domingo, 23 de agosto de 2009

O seu

Sorriso. Aquela boca calcada na sensibilidade que agora eu conheço tão bem. Agora que fomos apresentados, agora que somos íntimos. O conjunto é o que me interessa, o modo como tudo se organiza magistralmente bem: os dentes fechados, naturais; os lábios rosados, suave; a deliciosa pinta marrom presa à pele, um pouco acima do lábio superior ao lado direito. Em uma próxima vida eu gostaria de ser essa pinta. Eu mataria por essa pinta. Olha a curva que o sorriso faz para a direita, levando todo o rosto junto. Sabe, eu nunca vi isso em nenhum outro lugar. As maçãs do rosto, até as maçãs do rosto ficam coradas devido a esse sorriso. É fantástico. Mais fantástico é como tudo isso mexe com o meu corpo. Não sei o que falar, o que dizer. É como se roubasse todos os meus assuntos, invadisse cada pensamento trivial e substituísse por algo mil vezes mais interessante. Deixando meus olhos doidos, doidos por ti.

sábado, 22 de agosto de 2009

Dos arredores para casa

Parque Tanguá localizado em Curitiba. E como pode se ver pela placa, a melhor coisa a se fazer é caminhar. Talvez a única coisa que eles permitam fazer. Mas sério, se eu tivesse que aconselhar alguém a visitar algum parque lá seria esse. E como o dia estava bonito, só aproveitei ainda mais a passagem. Nâo vou escrever muito nesse post, deixarei as fotos falarem por si. Vou me limitar a dizer que após esse passeio no parque, voltei para o hotel, almocei e peguei o avião para Porto Alegre .







Ah, só para descontrair, uma placa inusitada de outro parque em que visitei mais rapidamente:


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Agora de madrugada - postagem temática

"Médico: A senhora vê, os olhos dela estão abertos.
Fidalga: Sim, mas o pensamento está ausente".
Macbeth, Ato V, Cena 1

Mais da metade da madrugada já havia ido embora, quando notei que Cinara evacuara-se de nossa cama. O rádio despertador na estante ao lado mostrava em cor vermelha o horário: três e meia da manhã. Acordei devido a um mau sonho, que tornou a cabeça tão confusa, a ponto de deixar-me altivo bruscamente, como um pássaro que foge assustado após um estopim qualquer. Busquei conforto na visão de repouso de minha esposa, mas o que encontrei foi o abandono cruel dos lençóis, que nada mais preenchiam. A porta do quarto posicionava-se milimetricamente encostada, como se um pequeno vão fosse deixado propositalmente. Dele, um feixe de luz atravessava-se soberano, denunciando um possível rastro de Cinara.

Os olhos minguados mal haviam se acostumado ao escuro que a madrugada ocupava com tanto vigor. Foram necessários esforço e tempo para levantar da cama, vestir o chinelo preto velho e mover-se ao encontro da porta. No caminho, não pude deixar de notar – mesmo com o sono, mesmo com o aperto suave das pálpebras invadindo meus olhos – pequenos pingos vermelhos formando um caminho. Vermelho cor escarlate, possivelmente ainda quente, encostado no chão, morto, com todas as suas diferentes substâncias e composições químicas. Os pequenos glóbulos no chão apontavam que a sua fonte estaria no banheiro. Não precisei de meio segundo para deduzir o que estava acontecendo.

Corri ao banheiro, mas estranhamente a porta estava chaveada. Joguei berros através da madeira seca, recém pintada de verniz, para ocultar sua velhice, mas não obtive resposta em nada. Nem grunhidos eu ouvia, reclamações, gritos de dor. Nada. A madrugada preenchia o vazio entre nós, e os minutos rondavam os meus pensamentos.

Apenas sete semanas que descobrimos da gravidez. Inesperada, mas não mal vista, casamento de cinco anos, situação regular de ambas as partes. Eu estava feliz, eu estava morno. Talvez um filho pudesse mudar a nossa situação. Tudo isso me atravessava, enquanto eu batia cada vez mais forte na porta que dividia a minha futura felicidade, ou melhor, a nossa futura esperança de felicidade.

