa também veio acompanhado da voz fina, agora temperada com um pouco de rancor: “me pega mais um drinque no bar”. E só. Nada de me chamar pelo nome, de falar com aquela voz meiga de quase bêbada que eu conheço tão bem. Só me empurrou o copo, que ostentava como um prêmio entre as várias marcas circulares de cerveja na mesa.


Segui quieto até o bar, tranqüilizado pela promessa do que estava em troca: depois que pegasse a bebida, o rancor já teria passado, ela voltaria a beber e, como sempre, falaríamos da semana, e sobre os problemas dos nossos respectivos trabalhos. É assim que funciona. Adélia e eu costumamos sair toda sexta à noite para fugir da nossa rotina de casal recém oficializado e que namorou muitos anos antes de subir ao altar. Como se fosse possível criar um muro que dividisse as coisas.


O problema é que estava tudo se debatendo na minha cabeça, coxa branca, vestido apertado, dedos sujos, tapa, rancor. Felicidade premeditada. Cheguei ao barman mais próximo, perguntei as horas e da minha boca escapou, impulsivamente, uma pergunta que misturava tudo isso:


“aquela moça que saiu agora há pouco acompanhada com um cara mais velho... ela vem sempre aqui?”


Ele não entendeu de imediato, precisou de descrição mais detalhada sobre a aparência, o que vestia. Explanei várias características ainda tão vivas em minha mente e então o garçom acabou reconhecendo. Abanou com seu rosto gordo um gesto positivo. A via freqüentemente, não toda noite, mas com certa assiduidade. “Fala espanhol misturado com português, parece que veio da Argentina, sabe como é, essas gringa são tudo louca. Sei que bebe todo tipo de bebida e toda noite sai com alguém diferente”. Foi o que disse, em exatas palavras.


Levei o copo cheio de cerveja de volta para nossa mesa, esperando (lá no fundo, depositando grandes esperanças) que a castelhana aparecesse, se enrolasse em meu pescoço e me levasse embora para terras onde ela bebesse, ficasse louca e tirasse o microvestido preto. E onde eu pudesse ver tudo, tudo. Todo dia seria sexta feira à noite.


Mas ela não estava por ali.


O que eu via era Adélia a minha frente, com o cotovelo encostado à mesa, a mão segurando o rosto, os olhos virados, fixados na mesa. Cabelo castanho desidratado e a cabeça, dançando suavemente com a música brega que toca no bar. Daqui a pouco iríamos conversar sobre a sua colega grávida. Ela dirá que foi uma imprudência, e que nunca deve se agir sem muita reflexão. Pensei em fugir com o copo de cerveja, correr atrás daquela coxa, implorar por um pouco de sórdida perversão.


Entreguei a bebida para Adélia, sentei, desviei os olhos da minha mulher, procurando a porta. Roubei um gole. Ela não parecia mais brava. Já estava naquele estado em que bastava que eu estivesse ao seu lado, como se só isso fosse o fundamental. Talvez o motivo de todas as ilusões que a gente possa ter.


Então, deslizando o meu braço, olhando ao redor, ainda desejando que aquela coxa branca maluca e milimetricamente ajustada estivesse por perto, perguntei fixando nos olhos de minha esposa, quase como uma imposição, quase como uma ironia interna:


“amor, o que você acha de viajarmos para a Argentina?”


Também publicado no site www.pareotrem.com.br

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

São duas. Uma em cada olho.

É uma multidão de atividades distintas novamente e tudo agrupado em partes específicas. Finalmente a gente encontra tempo para se fazer o que gosta. A correria, entretanto, agora não me faz mal. Dentro do meu limite tenho conseguido arranjar tempo para tudo. É como se ele voltasse a ser meu amigo: apertamos a mão, fizemos o trato. Eu cometo tudo que eu quero e ele não me ferra no final. Quem sabe até possa me liberar uns minutinhos a mais. O que pede em troca, apenas, é o cansaço do meu corpo, ou as famosas olheiras por eu necessitar dele demais. É uma troca justa. Por que não? Afinal, não é possível comprar horas, não é possível desejar que um dia valha uma semana, e que uma semana um mês. E talvez as olheiras – que já tenho por genética – não me caiam tão mal. Só sei que não quero mais tudo ao mesmo tempo, só quero o máximo ao mesmo tempo. E com um maior nível de qualidade possível. Dá para encarar.


