sexta-feira, 30 de abril de 2010

Teoria número vinte e oito: sobre a útil banalidade do amor e a importância dos atos.

Dizer "eu te amo" depois de um tempo torna-se uma coisa supérflua, quase obsoleta. O que significa a união dessas três palavras? Confere sentido a elas somente os atos que a demonstra. Disto isso, falar "estou com saudades" é muito mais expressivo, pois agrega mais emoção e mais realidade no sentir falta, no desejar a presença da pessoa.


Há a premissa também, alguns indivíduos afirmam, que dizer “eu te amo” é algo banalizado ao extremo. Mas já é outra questão, porque banalizar é um conceito estranho. Para eu afirmar que dizer “eu te amo” foi banalizado, devo partir do princípio que dizer “eu te amo” é algo extremamente raro e que deve ser muito complicado e difícil sentir o tal amor. Confesso que já pensei desse jeito e hoje penso que o amor é, de certa forma, o que une todas as pessoas. É também o que faz o mundo girar. “All you need is love”, não? Logo, se o amor está em toda a parte ele já é algo tão comum, tão banal. Entenda, é diferente do que a pessoa se conhecer ontem e hoje já dizer “hey, eu te amo”. Não é isso, não é paixão de Orkut. Amor é sim o que nos une, sem até que percebamos.(Engraçado notar como o amor trabalha por instâncias, já que ele é o sentimento responsável por, de certa forma, unir a todos, é óbvio que ele une mais algumas pessoas, daí as amizades, daí os namoros, daís os casamentos).


E nos une através dos atos, porque apenas expressar por palavras não adianta e com o tempo torna-se obsoleto. Hey, não quero você pense que não possa mais dizer eu te amo, mas demonstrar isso é muito mais rico e necessário dentro de qualquer relação. E você sabe, sei que você sabe, porque qualquer indivíduo, até o mais frio e arisco de todos, tem a condição de amar – e de demonstrar isso.

Crônicas de um repórter novato - parte XVI

Domingo agora viajarei para São Paulo a fim de participar do Congresso de Jornalismo Cultural da Revista Cult. Estou realmente excitado, porque acredito que uma viagem sempre agrega coisas novas e o congresso, certamente, será uma experiência enriquecedora. E acho que ele chega em um momento de definição para mim.

Estou há cerca de oito meses trabalhando na editoria de Cultura aqui do Jornal do Comercio (Rio Grande do Sul), e durante esse tempo tive a oportunidade de produzir e escrever várias materias. Assim como também tive a chance de entrevistar muitas pessoas, algumas bem interessantes, e que me deram uma carga de conhecimento e experiência que carregarei durante toda a minha vida.

Para quem lê essa coluna desde o começo deve notar como a minha opinião sobre o jornalismo mudou desde que comecei a trabalhar no jornal diário. Isto é, antigamente as dúvidas me cercavam e eu me questionava se realmente essa profissão era para mim. Com o tempo descobri que os bons repórteres sempre têm dúvida, assim como qualquer bom profissional em qualquer área. A diferença é que as dúvidas sempre serão respondidas com o tempo, ou viram uma especie de obsessão, igual àquela objetividade - em tese - sempre buscada pelo jornalista (o horizonte que nunca alcançaremos, mas que deve ser sempre o nosso norte).

E acho que para mim o jornalismo também virou um tipo de obsessão, não tanto quanto escrever, mas é algo que realmente desejo fazer. Mas fazer do meu jeito, tentar arranjar um espaço para mim através de muito trabalho, um pouco de sorte e talento.

Ser obsessivo não é tão ruim assim, já diria Woody Allen.