Foi então que um estrondo contido, na parte interna da porta, respondeu aos meus suplícios. Esbocei uma reação homérica, quase teatral, para derrubar a porta, mas a falta de força, impediu-me de prosseguir. Lá estava eu, preso do lado de fora da minha felicidade, observando tudo sangrar aos poucos. Provavelmente do outro lado, Cinara havia finalmente cedido a hemorragia, desmoronando, batendo a cabeça e destruindo a nossa chance de melhorar como casal.

De repente, a porta do banheiro, assim como a cortina de um teatro finalmente se abriu, e Cinara, como a personagem principal de uma peça saiu sem me olhar, sem me dar a mínima satisfação, e caminhou de volta ao quarto. Observei à distância os seus passos certeiros e confiantes. Percebi também um corte recente, aberto, pouco profundo na sua mão esquerda.

Acompanhei-a de volta à cama. A tapei novamente com os lençóis, que agora voltavam a cumprir a sua mais primordial função. No rádio relógio meia hora já havia se passado. O bebê ainda continuava no seu lugar, e conseqüentemente a possível felicidade ainda estava garantida. Então deitei na cama, averigüei uma última vez o rosto de Cinara, virei para o lado e dormi.

sugestão: mudanças

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Ao som de Beast of burden eu vou ter que te dizer isso,

eu já queria falar há um tempo e o impulso veio aqui debaixo desse nosso telhado inventado por nós nesse momento, debaixo das pessoas que estão nos vendo do outro lado da rua. Debaixo desse céu azul claro de primavera feliz das árvores nas ruas, eu vou ter que falar todas aquelas coisas que eu sempre quis te dizer. Ou melhor são poucas coisas, que dizem muito, sabe. Poucas coisas que dizem muito. Na realidade é como uma ótima cena dentro de um filme não tão bom. Ou um capítulo pequeno, mas ótimo dentro de um livro chato e pretensioso. Sabe. Bom, o que eu estou querendo dizer... olha como essa música do Rolling Stones é ótima, não acha? Se eu fosse o Mick Jagger, se eu fosse ele, eu falaria o que eu e quero lhe falar em forma de música, eu cantaria, dançaria, mas eu não sou o Mick Jagger, tudo que eu tenho é esse céu sobre nós, o cd do Rolling Stones tocando e seus olhos impacientes aqui perto de mim. Não me olha assim, senão eu fico mais nervoso, eu ainda chego lá. Claro que chego, eu demorei até te conquistar, eu sou um cara demorado, gosto de adiar o prazer. Haha. Você me conhece, não é. Quanto tempo já? Alguns meses, pois é, você deve achar que eu não sei as datas importantes, mas eu sei todas as datas importantes do nosso relacionamento. Eu sei, de cor e data. Eu anotei. No Word , ta na pasta com o teu nome. Nosso nome. E lá estão as datas. Você não adora essa parte da música, é uma melodia incrível. Suave e forte. Como as palavras que eu quero te dizer. Sabe. Não sabe? Já saberá. Logo, logo. Não sou o tipo de cara que fala essas coisas com facilidade. Não sou aquele tipo que usa perfume só para agradar as mulheres. Não sou. Você me conhece. Sim desde aquela manhã, que o Antunes nos apresentou sem querer, eu estava correndo, era domingo de manhã, Deus, eu nunca corro domingo de manhã, eu não sei porque eu fui correr domingo de manhã, mas eu estava lá. Você também. Naquela sua roupa de domingo de manhã, que agora eu conheço tão bem. Tão bem. Rosa fraco, quase desmaiado. Você sabe, você me faz feliz mesmo quando eu não acordo com você domingo de manhã. Acho que é por aí, você me faz ser eu mesmo em todos os momentos que eu estou contigo, sabe. E não é só porque ta tocando essa música, não é só porque parece o momento perfeito para te falar isso, mas porque parece certo. Só isso. Parece certo. Não sou um desses caras que fala as coisas facilmente, eu não vou sempre te agradar, mas eu sou sincero. Só isso. Sua voz sempre soou bem para mim. Olha só, a música já acabou, será que eu consegui dizer....porque desses olhos marejados? Deus.... O Mick Jagger não tem uma excelente voz?

