domingo, 19 de outubro de 2008

Pessoas

“O inferno são os outros” teria escrito Sartre, frase que foi reinterpretada, mantendo basicamente o mesmo significado no seriado “Seinfeld”. Foi Jerry, o protagonista da série americana mais famosa da década de noventa, que a disse, certa vez: “ Pessoas? Elas são as piores!”. Pode até ser verdade, essa afirmação caricata do personagem que representa toda o egocentrismo da década passada, mas será que as pessoas também não podem ser a salvação? Acredito que sim, mesmo que estejamos num tempo em que a crença é algo inerte e fadado ao esquecimento contínuo. De alguma forma ou outra perdemos a fé nas questões mais simples da humanidade. O inferno não está mais nos outros, está em todos os lugares, espalhado por nossa pele, dominando-nos totalmente. Talvez devêssemos expulsa-lo, usando de uma linguagem mais pura e nítida, clarificar as coisas até que surja tudo novo. Mas aí surge a preguiça, são tantos poréns, que tenho medo às vezes de não chegar a ser alguém por inteiro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Parabéns

Não foi um encontro casual, já estava combinado, eles, enfim, se falariam pessoalmente. O céu já ensaiava uma pequena chuva: a camada de água serviria para cobrir os transeuntes. E, de certa forma, cobri-los também, enrolá-los em uma nuvem mútua de um sentimento que estava para nascer. Ônibus, Universidade, debate e mão, nessa ordem mesmo, as palavras e a conversa fluíam. Interessante ouvi-la, interessante ouvi-lo. Não estavam com receio, mas o sagrado momento da união interpessoal não chegava, parecia sempre beirar, estar preste a acontecer, como um navio que se desloca antes de enfim, aportar. E o instante chegaria perto da despedida:

- Por que você resolveu me conhecer afinal? - ela pergunta, meio que rindo, buscando a verdade nas entrelinhas.

- A gente tem que ir atrás do que nos interessa... – ele respondeu em meio tom, cabeça baixo, olhando e desviando dos seus olhos.

Então pequenos risos tímidos aconteceram, alguns ônibus que a levariam embora passaram, mas ela ainda ficava, como se esperasse o momento certo (mais tarde ela revelaria que era isso mesmo). Foi então que ao se despedir para pegar o transporte coletivo final, enquanto trocavam beijos no rosto, a boca foi se desviando e encaminhando-se como se seguisse uma trilha para o outro lábio. E então eles se chocaram, criando outras oportunidades, outros caminhos, outros mundos. E mesmo que chovesse pelos corpos, e mesmo que se o sol chocasse na terra, nada poderia parar aquela sensação.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Contato

Foi com receio que ele se aproximou da porta de madeira da casa velha. A mãe proporcionou a motivação: tirou - o do carro com uma força que ele, até então, não conhecia, falou boa sorte e entrou novamente. Ligou o motor e partiu, o menino só observou , pode ver o automóvel virando a esquina, o velho carro cinza que a mãe tanto cuidara. Ao dar a volta para encarar a porta, um estranho o esperava. Mascando um chiclete, ou qualquer outra coisa de goma, ele fechava e abria a mão, como se fosse trabalhar no campo, arando a terra. Encabulado, o rapaz foi ao seu encontro, segurando a mochila nas costas, com o espírito inquieto e punhos cerrados. Entrou em silêncio na casa, compartilhando – o com os móveis e o chão empoeirado. O velho ainda demorou alguns segundos, olhou pausadamente para os dois sentidos da rua, depois caminhou até a porta e a trancou. Ambos não sabiam o que dizer, talvez já fosse tarde - para qualquer contato, para qualquer aproximação. O menino se sentou e ficou lá esperando, percebendo toda a barreira que se instaurava entre as gerações. Sem saber o que falar, o velho trouxe uma foto, que achara em meio a desordem do seu quarto, da sua vida. Cuspiu o chiclete fora, se aproximou lentamente e esboçou as palavras:

-Sua mãe, quando criança tinha esses seus olhos...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Crescendo (ou como eu queria que isso não acontecesse)