Obs: A partir de 20 de setembro entra no ar o site Pare o Trem (teaser de divulgação nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=QYh3djVBx88), um site dedicado ao jornalismo opinativo, com espaço para reportagens e também para manifestações artísticas. Estou participando como colaborador. Escrevi uma reportagem e um conto para o site, confiram lá dia 20. A ideia é muito legal e deve ser espalhada por aí.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Obstáculo 21

O meu problema foi sempre você – eu só não sabia ainda. Agora que não está aqui do meu lado, observo o que faz aí do outro pela minha imaginação. É uma droga a distância, eu sei. Por isso que falo que o meu problema (o conflito que movimenta uma trama, o que dá a condição de existência para uma boa história, cheia de reviravoltas) foi sempre você. E tem sido assim não há muito tempo. Começo a acreditar que todas as coisas ruins (assim como as boas, ou as mais ou menos), mas sobretudo, acredito que todas as coisas que não deram certo, não deram certo, porque era dever delas construírem um “mapa” que me levou a você. Quer dizer: tudo que não deu certo abriu um outro caminho e outro caminho até você aparecer na minha frente. E aqui está o último obstáculo. A distância física, terrena e enjoativa. Mas se nem um oceano segurar, não tem mais nada que segure.

sábado, 12 de setembro de 2009

por que eu sou sempre o primeiro a tentar quebrar o gelo?

Quinze para as duas da manhã

de um sábado;

a gente imagina o que será da nossa vida daqui a um ano.

Copos de plásticos,

cheiro de cerveja gelada

na calçada


os mesmos desacertos, os mesmos problemas.


Com nós é sempre esse meio termo.

mendigar novidade por conveniência,

brigar por besteiras atrasadas

falar o que não pensa

na hora errada


O teu tênis molhado da chuva

contra o meu verde ensopado;

a lua não aparece

às quinze para as duas da madrugada.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Aquele que corta o tempo

É só tocar música que Anna lembrará. Fraca e alegre, é bem assim que ela vai se sentir, mesmo que dure apenas uma fração de segundo. A melodia em quatro tempos, todas as sete notas musicas em perfeita ordem harmônica. Vai formar com os dedos no ar o primeiro acorde que tocou, logo após aprender as diferenças de tom. Dó ou Sol? Não dava para esquecer. As aulas de violão lhe marcaram. Era algo difícil e, sobretudo, trabalhoso. Seus dedos doíam por qualquer arranhão, por qualquer composição diferente em que fosse embarcar. Senão fosse o professor, senão fosse aquele professor em específico.


Costuma lembrá-lo nas noites em que não consegue dormir, onde observa o agora empoeirado violão atirado no canto. A partir dele vai remontando aos poucos a imagem ainda visível do professor. Era mais velho e moreno. “Cor do violão”, ela pensa, seus olhos também lembravam a madeira marrom clara do instrumento. “Por que eles nunca me observavam?”, continua em tom alternado, deitada na cama de solteira do seu quarto na casa dos pais, completamente sozinha. Seus pensamentos rememoram a mão afiada do professor tocando o instrumento que tanto lhe dá prazer. Apertando suavemente cada casa de cada diferente corda, formando vários acordes ao mesmo tempo. “O som é só uma eterna variação do tempo”, ele costumava lhe dizer, “basta tocar nos lugares certos”.


Anna puxa o violão do canto, senta na cama e começa a acariciá-lo, desde o alto do braço, cumprindo a rota dos entornos, deslizando com seus dedos até o corpo. Como se tocasse o professor, como se ele a tocasse. Roça o corpo do violão no seu corpo coberto pela pele branca quase pessêgo, passando a mão entre as cordas, entre as suas pernas. Movimentando-se, os dois acabam se enrolando com o cobertor. Viram em sentidos opostos, grudam e se desgrudam. No mesmo ritmo, como se pulassem o muro de uma casa, roubando alguma fruta. As seis cordas vibram por entre as mãos, por entre as pernas, criando música e tempo.

domingo, 6 de setembro de 2009

Meu bluebird

Até quando você vai cantar aqui dentro do meu peito confuso? O sereno que te alimenta ainda não foi embora de vez. Posso ouvir-te por mais horas a fio, sem perder a meada do destino. É rubro e azul claro, e é meu também. Desfalece a cada nota, em que diz tudo e em que diz nada. Eu não te tranco, está livre para soprar. Bluebird alta voz você sempre em mim terá. O sereno provavelmente um dia há de findar, mas as marcas em que pisa, não mais vão sumir. Cinco segredos entre nós, agora é assim que vai ficar. Você deixa os medos, e eu deixo os sussurros. Troca justa, melhor não há. Bluebird faça o seu ninho porque daqui não vou fugir. Deixa o sereno preto ensaiar performance, a gente arranja um lugar para se esconder. Um dia o tempo em nossa volta, assim como suas asas e seu sopro e a minha vontade vão se misturar. É uma droga, mas é o que posso prometer. Agora canta a música, canta tudo, dorme depois, que a manhã já chega, devagar, serena. Eterna.

Baseado em:

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

As palavras certas - postagem temática


“Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido." – José Saramago


Não pretendo discutir aqui o valor da ferramenta Twitter como a ótima rede social que é. Acredito sim que se for bem utilizada sirva como um importante canal de comunicação entre, por exemplo, uma empresa e o seu público. Muito menos desejo criticar o seu enorme poder de transmissão de informação imediata entre amigos ou a sua grande possibilidade de compartilhar conteúdos interessantes.