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Do nosso tempo

‒Eu tô meio perturbada com o que tu me disse de manhã

‒O que eu te disse de manhã?

‒Que tudo vai mudar com o tempo

‒Não me lembro de ter falado...

‒Mas eu lembro, olha pra mim enquanto eu converso contigo

‒Que porra...lá vai tu fazendo tempestade em copo dá água novamente

‒Que porra? To tentando falar contigo, por que você me diz essas coisas? Parece que eu nem sei mais quem tu é

‒Como assim? Eu sou a mesma pessoa de sempre, com o mesmo trabalho, as mesmas preocupações, nada mudou com o tempo.

‒Talvez seja esse o nosso problema...

‒Mas...mas...tu acabou de dizer que não tinha gostado que eu disse que tudo muda com o tempo ..

‒Então tu falou isso mesmo! Viu como tu mente para mim? Quem é a vagabunda? Quem é a piranha que vai mudar tudo?!

‒Puta que pariu, o que que nós estamos fazendo?

domingo, 9 de agosto de 2009

Há quarenta anos em uma rua na Inglaterra


Ontem às 10h34min da manhã há quarenta anos, os Beatles atravessavam uma faixa de segurança na rua que se tornaria mundialmente famosa, a Abbey Road. O fotógrafo Iain Macmillan subiu em uma escada e tirou apenas seis fotos. A sessão durou cerca de quinze minutos, “eles deram a MacMilan pouco tempo, enquanto um policial segurava o trânsito, a banda caminhou pra frente e para trás várias vezes e nada mais do que isso”, conta um amigo do fotógrafo que estava presente no momento.

Brian Southall, autor de um livro que conta a história do estúdio EMI, diz que a ideia surgiu a partir de um desenho de Paul McCartney, baixista da banda, “há um desenho que Paul fez de quatro homenzinhos estranhos atravessando uma faixa de pedestres, com base nisso a foto foi realizada”.


Um detalhe curioso é que essa capa é possivelmente a que mais evidencia a construção do mito “Paul está morto!”, que surgiu em 1966 depois de um possível acidente de moto do baixista do quarteto. O fato de que McCartney aparecia sem sapatos (mortos são enterrados assim), segurando o cigarro na mão direita (ele era canhoto) e com o passo trocado em relação aos outros componentes só serviu para aumentar ainda mais a construção do mito. Ainda há o fusca no canto esquerdo, que possui a placa 28IF, um lembrete de que Paul teria 28 anos se estivesse vivo.

É interessante notar que não observamos mais mitos musicais dessa magnitude de anos para cá. Ninguém mais brinca com as capas de discos, ou melhor, daqui alguns anos, elas serão apenas artefatos de pesquisadores musicais e de colecionadores. Antigamente era todo o pacote que importava. Cada vez mais somos empurrados para as migalhas de tudo. Uma mp3 aqui, outra ali. Só isso. A ideia de conceito que teve seu ápice na década de sessenta e setenta na música foi se esvaziando com o tempo.

O significado escondido por trás da capa traz uma ideia de simbolismo, que é o cerne de qualquer composição artística de qualidade. É justamente essa preocupação na a dualidade estética e histórica de Abbey Road, que dá uma maior valorização a banda. A conclusão mais óbvia da foto é a de que Lennon, de branco, representa a religião (ou o próprio Deus, uma vez que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo), Ringo, a igreja ou o padre, Paul o cadáver e George o coveiro.

Contudo capas como a de Abbey Road continuam a ser idolatradas por muitos artistas, que a parodiam de várias formas:

A banda Red Hot Chili Peppers, se rendeu ao charme da capa, ficando nus ao atrevassar uma rua:



Já os Simpsons também deram o ar da graça:

Assim como os brasileiros, cada um do seu jeito:

A verdade é que mitos são necessários para a humanidade, porque eles servem para consolidar um pensamento. E também para mexer com a imaginação das pessoas. A sociedade é feita de milhares de tipos diferentes de mitos, muitos deles impostos no cotidiano. A foto de Abbey Road está aí para nos lembrar disso.