Quando digo meu jeito penso em ser empreendendor. Felizmente ou infelizmente, nunca gostei de ser mandado - acho que herdei isso do meu pai. Então, essa é minha meta agora. De um modo obsessivo trabalhar com o jornalismo tentando me mandar. Será possível? Ainda não sei, mas agora é o horizonte que tento alcançar.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A terra girou para nos acostumar



É assim que eu queria a vida ao seu lado. De cabeça para baixo e com todas as coisas se desejando. Assim como a natureza, essas árvores verdes, fingindo afeto, ansiando por atenção. Por que você não é mais assim comigo quando estou perto e quando não estou, Beth? Virar essa foto me deixou com saudade da época que fazíamos sexo cinco vezes por dia, desculpe se era segredo. Mas o que nós fazemos agora? Viajamos para a praia e tiramos fotos da paisagem na estrada. Você dorme na poltrona do passageiro e não me chama mais para passear na areia.


E, de vingança, eu viro as suas fotos. Mas gostaria era de virar a nossa vida.


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A ilustração desse mês, no caso uma fotografia, é de Tainá Ludmila




domingo, 25 de abril de 2010

Gangorra

Eu já sei que você é daquelas que sente demais e chora demais. E depois sorri demais e pula demais, dança demais. Mente demais com os olhos, querendo dizer uma coisa, mas falando outra. Isso ainda vai lhe matar.


E eu sei que você sabe que eu sinto de menos e choro de menos. E sorrio de menos, pulo de menos, danço de menos. Falo demais com os olhos, dizendo coisas que eu realmente quero dizer. Isso de certa forma também vai me matar.


E daí, dona Francine G, que o nosso destino é demais e de menos. Às vezes deve se inverter e contrariar todas as escolhas, droga. O que quero dizer é que é justamente isso que se deve fazer quando os atos começarem a ficar deveras premeditados.


Prometo que eu vou dançar demais, pular demais, sentir e chorar demais.


E você, promete que será de menos também?

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Que nunca termina

Ainda finge que é casada.

Coloca os dois pratos na mesa

e na hora de dormir

procura o abraço por entre


os travesseiros.


Perde para o cansaço apenas depois das três.

Lembra até do forte barulho ao respirar

e dos, vários, tiques

ao dormir.


O calçado ainda está na mesma posição.

Assim como despertador

pronto para tocar.


Tempo que não volta,

hora que nunca termina.


Essa é a sina.

Assina.

Assassina.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Era torto e necessário - Postagem Temática

Joguei a folha rabiscada com a frase para Elisa que fugiu após escutar o papel caindo no chão da sala. Foram alguns passos até estancar no meio do carpete, parada perto do sofá. Ela nada dizia. Eu permanecia calado, esperando alguma reação após a minha desesperada tentativa de contato. Acredito até que ela tenha chegado a ver a frase, mas não dera atenção; preferiu se omitir de minhas palavras para não precisar responder. Falar também já não mais adiantava, desisti após semanas de contínuos vácuos que só serviram para me inibir e partir para essa vexatória tentativa de aproximação por meio da palavra escrita. Comecei então, desde que percebi que a oralidade não adiantaria, a colar pequenos recados em cada cômodo da nossa residência, tais como:

Nunca obtive reação. Depois de um tempo os encontrava amassados por várias partes da casa, e já que colar nas paredes não bastava comecei a tentar surpreendê-la atirando em sua direção os pequenos pedaços de papel com as palavras para ela ler. Era patético. Mas eu não estava nem aí para nada, o fato do silêncio cru, malicioso e genérico em relação a mim me incomodava tanto que ao invés de ir embora, ao invés de sumir do lugar permanecia ali só de birra, só para ver quem venceria a nossa briga.


Foi então que decidi mandar o último recado, aquele que seria o derradeiro, e joguei para ela as últimas palavras no papel acertando as suas costas, ela não me olhou (como ela sempre faz, com aqueles malditos cabelos lisos ruivos escuros compridos até um pouco antes da bunda maliciosa, aquela pele que só por aparecer já se faz mais presente do que todas as peles de todas as pessoas que eu já cansei de ver por aí). Ela não me olhou e ainda riu como de escárnio, com a boca rosa colorida pelo batom que eu havia lhe dado no seu aniversário há alguns meses, e sentou no sofá.