Comecei a notar a diferença em suas atitudes no momento em que ela deixou de abanar para mim da janela de vidro da cozinha, quando eu saía para a faculdade. A mão branca e pequena sempre pendia por trás da cortina que dividia o rosto em dois, os joelhos na cadeira para conseguir me enxergar. Aonde eles estavam agora? Ao chegar, já no final da tarde, ela também não me procurava mais: se ocupava agora com a tevê, ou com a nova maquiagem que a mãe tinha comprado. Com o tempo, os programas que ela assistia também mudaram, não eram mais tão infantis, onde estaria o Bob Esponja e o siri cascudo? Os seus gestos, antes tão meus, antes tão nossos, agora eram afastados sem querer, por um muro que o crescimento cria – a infância, infelizmente, não pode durar para sempre. Não consegui evitar certo ressentimento em não poder mais pega-la ao colo, ou leva-la na vó, “agora eu já sou grande, mano”. “Grande com nove anos”, penso eu e a seguro pela mão, quase que pedindo para levá-la e enfim, conseguindo conduzi-la até a casa da mãe do nosso pai.

É, o tempo passa Rafael, o tempo realmente voa.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Teoria número nove: sobre filmes e comportamentos

Liguei a televisão, canal global, o filme que se sucedia, assim mesmo sem conexão, era um daqueles da Xuxa, perdido pela tarde, cantando velhas canções, quase mortas, da década de 80. Não resisti a tentação de apertar o botão off. Não queria ficar enjoado. Pois é, acredito que haja uma bela ligação entre filmes e comportamentos, vontades, necessidades. Ver um filme deixou de ser apenas uma diversão há muito tempo. Eles ditam as nossas vontades. Por exemplo, estou perdidamente apaixonado, meu coração de idealista romântico pede um filme (adivinhe?)romântico. Pode ter certeza que o melodrama água com açúcar entrará como um soro na minha veia, e eu terei o meu remédio. Isso, porque há um grande diálogo entre o meu corpo e o filme, trocaremos sinais de entendimento: ele saberá exatamente a hora de me emocionar e eu a hora de acabar cedendo. A música tocará o meu sentimento, a relação entre os personagens me levarão a um outro sentido. Tudo me levará a um maior entendimento das minhas sensações e me fará ver o romance na minha pessoa. Os filmes são uma das fontes de maior compreensão e inspiração nesse mundo, por deus esquecido.

Obstáculo 9

São as palavras repetidas que me fazem suar. Todos os dias são travadas inúmeras batalhas, atrás daqueles vocábulos carrancudos que se escondem na cabeça, e se perdem pelos pensamentos tortos. O desafio é não estagnar nessas sinuosidades, sempre é necessário pensar no texto: abrupto, puro, delineável. Capaz de tecer linhas imaginárias com o leitor. Que ele possa sensibilizar, ou proporcionar a reflexão em todas as frases menores . Mesmo que seja apenas uma página pequena, composta por um discurso difuso, singelo, inexorável. Tenho medo daquilo que não podemos ver, mas o medo é o que mais me motiva na busca a novas palavras: um muro eterno que se deve transpor, uma luta sempre nova e sempre sempre.

sábado, 27 de setembro de 2008

Gerações musicais

Às vezes eu queria soar como aquelas músicas românticas dos anos cinqüenta, quando as pessoas cantavam com ternos engomados, sapatos lustrados, alguma substância melequenta no cabelo e com o coração na mão. Na mão, droga. Depois, eu penso melhor e imagino o quão pode parecer demasiadamente sentimental uma afirmação dessas, talvez, devesse pular uma década, imaginando-me nos anos sessenta, com a geração betlemaníaca. Dando gritos histéricos de guriazinhas idiotas, e crescendo junto com o quarteto de Liverpool, viajar nas suas canções, observar o amadurecimento das letras e das melodias, o modo como ditavam a moda, os cabelos, os bigodes, as drogas. Tudo fluiria sob mim e sobre mim, marcando minhas atitudes, mas alguma coisa na minha mente me faz pensar na década de setenta. Suas músicas disco maravilhosas, o groove do contrabaixo a empolgação das pessoas. O que importava era o ritmo, o balanço. As calças bocas de sino, o cabelo black power, e por outro lado o hard rock que começava a nascer, os hippies e john lennon na ativa contra a guerra do vietnã, o punk surgindo na Inglaterra e nos Estados Unidos. As grandes viagens do Pink Floyd, toda uma geração cantando, toda uma geração ouvindo músicas da melhor qualidade. Não sei qual seria a melhor época, ainda há os malucos anos oitenta, com as inovações pops, a voz estonteante de Freddy Mercury, e o nascimento absurdo do techno. Os cabelos volumosos, os ternos bregas, as letras bregas, as cores bregas. Tudo florescendo novamente, como uma bomba de novidade, além disso, a maioria das canções pareciam ter um eco triunfante nessa época. E então chega a crueza dos anos noventa, Kurt Cobain, jogando toda a purpurina da década passada para o lixo, sendo direto, juvenil, rebelde, imaturo. Morrendo jovem. Talvez a década de noventa tenha morrido jovem, ou viveu jovem por tempo demasiado. Beck e outros cantavam o modo “loser” de ser. Os nerds começam a entrar na moda, e mais para o final da década, surgem as bandas de pós rock, indies, nova invasão britânica, todos com nomes diferentes, mas com uma sonoridade muito parecida. As letras se tornam cada vez mais pessoais ou intimistas, mas todas as canções tristes continuam falando de amor. Seja com meleca no cabelo, com gritos de ié-ié-ié, calças bocas de sino, eco triunfantes, ou juventude exagerada.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