Ah, não observem só a capa, escutem o disco também, vale muito a pena.
Favoritas: Golden Slumbers seguida de Carry the weight, Something, Come together e a genial You never give me your money.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Meu tipo de erro favorito

E lá vamos nós novamente. Joga a chave da casa para fora. Enche a mala. Pega as suas roupas favoritas. E corta. Lá vamos nós novamente. Faz essa cara de braba, não me perdoa por mais nada. Guarda as mágoas da noite passada. Lá vamos nós novamente. Agora junta todos os sapatos, todos os pertences, pega as jóias que eu te dei e atira no bolso. Da calça jeans surrada. Do tempo que você usava, quando só era minha namorada. Isso. Não faz birra, fazendo birra. Lá vamos nós novamente. Quer me irritar com seus erros redondos? Os seus olhos redondos nos meus (também redondos). Também em círculos por aí. Por que nós somos tão viciados nisso? Lá vamos nós novamente. Pega a montanha de cds, pega as meias, as calcinhas e as outras roupas espalhadas pelo quarto. A porta está logo ali. Pega essa boca, esse corpo, essa perna e coloca para fora daqui. Nem tenho mais pressa, mas medo. De qualquer jeito, lá vamos nós novamente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A gente é e não é - Postagem Temática

Você não fuja da minha história, desejo que saiba a causa deu ter feito isso. Não, não levante da cadeira, trate de se sentar, não quero esse medo escancarado no rosto do homem da cidade. O que vão pensar de mim lá no seu jornal? Mas chega de trela-trela. O que se sucede é que o que houve não era algo planejado; e nem foi pensado em última hora. Simplesmente aconteceu, tal qual o cavalo aprende a estancar de pé, a galopear e depois sai andando pelo campo afora. Até encontrar uma portera fechada, daí, só daí, ele se acalma.. A gente é e não é.

Veja bem, sei que o moço não está acostumado a essas nossas cidades pequenas, mas saiba: elas também não me iludem em mais nada. Há algo de podre em ares interioranos. Existe muito assunto escondido por baixo de uma família. Mas sempre há uma mulher tentando organizar as coisas, há de concordar. Sempre. E, desculpe perguntar, mas há alguma mulher na sua vida agora? Claro, o sorriso escondido prova que sim. Deve ser importante; mas digo, as importâncias podem variar muito. Uma hora é sim e outra é não. Tudo muda, sabe. A gente é e não é - e nunca sabe; mas veja quando isso desatinou de ocorrer eu ainda não entendia bem os sentimentos. Era jovem por demasiado, e quando a gente é jovem fica cego por qualquer mínima coisa. Por saia curta, por risada feliz, por estado que não existe. Demorei anos para entender que a cabeça é que comanda a existência. Pensamento controla pensamento – algo muito complicado, só o tempo trata de ensinar.

Mas não quero perder a linha narrativa, veja bem; só direi o nome dela uma vez, faz anos que não menciono, e prefiro falar assim de prontidão: Claúdia. Com a tônica no u mesmo. E pronto. Essa é a mulher da história. Agora, há muito tempo, nós tínhamos aqui na comunidade um pequeno festival que se realizava perto do final da primavera, da data eu não me recordo com exatidão. Pelo final de setembro, talvez o último sábado do mês. Nele consistia a comemoração da entrada da chuva. E até hoje não sei a razão certa do porquê, mas era tradição as mulheres usarem máscaras que elas mesmas tratavam de fazer.

Era muito bonito de se ver quando todas chegavam juntas à noite, cada uma mais diferente que outra, cada uma tentando brilhar mais forte, sabe. Aposto que não se vê uma coisa dessas na cidade grande. Veja, Cla...ela costumava participar todo bendito ano. Era a sua época mais feliz dos 12 meses, alguma coisa irradiava daquela mulher que não se via em qualquer outro momento. E, deus, ela trabalhava duro naquela máscara, queria sempre ser a que mais prendesse atenção, a que brilhasse no meio daquelas todas mulheres.