Pegou lápis qualquer e começou a escrever emendado – pude notar que era emendado por causa do tempo que tomou, por causa daquela letra caprichada que eu sabia que ela tinha. Escreveu e nunca olhando para mim, retirou o pequeno papel do caderno, denunciando aquele barulho cru e sangrento que cometemos ao cortar o cordão umbilical da folha. Depois disso, como se não bastasse, ainda decidiu amassá-la e – sempre olhando para o lado – jogou agora pequena bolinha de papel para mim.


Eu, como se buscasse o ouro das mãos de alguma ninfa de algum deus grego antigo, busquei a folha e revirei vigorosamente o pedaço torto do papel. Revirei até deixar visíveis as palavras, e então a frase e logo o ponto final. Era torto e necessário:



Esse conto também é minha humilde homenagem ao escritor Raduan Nassar .



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Essa postagem faz parte do projeto BlogSintonizados. Funciona assim: É escolhido um tema por meio de uma votação e, a partir disso, os blogs postam sobre o assunto mais votado. Entre no blog e participe você também. Será muito bem vindo.

Sugestão para a próxima edição: novelas.




sábado, 17 de abril de 2010

Carta 04

Paz novamente graças a sua chegada. Posso escrever com todas as palavras que anseio logo em ser sua. Sinto falta dos seus olhos no segundo que eles se fecham para piscar. Não é doentio? Não é doentio. É como me sinto, quando você está por perto e, sinto mais ainda, quando está longe. E, como você sabe, só falta a resolução do meu problema para os nossos olhos se fixarem. Não pense que a sua ausência só me trouxe desolação. Em boa parte é verdade, mas também é verdade que na outra parte eu pude pensar bastante em um plano que resolvesse a nossa união.


Sim.


E foi anteontem que ele surgiu: simples e rápido. Apesar dos pesares é um plano que me levará diretamente para você, Gustavo. Fui no armazém aqui perto de casa, ao lado da delegacia que o pai trabalha. Irônico, não? Fui até a venda e pedi para o João o veneno mais forte contra ratos que ele tinha no bar. Coloquei na conta do pai. Ri um pouco ao ver o velho português anotando os quase dez reais naquele bloco de papel. Será que as dívidas serão perdoadas depois que ele falecer?


Não é doentio? Não é doentio quando se refere a você. E você sabe.


Desde quando o meu pai teria direito de te expulsar daqui daquele jeito? Abusar da força bruta logo contra você que nunca fez nada. Logo contra você de quem eu sempre gostei e nunca fiz questão de esconder. Ele sabe. Hoje à noite estarei colocando o veneno no meio da sua refeição assim que ele chegar em casa, pedindo por comida. Assim que ele chegar em casa, largar as suas botas de couro, a arma e sentar no sofá. Não consigo esconder um pouco de satisfação, penso em cortar em pedaços e colocar no meio dos temperos.


Eu sou doentia, Gustavo?


Quem mandou seus olhos serem tão bonitos?