Quero refletir sobre os limites que 140 caracteres fazem conosco.


Sobretudo na informação que desejamos utilizar ou demonstrar para alguém, pois ao mesmo tempo em que o espaço te limita, ele também nos força a ser mais criativo, explico. Pedindo auxílio ao Drummond, roubo uma de suas frases clássicas para melhorar meu texto: “escrever é cortar palavras”. Acredito que o Twitter, para as pessoas que gostam da arte literária, é uma ótima maneira de descartas as palavras erradas. Discordo de Saramago no sentido de quê não acredito que twittar seja algo retrógrado e que voltaremos aos grunhidos, ou a ignorância. A Internet pode estar nos deixando mais “robotizados”, mas não mais ignorantes. 140 caracteres podem dizer muita coisa, depende só das palavras que você escolher e do modo como vai utilizá-las. Não se perde a sintaxe ao se levar um discurso para o twitter. A questão é ser objetivo, mas não chato.


Não ficaremos pior escrevendo com pouco espaço.


Não vamos descer de degrau a degrau, pelo menos não até os grunhidos.


post vinculado ao Blogsintonizados , participe você também!


Sugestão de tema: dinheiro

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Desfocada

É você chegar em casa
às dez horas e trinta minutos
depois de seis horas de aula
cinco horas de trabalho,
almoço corrido,
praticar esporte
de caminhada
rústica - na chuva.
Pensar que o dia não poderia
terminar de forma pior.
Aí vem você e me confunde
tudo outra vez,
joga charme e
vai embora
dissipa sonho
pela
boca
e me joga
todo final de noite
de volta
à realidade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Teoria número vinte: sobre a loucura, realidade e várias perguntas

Se criamos uma imagem de cada pessoa que conhecemos, então quem é verdadeiramente real? No sentido da essência, a pessoa pode chegar a conhecer realmente a outra nessa mesma vida? A loucura então não poderia ser um modo de escapatória, no qual o indivíduo devido a uma falha no cérebro ou a alguma doença perde o sentido, acordando para uma verdadeira, ou melhor dizendo, uma outra “opção” de realidade. Não sei, são devaneios que atravessam a minha cabeça, sempre que eu vejo uma pessoa gritando no meio da rua, alterada, em “outro” lugar.

Um louco não pode estar certo?

O problema é a imagem realizada, a imagem feita, a compreensão do próximo apenas pelos próprios olhos. Por que não conseguimos sair de nossa restringida visão? Somos tão fechados em nossos malditos sentimentos, em nossos pronomes próprios, consequentemente preferimos sempre acreditar no que vemos. O ser humano é o mais medroso dos animais que habitam a terra. De alguma forma a imagem realizada nunca sumirá, nunca seremos aptos a ver o real por trás. E se não vemos, e se ninguém nunca viu, será que o real realmente existe?

domingo, 30 de agosto de 2009

Crônicas de um repórter novato - parte VIII

Eu sou um dinossauro. E o cometa já está chegando para me tornar um fóssil. É, já tava na hora de deixar combustível para as próximas gerações! Pode ser exagerada, mas a analogia é boa. Sinto-me um dinossauro na faculdade atualmente. Olho para os bixos (calouros que acabaram de entrar na faculdade) e fico imaginando o que eu pensava quando estava na situação deles, quando tudo é novidade. E a gente se empolgava por pequenas coisas.


A faculdade é uma coisa cruel, pois vivemos tudo intensamente. A começar pela sua divisão de tempo. É como se fosse dois anos em um só, cada semestre é na verdade, ao meu ver, 365 dias. Novas cadeiras, novos professores, e os mesmos colegas, aprendendo as mesmas coisas que você. E por ser poucos meses de aula em um semestre, a produção e a preocupação com as cadeiras se intensificam, fazendo com que o tempo se comprima e que as nossas cabeças experimentem a faculdade por mais tempo. Ela está sempre ali: presente, com os trabalhos, as provas, os professores idiotas ou os bons. Mesmo que você goste ou não.


Sempre tive uma relação de amor e ódio com Fabico. Sempre tive dúvidas sobre se estava fazendo a escolha certa. Mas eu nunca quis ser aquela pessoa que sabia exatamente o que queria fazer da vida eternamente. Não. Isso me entediaria muito. Eu sei o que eu vou fazer sempre: escrever. Mas ser jornalista? Eu realmente não sei até quando. Atualmente, tenho voltado a gostar da faculdade, talvez pela proximidade do seu término e a chance de fazer uma monografia boa, em que possa explorar o assunto que me interessa.


A minha certeza é o sentimento de “não pertencimento”, sabe? Quando você olha para uma pessoa e vê que ela já não é mais sua amiga, como antes. Ou quando percebe que aquela atividade que você gostava tanto, já não lhe é mais assim tão interessante. Eu entro na faculdade e não me sinto mais tão “pertencido” por ela. Mas acho que é normal, acho que é por aí. Afinal de contas, eu já sou um dinossauro mesmo.