É a mesma ideia do cavalo, quando começa a correr: espera ser observado, olhado, vigiado, conquistado... Aquela sua felicidade ano após ano parecia só aumentar....de quem ela queria chamar a atenção? Havia algum vizinho nosso em que ela pousava os olhos com mais apreço?

Viste?

Era assim que meus olhos pensavam. Era assim que meu pensamento cavalgava. Mas, mas veja...se eu pudesse voltar atrás...Besteira. Ninguém pode voltar atrás, não é? E provavelmente, eu não faria nada de diferente. Seria o mesmo, com o mesmo pensamento do tempo.

Mas a quem ela queria chamar a atenção?

Nas últimas semanas que antecederam o dia do festival, era só nisso que ela falava, comprava tintas de várias cores diferentes, precisava ver, tecidos, purpurinas, e todas aquelas coisas que mulheres sabem bem o que é. Estava mais empolgado do que qualquer outro ano. Alguma coisa em mim odiava aquilo nela. Eu pagava tudo. Ela dizia obrigado e, mal e parcamente, falava comigo. Descia as escadas e se trancava sempre no porão e ficava lá por horas trabalhando em sua confecção. Não sei quantas máscaras ela deve ter feito. Eu já não mais sabia o que fazer.

Na minha cabeça era eu quem ela devia servir, você me compreende? Eram os meus motivos, as minhas razões, era em mim que ela deveria pensar enquanto fizesse a maldita máscara, você vê. A gente é e não é. A juventude humana...eu nunca vi animal mais imbecil. É por isso que comecei a gostar mais de cavalos. Eles simplesmente correm por impulso, não por egoísmo.

Perguntei para nossos empregados, se haviam visto alguma movimentação estranha. Se quando eu ia trabalhar, ela inventava de sair, ou alguém ia visitá-la escondida. Eles relutaram em responder na hora, eram três ou quatro bons serventes, mas gente sem nenhuma ou pouca educação. Insisti mais vezes, berrando com eles, quando o mais novo resolveu falar.

Era um moreno baixinho, me lembro ainda do seu rosto, a expressão de medo quando me disse que achava estranho o alfaiate da cidade vir tantas vezes na semana que passou, sempre trazendo um daqueles homens de madeira e deixando no porão. Ao passo que minha esposa não saia do local nem para recebê-lo, nem para adiá-lo. Instantaneamente procurei o tal do alfaiate, cheguei com o pé em sua porta e com o pé o derrubei também. É verdade. Agora você não dê nada por mim, mas na minha mocidade...não tinha um que me encarasse de força igual.

Quanto ao alfaiate, é claro que ele negou qualquer envolvimento, mas não escapou de algumas bordeadas. Com o rosto inchado as pessoas falam mais fácil às verdades. Descobri apenas o que eu já sabia, vários bonecos de madeira em formato de homens foram levados para o meu porão. Décio, o alfaiate, não sabia o porquê. Só sabia que ia ser pago e para ele era o suficiente. Homem regulado Décio era: às vezes é bom não saber o que as pessoas escondem.

Quanto a mim, eu sempre quis saber o que as pessoas escondiam. Principalmente se fazia referência a minha mulher. Foi então que resolvi invadir o porão e deparei-me com horrenda cena: ela nua, deitada no chão vestindo apenas uma máscara; vermelha, cobrindo os olhos, cheia de purpurina. Os bonecos em volta, todos vestidos como se estivessem numa festa, como se fossem ao festival. Você faz essa cara? Imagine a minha na hora.

Comecei a gritar coisas sem sentido para ela, ao mesmo tempo em que ela levantava do chão também berrando frases que ficaram anos batendo e voltando entre os meus ouvidos: ‘Agora é assim que eu vou viver! Eu também posso ser livre! Esta vendo essa máscara? É quem eu sou de verdade!’. Agora veja, o que eu poderia fazer? Eu estava descontrolado.