Da sua,


Isabela

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Pelas costas

Hélio nota as pessoas que jantam ao seu redor lá pelas oito horas da noite de uma segunda feira, quando o garçom traz o drink, com um sorriso no rosto e vai embora para sempre da sua visão. A senhora gorda, com o cabelo marrom encrespado sentada na mesa da frente, coça as costas com dificuldade, enquanto se ajeita na cadeira, ao mesmo tempo em que leva o garfo ao prato em busca de mais comida, mais comida, mais comida. Ele observa a cena com frieza: o quase tombo daquela estranha figura e o vestido apertado laranja claro só ajudavam a completar o bisonho quadro. Conduziu o drink até a boca e desviou o olhar. Gostaria de imaginá-la mais bonita, mais educada, mais sensual. Por que o mundo conspirava contra ele até nos coadjuvantes? Porque não poderia beber uma boa bebida sem que houvesse também uma boa mulher para admirar? Nesses momentos costumava fechar os olhos e imaginar a sua parceira ideal, ou alguém com quem pudesse pelo menos jantar. Há tempos não jantava com ninguém. Sentiu uma dor de barriga e chegou a cuspir para fora um pouco de sua bebida, quando na sua imaginação ainda aparecia à figura da mulher a sua frente. Agora sem roupa, com os seios flácidos caindo até a metade da barriga, as pernas tortas e os braços gordos. Braços gordos. O rosto ainda era uma incógnita. Permanecia disforme uma vez que só conseguira ver as suas costas. Ainda bem, ele pensara. Não entendia porque ela aparecia sem roupa, ou por que ela aparecia. Justo ela? Talvez fosse a bebida, talvez o garçom risonho, o maldito garçom com aquele sorriso de funcionário serviçal no rosto tenha o envenenado. Pronto, era isso, agora a noite estava estragada. Não conseguiria dormir com tamanha visão, não conseguiria escapar daquela mulher. Ela o havia amarrado de uma forma estranha e confusa. E ela continuaria comendo, comendo, comendo. Até o fim da noite.

domingo, 11 de abril de 2010

Esperar como esperei

“A gente se deu tão bem...







que o tempo sentiu inveja.”

Ótima banda. Ótima música.



quinta-feira, 8 de abril de 2010

Só minha


Tem coisas que eu não falo a ninguém
- só a você, poesia –.
Pois só ela tem a sublime maestria
de aceitar as coisas sem desdém...
A poesia é minha amiga, viu?
Mas não fale a ninguém...
Com ela eu falo dos segredos
e conto os meus medos.
Ela me entende e me diz
tudo que não consigo perceber.
É aí que eu viajo e me perco
num mundo de ideias e clichês.
Lá eu encontro a poesia.
Trocamos uma ideia e
discutimos sobre os últimos acontecimentos
banais.


terça-feira, 6 de abril de 2010

Meu futuro eu deixo com os pássaros


Quando você voltar para esse mundo será no formato daquele pássaro que tanto admirava. Pequeno, discreto, com as penas marrons claras. Aquele que solta as asas na rua e voa por aí, sem rumo. Pouco percebido e, justamente por isso, tão livre. Vai pousar nos capôs dos carros, nos canteiros das janelas, nos fios de energia que ligam os postes. Vai roubar a uva na parreira daquela única velhinha que ainda tenta cultivar a fruta na cidade grande. Montará ninho em algum poste, ou em árvore qualquer – um ninho tão forte que nem a chuva ou outra ventania vai ousar destruir. E vai voar por aí e de algum modo dará um jeito de me encontrar de novo. Em qualquer formato, em qualquer circunstância. O futuro a gente deixa com os pássaros.


sábado, 3 de abril de 2010

Já tem até identidade


Quase dá para ver ela entrando, mas não chega a ter formato. Na realidade, eu mais sinto do que vejo, acontece que é tão forte que já veste pele, veste roupa e conversa. E mesmo que a palavra que a designa não exista em nenhuma outra língua do mundo, fora a nossa, duvido que os estrangeiros não saibam do que estou falando. Duvido que eles nunca tenham nutrido afeto por alguma pessoa e que não sintam falta, quando afastado de sua presença. É aí que vêm as músicas, os textos, os filmes. Tudo para se lembrar daquele individuo em especial, tudo, de certa forma, tentando abafar aquele sentimento, aquela palavra tão bonita que só existe no nosso vocabulário. A minha saudade nunca se acostumará, porque ela provém de sentimento forte. A minha saudade já tem roupa favorita e identidade. Com CPF. A melhor escolha é ser seu amigo. Fazer o quê? Pelo menos, é uma boa amizade.