"É final de setembro"

Renato caminha pela calçada em frente a sua casa, conta os passos, conta a respiração, depois pausa e tenciona entrar em sua residência. Mas não consegue. Quem estará lá dentro? São sempre pessoas diferentes, tantas personalidades envoltas em uma família. "O que eu serei, quando atravessar a porta?" ele pensa. Em seu caso, dependia da época do ano, do mês, da estação. “É final de setembro”, sopra as árvores ao lado, e ecoam, chegando a sua cabeça, pulando para dentro do sangue, dançando nas suas articulações. “É final de setembro”, continuam os Ipês ao seu redor. Assustado, mas entendentendo o que se passa, ele levanta do meio fio na calçada. Porém não é mais Renato, transformado ele se confunde com a estação ao seu redor. Atravessa o portão calmamente, cada vez mais solidificando os pés no chão, trancando suas raízes no pátio, tornando-se parte do verde, parte da terra. Parte da família.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Entre parênteses

Queria ser como uma escada que não pára de subir. Como o céu cinza antes da chuva, o tempo todo envolto em águas, o tempo todo esquecendo o tempo. Queria poder tocar o céu e depois descrevê-lo no ouvido dela, como se fosse a droga de uma canção que nunca deixará de tocar. Queria colar nela e sumir, sumir junto. Mas não é o que acontecerá, enquanto os acordes ainda batem no seu ouvido, eu já estarei a mil metros de distância. Porque eu sou assim. Não tenho jeito, não sei se quero ter um jeito. Certas pessoas nunca mudarão, a vida é fugaz até termos consciência que não viveremos para sempre. Não sei, no momento só escrevo o que o dedo quer, o que o teclado quer, o que a tela diz que quer. Como você deixou de acreditar em você mesmo, rapaz? Ah, esqueça tudo, uma dose de vodka resolverá o seu problema. Eu estava cego, mas agora posso vê-lo. Alguém pode apagar aquela luz?

Fale comigo, fale comigo.

sábado, 13 de setembro de 2008

Notuss (paracetamol, cloridato de difenidramina, cloridato de pseudoefedrina e dropropizina)

O remédio que venho tomando para tratar a maldita doença na garganta, que me ataca faz um tempo, me dá um sono incrível. É difícil se concentrar para fazer qualquer coisa útil, tal como ler algum texto para a faculdade, ou começar a escrever aquela matéria para o jornal. Não dá. O que ando fazendo nesses últimos dias é me medicando, vendo vários filmes que aluguei e descansando, torcendo para que a faringite vá embora logo. É incrível como a garganta pode derrubar a pessoa. E é nesse ponto que consegui perceber como todas as coisas estão interligadas. Assim como essa dor a que acaba influenciando todo o resto do corpo, as nossas ações na vida também acabam criando novas atitudes. O que fazemos modifica todo o ambiente ao nosso redor. Para melhor, ou para pior, talvez no fundo nosso subconsciente saiba exatamente disso, que nós não temos força para nada, que somos medrosos e agimos por impulso, não sei. Só sei que estou com sono, e meus dedos também, mas o remédio é necessário, ele vai me ajudar na tosse...


obs: adeus, lucas. Fique forte na sua nova empreitada, sucesso. Aqui vai o link do novo endereço dele: http://objetividades.blogspot.com/