Lembras-se da metáfora do cavalo? Eu simplesmente corria. Todos aqueles bonecos a minha volta. Ela nua a minha frente, histérica. O que me lembro é de ela rolando a escada que levava até o porão e caindo, ficando estática para sempre. Foi essa a minha porteira. E ela continuava com a máscara. A gente é e não é. Mas não, não se afaste de mim assim, agora você sabe, eu também mudei.

Sugestão: Despedida.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Teoria número dezenove: sobre textos e pessoas

Sempre achei semelhante o processo da escrita e o de saber a importância de uma pessoa. Quando termino de escrever um texto e preciso relê-lo muitas vezes para que goste, é sinal de que há algo errado. Bem errado. Significa que ele simplesmente não está excelente, porque o texto com qualidade é aquele em que lemos e que não precisamos tentar nos convencer de que está bom. Não. Contudo é difícil de isso ocorrer, uma vez que de prontidão um texto raramente fica adequado, na realidade, ele precisa ser muito mais trabalhado até que encontremos o ponto certo. Precisamos mudar o texto e ir averiguando até que ele esteja bom o suficiente.

Acho que isso acontece com as pessoas também.

Só que com elas, pelo menos comigo, sempre foi ao contrário do texto: cada indivíduo que foi importante na minha vida, eu gostei de prontidão, de bate pronto. Tudo sempre funcionou meio que no tato. Nos olhos, sorrisos ou em conversas aleatórias sobre qualquer coisa. Meus melhores amigos nunca precisaram ser trabalhados ou “lidos” várias vezes para que eu os compreendesse. Assim como as paixões que tive, sempre foi alguma tensão antes, algum olhar, o modo como segurava a mão, se preocupava de um jeito diferente, fazia caretas ou falássemos de qualquer assunto com naturalidade.

Meu ponto é: os melhores textos e as melhores pessoas da nossa vida são aquelas que nos marcam à primeira vista. A primeira leitura. São essas pessoas e esses textos que você deve guardar para sempre, mesmo que depois de um tempo só reste lembranças.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Crônicas de um repórter novato - parte VII

Lá estava eu, sentado em um círculo que mais parecia uma elipse com mais catorze candidatos ao meu redor. Era a terceira fase de um processo de seleção para um grande jornal aqui de Porto Alegre. As outras duas fases foram concluídas com ímpeto, mas de algum modo não estava tão empolgado na penúltima. Justo agora. Explico, deveríamos fazer um texto a partir de uma bateria de perguntas que jogaríamos para a entrevistada, alguém importante do jornal. A verdade é que essa prova fez eu me remeter àquela velha pergunta que me corroí há tempo: devo fazer o básico, escrever o texto normal do jornalismo ou tentar fazer algo ao meu estilo? Tive essa dúvida durante toda as perguntas que estavam sendo feitas.

Para mim era algo como: devo trair o modo como escrevo e conseqüentemente como enxergo o mundo? Devo me render agora? Já serei moldado? Pode parecer ingênuo, mas todas essas questões estavam passando pela minha cabeça, enquanto eu que deveria estar fazendo perguntas para entrevistada. Quando vi, o tempo já havia se esgotado e eu não tinha feito nenhuma pergunta. Porém tinha anotado algumas das respostas que ela dera.

No final, acabei escrevendo como eu gostaria, como eu achava mais atraente. Não aquela maçaroca toda de informação sobre o seu trabalho, mas algo como um perfil, com voz narrativa do autor, tentando englobar o que acontecia por fora. Mas acho que não foi um bom texto também. Tenho uma teoria sobre os textos e sobre as pessoas, que vem logo em seguida para complementar essa crônica.

Enfim, não passei para a próxima fase, mas não fiquei decepcionado. Escrevi como achei que deveria. E mesmo que não tenha ficado bom na hora, sei que um dia invariavelmente posso acabar trabalhando lá e tentando fazer as coisas do meu jeito. Enquanto isso estou a procura de um estágio, porque a minha bolsa de pesquisa já acabou.

Então se alguém souber de algum, por favor, me avisem. =) haha